Projeto do Morro do Cristo prevê sistema de barreiras flexíveis para conter rochas e liberar área com segurança
Apresentado em seminário, plano identificou 26 blocos e dois ninhos de rochas instáveis com risco iminente de queda e potencial de atingir residências na base da encosta

Com risco iminente de queda de rochas e blocos instáveis identificados na encosta, o Morro do Cristo deverá receber um sistema de barreiras flexíveis para proteger as residências localizadas na base do monumento. A solução integra o projeto de recuperação da área desenvolvido pela engenheira, pesquisadora e consultora de geotecnia Anna Laura Nunes, apresentado nesta semana durante o seminário “Risco Ambiental e Políticas para Resiliência: Por JF”, realizado na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Durante a plenária “O desafio da resiliência urbana”, promovido pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) como parte do projeto Por JF, da Rede Tribuna de Comunicação, a especialista destacou que estudos e mapeamentos realizados ao longo dos anos apontaram a existência de 26 blocos e dois ninhos de blocos instáveis no Morro do Cristo, com potencial de atingir moradias em caso de desprendimento. Segundo Anna Laura, que também é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem atuação em projetos de infraestrutura e redução de riscos no Brasil e na América Latina, a proposta busca garantir a segurança da população sem comprometer as características ambientais e paisagísticas do local, preservando a vegetação, as trilhas e a permanência de algumas famílias que vivem no entorno da encosta com segurança.
No debate, o vereador Zé Márcio Garotinho (PDT) afirmou que o projeto está estimado em cerca de R$ 150 milhões e que será necessário buscar recursos junto aos Governos estadual e federal, uma vez que a Prefeitura de Juiz de Fora não dispõe atualmente de capacidade financeira para custear a intervenção com recursos próprios.
Conforme publicado pela Tribuna em 28 de maio, a proposta encaminhada pela Prefeitura de Juiz de Fora à Casa Civil do Governo federal prevê investimento de R$ 106 milhões apenas na primeira fase das obras de contenção do Morro do Cristo. No momento, o projeto está sob análise da Casa Civil. A intervenção seria no trecho entre as ruas Doutor Ávila e Luís Sansão.
Confira abaixo a entrevista concedida pela responsável pelo projeto à Tribuna:

Tribuna: O que está sendo proposto para a área do Morro do Cristo?
Anna Laura Nunes: O projeto do Morro do Cristo é muito cuidadoso porque se trata de um patrimônio e de um Monumento Natural Municipal. Por isso, não pode haver interferência no paisagismo, remoção de vegetação nativa ou perda das trilhas existentes. São três trilhas que sobem até o mirante. Então o projeto envolve uma parte que é a estabilização de blocos de rocha que venham a se soltar e a outra parte é a proteção dos blocos que vão se soltar. É por isso que a gente está usando esse sistema de barreiras flexíveis, porque elas têm a competência de, na hora que o bloco está se deslocando, descendo o morro com energia, conseguir controlar esse bloco, retê-lo e impedir que ele atinja a casa que está atrás dela. Esse é o conceito do projeto do Morro do Cristo.
Tribuna: Como foi realizado o levantamento técnico que embasa o projeto?
Anna Laura Nunes: O trabalho foi fundamentado em três estudos diferentes: o mapeamento realizado pela minha empresa, um levantamento contratado pela Prefeitura de Juiz de Fora e uma pesquisa acadêmica desenvolvida em uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Juiz de Fora. A combinação dessas análises permitiu identificar as áreas mais críticas e definir as intervenções necessárias para garantir a segurança da população.
Tribuna: A senhora destacou a preocupação em preservar a permanência dos moradores nas áreas atendidas pelos projetos. Como isso se aplica ao Morro do Cristo?
Anna Laura Nunes: Eu, quando atuo em uma área urbana, uma das primeiras condições é não tirar ninguém. Se eu estou fazendo obras de estabilização, proteção, por que eu vou tirar? E é muito traumático. São pessoas que já sofreram o trauma do deslizamento, da ruptura da encosta e ainda vão ter o trauma de saírem de suas casas, onde muitas vezes moram há 30, 40 anos. Então eu procuro evitar. Algumas situações exigem a remoção, porque aí não há uma solução de engenharia. Mas, dentro da minha filosofia de projetista, a população fica, porque a obra entra.
Tribuna: Existe alguma previsão de prazo para a execução das intervenções?
Anna Laura Nunes: Depende da categoria que a verba possa ser liberada. Se for como uma obra emergencial, ela tem prazo legal para terminar, e o prazo seria em fevereiro do ano que vem. A vantagem de usar essas estruturas de barreiras flexíveis é que elas têm uma instalação muito rápida. Se a empreiteira tem experiência, como a Almeida Sapata, que trabalhou comigo na Vila do Saí, em São Paulo, e que está trabalhando no Córrego São Pedro, a montagem acontece de forma muito eficiente. Então, com isso, temos uma obra muito rápida e a segurança fica garantida antes mesmo de todos os itens da obra ficarem concluídos. No momento que as barreiras estiverem instaladas, a população pode voltar. Mesmo que a bacia de amortecimento ou algum bloco não esteja estabilizado, a barreira já está garantindo a proteção das pessoas.
Tribuna: Além da segurança, quais são as vantagens desse sistema para uma área como o Morro do Cristo?
Anna Laura Nunes: Não dá para pensar em uma outra solução pela urgência da situação. E também pelo fato de que as barreiras flexíveis se misturam bem com a característica do morro. Ela não é uma estrutura de concreto que fica ali. Você olha o morro e vê o concreto. Não. Ela se harmoniza com o ambiente. Então, além de ser uma solução super performática, porque ela desempenha o que a gente espera dela, ela também tem essa vantagem de ficar harmônica com o meio ambiente. Muitas vezes você nem vê que tem barreira. Ela se confunde. A vegetação, às vezes, vai crescendo como se fosse uma trepadeira em cima dela. Não atrapalha a performance dela. É uma solução, que eu considero, moderna, de alto desempenho e rápida. Tudo que uma área urbana atingida precisa ter.
Tribuna: O risco de novas ocorrências continua sendo considerado elevado?
Anna Laura Nunes: Sim. Os blocos que estão distribuídos pelas encostas do Morro do Cristo já se encontram soltos ou apoiados em condições instáveis. Com chuvas mais intensas, a água pode reduzir o atrito que mantém esses blocos, provocando o deslizamento. Por isso, o risco é iminente e pode se concretizar a qualquer momento.









