Mineiridades: O casal que movimenta Tiradentes
Nesta terceira matéria da série ‘Mineiridades’, conhecemos um dos casais que mais movimenta o setor turístico em Tiradentes. Desde restaurantes até pousadas, o casal é destaque na cidade.

“Libertas quae sera tamen.” O lema estampado na bandeira de Minas Gerais carrega um significado presente em Tiradentes. A frase foi proposta pelo poeta e inconfidente Alvarenga Peixoto durante a Inconfidência Mineira (1789). Inspirados no Iluminismo, Tiradentes buscava uma república independente no Brasil. Mais de dois séculos depois, a cidade preserva não apenas a arquitetura colonial e a memória histórica daquele período, mas também um espírito de construção coletiva e autonomia que hoje se reflete no turismo, na gastronomia e nos pequenos empreendimentos locais.
É nesse cenário que nasce a história de Elizabeth Cristina, 43 e Luiz César, 46, que encontrou na cidade um espaço para transformar hospitalidade em experiência, cultura e impacto social.

Ela, empresária e psicóloga, natural de Oliveira, enquanto ele, de Barroso, ambas cidades mineiras, se encontraram depois que Luiz já trabalhava em Tiradentes. Luiz chegou à cidade em 2010, inicialmente atuando com gastronomia e produção de eventos. Sempre trabalhou com shows e eventos culturais na região antes mesmo da pousada existir. Ela, impulsionada ao empreendedorismo desde cedo, trabalhava na loja da irmã em sua cidade natal. Antes de comandar os projetos atuais, o casal ganhou notoriedade na cidade pelo LuTh Bistrô, gastronomia autoral de Luiz. O espaço passou a receber turistas de diversas regiões do país e até personalidades conhecidas nacionalmente. “Começou a aparecer globais, então o William Bonner foi lá com a Fátima Bernardes.”
O fim do restaurante aconteceu quando o casal priorizou a família em meio aos empreendimentos. No entanto, o sangue empreendedor não deixou de correr em suas veias. O casal começou a desenvolver projetos e eventos por toda Tiradentes.

Impactando a economia local, Beth e Luiz movimentam grande parte dos eventos, entre eles estão o TremBier — considerado um dos maiores festivais de cerveja artesanal de Minas Gerais —, o Festival Semana da Inconfidência e Conexões e o Natal Tiradentes, evento criado justamente para aquecer o turismo durante a baixa temporada. “Depois que começamos o Natal, conseguimos aumentar em quase 60% o movimento nesse período”, relata Luiz. Segundo ele, os eventos ajudam a manter hotéis, restaurantes, guias e comerciantes em atividade mesmo fora dos meses tradicionalmente mais fortes do turismo.
O lado social também ocupa espaço central nos projetos desenvolvidos pelo casal. Durante o Natal, por exemplo, eles organizam ações gratuitas envolvendo a tradicional Maria Fumaça entre São João del-Rei e Tiradentes, levando idosos de asilos e famílias para viver a experiência natalina. “Quando vejo aqueles velhinhos chorando porque não andavam de trem desde a juventude, isso vale tanto quanto qualquer retorno financeiro”, conta Elizabeth.
Acaba por aí? Longe disso, além dos eventos pela cidade, o casal ainda “abraça” os visitantes em duas pousadas em Tiradentes: a Relicário, localizada no centro histórico da cidade e a Aldrava, no topo da serra. “O luxo hoje está no detalhe”, resume Elizabeth ao comentar sobre a unidade ‘Aldrava’. Das louças utilizadas no café da manhã às peças decorativas espalhadas pelos quartos, tudo foi escolhido pessoalmente pelo casal. “As pessoas perguntam de onde são as roupas de cama, os passarinhos, os quadros, as louças… elas percebem tudo”, comenta a proprietária.

Elizabeth está incluída no crescimento de 27% no setor de empreendedorismo feminino, de acordo com os dados do Sebrae a partir das análises trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua). Somente em 2025, empreendedoras acessaram R$ 734 milhões em crédito.
Tal foco empreendedor contribuiu até para um olhar aprofundado em suas acomodações. A própria arquitetura da pousada – Aldrava – foge do padrão excessivamente rústico comum em Tiradentes e aposta numa combinação entre o contemporâneo e os elementos mineiros tradicionais, criando uma experiência acolhedora sem renunciar à sofisticação.
O nome da pousada também traduz esse conceito. Aldrava é o nome dado às antigas peças metálicas instaladas nas portas coloniais, usadas como espécie de campainha nas casas históricas.

A rotina da pousada também impacta diretamente os jovens que trabalham no local. Aos 20 anos, Mariana Lorraine atua na organização dos quartos e no apoio ao café da manhã. Para ela, o ambiente acolhedor reflete também na equipe. “É um ótimo local para se trabalhar. Temos autonomia para realizar nossas atividades aqui e isso contribui bastante para o meu futuro”, afirma.
Já Pedro Augusto, 22, estudante de ciências da computação, divide a rotina da recepção com os estudos e acredita que a experiência com atendimento ao público será importante para sua trajetória profissional. “Especialmente o trabalho com o público me ajuda muito, porque sei que lá na frente isso será um diferencial”, comenta.
“A gente quer que as pessoas saiam daqui com vontade de voltar”, afirma Luiz. E realmente, quem é recebido de braços abertos pelo casal sabe que vai voltar à cidade… em breve.









