Atraente desde sempre
Parece ironia. Diante da dita crise, a edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês passa de 45 para 50 cidades, num total de 80 cinemas. O crescimento também é esperado na plateia, que deve saltar de 100 mil espectadores para 110 mil (todos pagantes). Ironia também parece brotar do fato de os cinemas nacionais e locais estarem, mais do que nunca, apostando nos blockbusters para não arriscar, e conviverem, durante uma semana, com uma programação de produções francesas. Porém, na lógica mercadológica, nenhum corte é seco, e o que chega ao Brasil e a Juiz de Fora a partir desta quinta, 11, são 15 sucessos já legitimados por imensas bilheterias europeias. Desta quinta à próxima quarta (17), o Cinearte Palace exibe, do início da tarde ao fim da noite, a produção contemporânea de uma cinematografia que nunca deixou de atrair.
“Em termos de atualidade, porque foi muito midiatizado e abriu o Festival de Cannes, e porque a diretora, Emmanuelle Bercot, ganhadora da Palma de melhor atriz em Cannes, virá para a abertura no Brasil, ‘De cabeça erguida’ é um dos grandes destaques”, ressalta o curador e diretor do Festival Christian Boudier em entrevista à Tribuna, por telefone. Com a veterana Catherine Deneuve no elenco, o filme da diretora de “Ela vai” (2013), conta a história do jovem Malony (no papel, o estreante Rod Paradot), que aos 6 anos, após o abandono da mãe, começa a cometer pequenos delitos. Durante seu crescimento, uma juíza (Deneuve) e um educador tentam convencê-lo a mudar de vida.
Outro drama a chamar atenção na programação é “Samba”, assinado pelos mesmos autores de “Intocáveis”, que fez mais de um milhão de espectadores no Brasil e levou 40 milhões aos cinemas do mundo inteiro. A trama sobre o encontro entre um imigrante senegalês e uma pequena executiva também discute as armadilhas cotidianas e leva a profundas reflexões sobre a existência. Contudo, as comédias também tomam a grade, mostrando o bom humor e a fina acidez dos franceses, que sabem pensar e fazer rir numa mesma medida. “É possível fazer comédia sem desistir da criatividade individual do autor. Há comédias que conseguem fugir do padrão, sem ter as mesmas receitas de roteiro, dramaturgia, brincadeiras e situações. Esse foi o caso de, no ano passado, ‘Eu, mamãe e os meninos’ e ‘Uma juíza sem juízo’. Esse ano vamos ter ‘Papa ou maman’, uma comédia com três milhões de espectadores e primeiro filme de um diretor. Ele é arrasador, com um humor negro e politicamente incorreto, bastante provocador”, comenta Boudier.
Vitrine possível e diversificada
Nos últimos anos, o Festival Varilux de Cinema Francês tem conseguido consolidar a presença da cinematografia francesa no Brasil, seja abrindo portas de cinemas para essas produções, seja formando contatos para que canais de TV apostem no que o público já mostrou interesse. “Temos dois critérios de escolha. Um é tentar refletir a diversidade da produção francesa, que abrange um leque de gêneros muito grande, fazendo do festival uma vitrine, convencendo o público de que o cinema francês tem todo tipo de abordagem e propostas para diferentes públicos. É preciso quebrar essa imagem de que esse cinema só produz filmes autorais, exigentes. Também temos como critério o desejo de servir como apoio às distribuidoras, empresas brasileiras que correm riscos para reforçar a diversidade cultural nas telas nacionais”, explica o diretor e curador do festival.
De acordo com Christian Boudier, “o festival representa uma grande ferramenta de promoção, tornando-se importante para os distribuidores, já que faz com que a produção chegue com mais visibilidade e força nesse mercado difícil, que é o brasileiro”. Os riscos, segundo ele, são reduzidos para esses distribuidores, o ingresso é cobrado no preço normal do cinema. O evento, então, oferece a quem investiu nessas produções o panorama de uma vida possível que elas podem ter ao término da maratona de sete dias. Mostra, ainda, que, mesmo diante das muitas adversidades, a telona brasileira tem soluções e plateias.
Para Boudier, a presença dos filmes franceses mostra que a atual fase das digitalizações precisa ser utilizada a favor de um cinema mais democrático em relação aos gostos. “A digitalização permite reforçar a multiplicidade, porque é uma técnica mais barata e mais leve para levar filmes melhores e mais frágeis ao mercado. Esse negócio de cópia 35mm criou barreiras. O digital pode favorecer, mas também estamos vendo que ele pode arrasar com a diversidade, porque permite a um blockbuster ser lançado em muitas e muitas cópias, o que gera um grande perigo. Estamos em uma fase dúbia, a questão é saber como usar o digital hoje”, aponta. O cinema francês, então, dá mais uma lição.
















