Por JF: Plenária debate calamidade de fevereiro e plano de ação para Juiz de Fora
Segundo e último dia do seminário reúne gestores e especialistas para formalizar propostas de reconstrução e resiliência climática para a cidade
Juiz de Fora define nesta quarta-feira (3) os próximos passos para enfrentar os efeitos das chuvas de fevereiro. No segundo e último dia do seminário “Risco Ambiental e Políticas para Resiliência: Por JF”, na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), gestores, especialistas e lideranças comunitárias debatem a plenária “A calamidade em Juiz de Fora e seu enfrentamento“.
Na manhã desta terça-feira (2), a abertura do seminário reuniu a prefeita Margarida Salomão (PT), representantes do setor produtivo, lideranças comunitárias e de veículos de comunicação. A prefeita disse, na ocasião, que o evento tem a intenção de constatar, de maneira coletiva, o que aconteceu e os caminhos possíveis a seguir.
“A calamidade climática é hoje uma presença em nossas vidas”, afirmou, lembrando que 47 mm de chuva caíram na Zona Leste ainda naquela madrugada. Moradores atingidos também falaram: Ricardo Dutra, do Parque Burnier, bairro com 22 mortes, perdeu 17 familiares, incluindo o filho de 11 anos, e pediu propostas concretas de reconstrução para a comunidade.
Na tarde de terça, a plenária “A crise climática e as cidades” debateu adaptação e prevenção urbana. O geólogo Agostinho Ogura alertou que os desastres climáticos se repetem praticamente todo ano desde 2000, e a coordenadora da estação meteorológica da UFJF, Cássia Castro, revelou que 54% da chuva do verão 2025/2026 caiu em fevereiro, concentrada em poucos dias.
Na manhã desta quarta, a plenária “O desafio da resiliência urbana” focou na adaptação climática e na recuperação do Morro do Cristo. A engenheira Anna Laura Nunes, responsável pelo projeto de reconstrução, identificou 26 blocos instáveis direcionados para casas na base do morro. A intervenção prevê barreiras flexíveis com painéis metálicos, preservando vegetação e patrimônio do local.
Compõem a mesa desta tarde o subsecretário de Proteção e Defesa Civil de Juiz de Fora, Luís Fernando Martins; a secretária municipal de Assistência Social, Malu Salim; o superintendente Executivo de Habitação da Caixa Sudeste de Minas, Luiz Gonzaga Guedes Junior; a secretária municipal de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada; a secretária municipal de Obras, Bruna Rocha; e o secretário de Governo de Juiz de Fora, Ronaldo Pinto Júnior.
O tamanho da tragédia

Em sua fala, o subsecretário de Proteção e Defesa Civil detalhou o tamanho do impacto das chuvas de fevereiro em Juiz de Fora. Segundo dados apresentados por ele, entre os dias 22 e 27 do mês, choveu 401,6 mm na cidade, volume que fez de fevereiro de 2026 o mais chuvoso da história, com 766,4 mm registrados, mais de quatro vezes a pluviosidade histórica do mês, de 170,3 mm. A chuva acumulada em 96 horas teve tempo de retorno estimado em 23.482 anos, superando a capacidade de qualquer infraestrutura urbana convencional.
O resultado foram 66 vítimas fatais, mais de 5 mil atendimentos de saúde e 8.584 pessoas desalojadas ou desabrigadas. A Defesa Civil realizou 8.592 vistorias, número equivalente ao total dos últimos dez anos, além de 3.753 interdições de imóveis e evacuação de 58 ruas. Foram registrados 3.883 escorregamentos de talude, e mais de 103 mil metros cúbicos de solo e resíduos retirados das ruas, o equivalente a 20.600 caminhões cheios.
Para fazer frente à reconstrução, o município captou R$ 799,1 milhões em recursos, sendo R$ 605,2 milhões destinados ao programa “Compra Assistida”, R$ 150,5 milhões para obras de reconstrução de infraestrutura urbana, R$ 28,9 milhões para demolição de imóveis em risco iminente de colapso, R$ 12,4 milhões para limpeza de vias e R$ 2,1 milhões em ajuda humanitária. Diante dos números, Martins destacou a necessidade de uma mudança estrutural de postura.
“Deve ser mudada a cultura da cidade para ter maior capacidade de agir preventivamente.”
