Adolescentes estão usando IA para pedir conselhos de saúde mental
Estudo revela que quase 20% dos jovens usam IA para apoio emocional, muitas vezes sem contar à família.

A inteligência artificial está assumindo um novo papel na rotina de adolescentes e jovens adultos: o de fonte de apoio emocional.
Um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics revelou que quase um em cada cinco jovens nos Estados Unidos já utilizou chatbots de IA, como ChatGPT e Google Gemini, para buscar conselhos relacionados à saúde mental.
A pesquisa indica que o uso dessas ferramentas para lidar com sentimentos de tristeza, ansiedade, estresse ou raiva tem crescido rapidamente.
Em apenas um ano, o percentual de jovens que afirmaram recorrer à IA para esse tipo de ajuda passou de 13% para quase 20%, sinalizando uma mudança na forma como essa geração procura acolhimento e orientação emocional.
Uso frequente e cada vez mais comum
Os pesquisadores aplicaram questionários on-line para adolescentes e jovens adultos, investigando se eles já haviam utilizado chatbots para receber conselhos quando se sentiam emocionalmente abalados.
Também foram avaliadas a frequência desse uso, a percepção sobre a utilidade das respostas recebidas e se os participantes compartilhavam essa experiência com outras pessoas.
Os resultados mostraram que o hábito não é apenas esporádico. Entre aqueles que já recorreram à inteligência artificial para esse fim, mais de 40% afirmaram utilizar os chatbots pelo menos uma vez por mês.
Já 5,8% disseram buscar esse tipo de aconselhamento diariamente ou quase todos os dias.
Os dados sugerem que a IA está se consolidando como uma ferramenta acessível e disponível a qualquer momento, especialmente para jovens que encontram dificuldades para conversar sobre seus sentimentos com familiares, amigos ou profissionais.
A experiência é considerada positiva
Apesar das preocupações levantadas pelos especialistas, a maioria dos participantes relatou experiências satisfatórias. Segundo o estudo, 91,7% dos usuários consideraram úteis os conselhos obtidos por meio dos chatbots.
A rapidez nas respostas, a possibilidade de desabafar sem exposição e a sensação de ausência de julgamento podem explicar a avaliação positiva.
Para muitos adolescentes, conversar com uma inteligência artificial parece mais confortável do que iniciar um diálogo presencial sobre questões emocionais delicadas.
Entretanto, os pesquisadores alertam que a percepção de utilidade não deve ser confundida com eficácia clínica.
O fato de o usuário se sentir acolhido não significa, necessariamente, que o conselho recebido seja adequado ou baseado em evidências científicas.
Apoio emocional mantido em segredo
Outro aspecto que chamou a atenção dos autores foi o sigilo envolvendo esse comportamento.
De acordo com a pesquisa, 63,3% dos jovens que utilizaram chatbots para aconselhamento sobre saúde mental nunca contaram a pais, amigos ou outras pessoas próximas sobre essa prática.
O dado revela que muitos adolescentes preferem lidar com suas dificuldades emocionais de maneira reservada, recorrendo à tecnologia sem o conhecimento de sua rede de apoio.
Especialistas apontam que o silêncio pode estar relacionado ao medo de julgamentos, à vergonha de admitir sofrimento psicológico ou à sensação de que a inteligência artificial oferece um espaço privado para expressar sentimentos.
Especialistas fazem alerta
Embora reconheçam o potencial dessas ferramentas como recurso complementar, os pesquisadores reforçam que os chatbots não substituem o acompanhamento profissional.
A inteligência artificial é capaz de gerar respostas baseadas em padrões de linguagem, mas não possui formação clínica, capacidade diagnóstica ou compreensão genuína das experiências humanas.
Além disso, alguns sistemas tendem a oferecer respostas excessivamente agradáveis e concordantes, o que pode reforçar percepções equivocadas ou minimizar situações que exigem atenção especializada.
Problemas como depressão, transtornos de ansiedade, automutilação e pensamentos suicidas requerem avaliação individualizada e acompanhamento de profissionais capacitados.
A pesquisa mostra que os chatbots já fazem parte da vida emocional de muitos jovens.
O desafio, agora, é garantir que a tecnologia funcione como uma porta de entrada para o cuidado e não como substituta do suporte humano necessário diante do sofrimento psíquico.









