Estudo revela mecanismo que permite animal viver anos sem se alimentar

Estudo revela como isópodes gigantes conseguem sobreviver mais de cinco anos sem comer nas profundezas do oceano.


Por Leticia Florenco

10/06/2026 às 10h23

Estudo revela mecanismo que permite animal viver anos sem se alimentar

Passar alguns dias sem comer já representa um enorme desafio para o corpo humano. Em situações extremas, uma pessoa hidratada conseguiria sobreviver por poucas semanas ou, no máximo, cerca de dois meses sem alimento.

Mas, nas profundezas dos oceanos, existe um animal capaz de transformar essa lógica em exceção: o batinomídeo supergigante, um isópode de águas profundas que pode ficar mais de cinco anos sem ingerir qualquer refeição. Agora, cientistas finalmente descobriram como isso é possível.

O mecanismo foi descrito em um estudo publicado na revista científica Cell e conduzido por pesquisadores da Universidade da Academia Chinesa de Ciências (UCAS).

A investigação revela que a impressionante resistência desses crustáceos é resultado de uma combinação de adaptações anatômicas, metabolismo extremamente econômico e alterações genéticas incomuns.

Sobrevivência em um ambiente hostil

Os batinomídeos habitam regiões profundas do oceano, onde a luz solar não chega e os nutrientes são escassos. Nesse ambiente, encontrar alimento é uma questão de sorte.

Carcaças de peixes, restos de organismos marinhos e matéria orgânica que afunda das camadas superiores do mar podem levar longos períodos para aparecer.

Mesmo diante dessa escassez, esses animais conseguem manter suas funções vitais por anos.

Para entender como isso acontece, os pesquisadores analisaram duas espécies: Bathynomus doederleini, encontrada a cerca de 300 metros de profundidade, e Bathynomus jamesi, registrada a aproximadamente 898 metros abaixo da superfície.

A equipe integrou análises genômicas, fisiológicas, morfológicas, comportamentais e metagenômicas para desvendar os segredos da extraordinária tolerância à fome.

O estômago que ocupa quase todo o corpo

Uma das descobertas mais impressionantes do estudo está relacionada ao tamanho do sistema digestivo desses animais.

Os cientistas identificaram que o estômago dos batinomídeos supergigantes ocupa cerca de dois terços de todo o organismo. A proporção é muito maior do que a observada em isópodes de águas rasas e de regiões costeiras.

Na prática, isso permite que os crustáceos consumam grandes quantidades de alimento sempre que surge uma oportunidade.

Após a alimentação, o conteúdo ingerido é transformado em uma substância semelhante a uma pasta, já bastante digerida, que permanece armazenada e serve como reserva energética durante os longos períodos de jejum.

Metabolismo desacelerado é a chave

A capacidade de armazenar alimento, no entanto, não explica sozinha a resistência desses animais.

Os pesquisadores descobriram que os batinomídeos possuem uma taxa metabólica basal extremamente baixa. Isso significa que gastam menos energia para manter funções essenciais do organismo.

Depois de uma grande refeição, o metabolismo entra em um estado de depressão metabólica, reduzindo o consumo energético e permitindo que as reservas sejam utilizadas lentamente.

Esse mecanismo transforma o corpo do animal em uma verdadeira máquina de economia de energia.

Gene adquirido de bactéria surpreende cientistas

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: a identificação do gene ND1, que teria sido incorporado ao genoma do isópode por meio de transferência horizontal de genes.

Diferentemente da herança genética tradicional, transmitida de pais para filhos, esse processo envolve a aquisição de material genético entre organismos da mesma geração.

Segundo os cientistas, o gene teria origem em uma bactéria simbiótica e passou a exercer um papel importante na regulação do metabolismo energético.

A elevada expressão do ND1 atua diretamente nas mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia celular, ajustando o grau de economia metabólica do organismo.

O frio das profundezas potencializa o efeito

Os pesquisadores também descobriram que esse mecanismo funciona de maneira ainda mais eficiente em ambientes frios, como os encontrados nas grandes profundidades oceânicas.

Para confirmar a hipótese, o gene foi introduzido experimentalmente em peixes-zebra, nematóides e células humanas cultivadas em laboratório.

Os testes mostraram que, sob temperaturas reduzidas, a tolerância à privação de nutrientes aumentou em cerca de 37%.

A descoberta sugere que a combinação entre baixas temperaturas e ajustes genéticos ajudou esses animais a prosperarem em ambientes considerados extremos.

Descoberta amplia compreensão sobre a adaptação da vida

Em comunicado divulgado pela universidade, o pesquisador Jianbo Yuan afirmou que o trabalho vai além de solucionar uma curiosidade sobre a biologia marinha.

Segundo ele, a pesquisa oferece um importante modelo para compreender como diferentes formas de vida conseguem equilibrar crescimento e sobrevivência em condições adversas.

A estratégia evolutiva observada nos batinomídeos demonstra que a natureza é capaz de desenvolver soluções altamente sofisticadas para enfrentar desafios extremos.

Enquanto seres humanos dependem de alimentação constante para manter o funcionamento do organismo, esses habitantes das profundezas transformaram a escassez em vantagem evolutiva.