Projetos para reconstrução
O secretário de Governo, Ronaldo Pinto Júnior, detalhou as obras em andamento e os investimentos previstos para a reconstrução da cidade. Pelo “Novo PAC”, Juiz de Fora tem 16 projetos com investimento total de R$ 566,4 milhões, que incluem obras de macrodrenagem, contenção de encostas, equipamentos de saúde, regularização fundiária e espaços comunitários.
Entre as principais intervenções de macrodrenagem estão os projetos para os bairros Industrial e Santa Luzia, com previsão de conclusão em junho e julho de 2028, respectivamente, e investimento conjunto de R$ 251,6 milhões. Já o eixo Mariano Procópio, Democrata e São Pedro tem entrega das duas primeiras fases prevista para fevereiro de 2027, com investimento de R$ 69,8 milhões e uma terceira fase com licitação prevista para 2 de julho de 2026. A macrodrenagem de Santa Efigênia conta com R$ 63,3 milhões em investimentos.
Na contenção de encostas, as intervenções nos bairros Geraldo Albano, Graminha e Vila Olavo Costa somam R$ 30,2 milhões pelo “PAC 3”, com trabalho social previsto para as três comunidades.
O município também enviou, segundo secretário de Governo, à Defesa Civil Nacional projetos para 67 locais, totalizando R$ 130 milhões em solicitações, sendo 46 locais já em fase de aprovação e outros 21 ainda em análise.
”Compra Assistida” e aluguel social como saída para as famílias
A secretária de Assistência Social destacou, na respectiva fala, que a principal perspectiva para o futuro das famílias atingidas é o programa “Compra Assistida”.
“A perspectiva do futuro é a ‘Compra Assistida’. Estamos com parceria com o Ministério Público para ampliar o aluguel social.”
A secretária de Obras de Juiz de Fora, Bruna Rocha, reforçou a dimensão dos danos ainda em curso. De fevereiro a maio foram registradas 350 erosões, número superior ao de todo o ano anterior. A pasta atuou junto ao Demlurb na remoção de materiais, desobstrução de córregos e recomposição de margens. Entre as intervenções, Rocha destacou a recuperação da pista do Acesso Norte. “Foi uma resposta muito rápida de obra complexa“, disse, explicando que o foco foi restabelecer a cidade com segurança e mobilidade, com todas as ações norteadas pela Defesa Civil em função dos riscos.
A secretária destacou ainda a necessidade de captação de recursos para obras de recuperação e serviços mais complexos.
“Foram mais de 3.500 pontos de escorregamento, precisamos priorizar ações. Temos 12 grandes projetos de contenção, e em outras áreas queremos, em um prazo mais curto, conseguir captar recursos. Em paralelo, não podemos deixar outras obras parar por conta das chuvas, como creches e UBS. Toda parte de equipamento urbano precisa ser feita”, afirmou.
Após a exposição dos secretários, a prefeita Margarida Salomão defendeu o esforço da gestão e a dureza do momento para quem foi atingido.
“Trabalho brutal. Para quem saiu de casa, perdeu a casa, perdeu parentes, esses 3 meses podem ser 300 anos. Foi uma chuva de ’23 mil anos’, realmente extraordinária, e a cidade não estava preparada”, disse. Margarida lembrou a vulnerabilidade dos bairros atingidos e o desafio humano da reconstrução. “Temos um desafio enorme de atender as pessoas e temos buscado fazer isso com muita paciência, perseverança e carinho”, pontuou.
Sobre a reconstrução da cidade, com a resolução dos problemas de moradias, erosões e desinterdições das vias, Margarida ressaltou que todas as estruturas do Estado estão mobilizadas.
“É tudo ao mesmo tempo. Por isso chamamos a cidade inteira para se responsabilizar e assumir o papel de protagonista da sua reconstrução.”
Representando o Poder Legislativo local, a vereadora Letícia Delgado (PT) falou do desafio da habitação. “Temos que trabalhar a ideia da moradia segura”, frisou.
Ela destacou a importância das políticas habitacionais e também das políticas de assistência social. “É o que chega na ponta para guarnecer as pessoas. O alinhamento federativo é essencial para a nossa reconstrução. Queremos fazer parte também da solução do problema, para que nossa cidade supere, se reconstrua e seja resiliente para outras questões climáticas. Esse evento é um pontapé, é um marco para entender os desafios que temos pela frente”, analisou.
A secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada, destacou que o programa ”Compra Assistida” respeita o sentido de pertencimento das famílias atingidas. Segundo ela, cada pessoa tem o direito de escolher onde será a casa que receberá do Governo Federal. “O poder de escolha é muito importante neste cenário”, enfatizou.
‘Nunca saberemos se as obras teriam reduzido o impacto’
Flávio Rodrigues, representando o Três Moinhos, leu um texto elaborado pelos moradores. “Dia 23 de fevereiro ficará marcado para sempre na memória dos moradores. Naquela noite, vivemos a maior tragédia climática de nossas vidas. Perdemos parte da história do bairro e, o mais doloroso, perdemos uma vida, por deslizamento de terra. Famílias viram uma vida inteira ser levada pela chuva”, expôs.
O texto lembra que a situação de risco é histórica, pois há 25 anos um deslizamento tirou duas vidas.
“Ao longo dos anos, o bairro cresceu e recebeu infraestrutura. Moradores sempre cumpriram suas obrigações, mas obras para a região não foram concluídas. Nunca saberemos se essas obras teriam reduzido o impacto da tragédia. Esperamos análise técnica sobre o bairro, pois as residências não foram atingidas da mesma forma. Hoje o bairro está interditado, e muitas familias vivem a incerteza de saber se vão voltar para suas casas. Queremos preservar a dignidade e história de todos. Em cada rua existe lembranças e laços construídos ao longo de uma vida inteira, por isso, o futuro não pode ser resolvido sem a comunidade ser ouvida. Até o momento, não tivemos respostas concretas. Queremos diálogo, transparência e respeito”, continuou o morador.
Em resposta, Margarida ressaltou que o Três Moinhos foi uma das comunidades mais atingidas e que hoje é uma área interditada pela Defesa Civil para moradia. “Vamos partir daí”, argumentou, sobre a decisão já anunciada pela PJF de extinguir as moradias no bairro.
Representando os moradores do Santa Luzia, Victor Hugo da Cunha destacou que a luta dos moradores do bairro não é de agora, mas de anos. Ele aplaudiu as obras realizadas antes daquele dia, pois teriam amenizado a tragédia.
“No dia 23 de fevereiro, se os projetos não tivessem sido feitos, como o vertedouro (do Parque da Lajinha), íamos ficar debaixo d’ água por uns dois dias”, imaginou. Ele levou a foto de uma família que ficou protegida por obra de contenção. “Santa Luzia foi pouco afetado porque teve um trabalho antes”, indicou.
A plenária também contou com debates e considerações feitas por professores da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG), além de representantes de diversos setores e da população.
Análise feita
Já na última parte da programação do seminário, Margarida fez uma reflexão sobre tudo o que viveu nesses dois dias de discussões e propostas. “É muito importante ter toda a cidade aqui. É um chamado a todos nós que estamos na esfera pública. Estamos todos convidados a construir uma Juiz de Fora pós calamidade, que será muito melhor”, clamou a chefe do Poder Executivo municipal.
Ela considerou, na própria análise feita, o processo histórico, em uma sociedade capitalista, na construção da cidade.
“Também temos muitas limitações. Temos que fazer ajustes. Mas, em um momento como esse, em que a cidade está sacudida, com mortes, com pessoas angustiadas, precisamos pensar no atendimento, que é prioritário, e no futuro, que implica em uma gestão de risco muito avançada, tanto em termos tecnológicos, como fizemos com a Defesa Civil. Também temos câmeras por toda a cidade, mas precisamos de mais para fazer essa gestão de risco. Também precisamos ter uma cultura de risco, desde a escola”, comentou. Segundo Margarida, as preocupações ambientais sempre foram periféricas, mas hoje atravessam todas as demais.
Sobre o planejamento urbano, a prefeita disse que planos não faltam. “A resiliência da cidade passa pelas leis, mas também passa pelas obras. Temos que fazer intervenções para que as pessoas continuem morando. Mas precisamos de recursos para fazer projetos ambientais no município, que são também urbanos de de Habitação.” Margarida observou, no entanto, que a histórica desigualdade social não vai ser resolvida nesse contexto.
Ao final, foi indicada a elaboração de um documento, que será compartilhado entre os inscritos no seminário, que poderão acompanhar o andamento das propostas e indicar sugestões.
* Estagiária sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.









