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Sobre o passar dos anos


Por MAURO MORAIS Repórter

09/06/2015 às 04h00- Atualizada 09/06/2015 às 15h46

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Ligeiro, o tempo passa, e nem nos damos conta. De repente, uma década, um ano, um século. Para o Grupo Galpão, companhia de Belo Horizonte, já se foram 33 anos desde que os atores Teuda Bara, Eduardo Moreira, Wanda Fernandes e Antonio Edson decidiram, numa mesa de bar, organizar-se como conjunto. Preparando o primeiro espetáculo da trupe, “E a noiva não quer casar”, eles esperavam fazer um trabalho longo e que os colocasse, profissionalmente e economicamente, em um lugar de algum prestígio. Queriam pesquisar e trabalhar. No caminho, descobriram a força da palavra e da música. Reconheceram a viabilidade de se fazer teatro mesmo estando fora do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O tempo passou, e o Galpão ganhou espaço. Tornou-se norte. Em “De tempo somos”, montagem que apresenta nesta terça e quarta no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), o grupo olha para as próprias marcas e canta e recita o que os construiu. Em formato de sarau musical, o espetáculo tem direção de Lydia Del Picchia e Simone Ordones. “Como o Galpão é um grupo que viaja muito, está sempre na estrada, fazíamos saraus entre nós. Um dia, teve uma galinhada no Vale do Jequitinhonha, com uma lua cheia inspiradora, e pensamos em montar esse espetáculo que era um desejo antigo. Como trabalhamos há muitos anos com a linguagem musical, tocada ao vivo, pelos próprios atores, tornou-se natural desembocar numa produção como essa”, conta o ator-fundador, responsável pela pesquisa de texto da nova peça, Eduardo Moreira.

Em cena, décadas passadas a limpo ao resgatar canções e sequências de um repertório múltiplo. “As músicas estão recontextualizadas, com arranjos diferentes. A música é muito importante em nossa trajetória. Ela tem um poder de sedução e comunicação muito forte. Isso tem a ver com o teatro popular do Galpão. Temos, também, textos amarrando o roteiro. Utilizamos autores como Eduardo Galleano, Charles Baudelaire, José Saramago e Anton Tchékhov. Acaba que o espetáculo fala da passagem do tempo, o que é natural para um grupo com mais de 30 anos”, comenta Moreira. “Em certo sentido, sempre buscamos alternativas novas. O Galpão havia saído de um espetáculo extremamente barroco, com tipos muito característicos, que foi “Os gigantes da montanha”, com direção do Gabriel Villela. Agora fugimos disso, com algo bem mais despojado, sem maquiagem, sem caracterização, com um figurino cotidiano. Esse outro lugar é bom para o grupo neste momento. O espetáculo se comunica muito com o público.”

Estrada coerente

No palco, não há personagens, nem depoimentos, mas a poética de uma companhia que já cantou de “Serra da Boa Esperança”, de Lamartine Babo, ao “O sole mio”, da tradição italiana. Expostos em suas mais profundas sensibilidades, os atores em “De tempo somos” parecem abrir a própria casa, revelando cada canto. O que vê quando olha para trás, Eduardo? “Vejo um longo caminho muito coerente, mesmo com todas as transformações, já que somos um grupo de atores que trabalha com diferentes diretores ao longo do tempo, mudando as linhas de ação e sem se especializar em um único caminho, mas abrindo várias frentes. O Galpão é um teatro de grupo, calcado no coletivo, sempre preocupado em trazer a pesquisa da linguagem e se conectando com o público”, responde o ator.

DE TEMPO SOMOS

Sarau com o Grupo Galpão

Dias 9 e 10 de junho, às 20h

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)