Escassez de áreas verdes amplia desigualdade climática em Juiz de Fora
Com apenas 22 espaços de preservação contínua, cidade enfrenta desafios para ampliar sombras, drenagem urbana e acesso a áreas de convivência

Quem circula pela região central de Juiz de Fora em dias mais quentes e secos sabe o quanto faz falta a sombra de uma árvore. O Parque Halfeld ainda funciona como um lugar de respiro no coração da cidade, no entanto, áreas verdes e com presença de vegetação estão se tornando mais raras. Isso porque, somente 2,7% do território urbano é ocupado por áreas verdes de preservação contínua, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF).
Os municípios brasileiros, em média, possuem 3,1% de vegetação urbana, conforme estudo publicado, em 2022, pela rede global de monitoramento das transformações na cobertura e no uso da terra nos territórios, o MapBiomas. Mesmo que Juiz de Fora esteja próxima à média nacional em comparação com outras cidades, especialistas sinalizam a necessidade de criação de mais áreas verdes — e não é somente pela estética que essa intervenção ambiental é necessária.
Além da crise ambiental, da ocupação irregular de encostas e outras questões, um dos principais fatores que explicam o desastre climático provocado pelas fortes chuvas em fevereiro deste ano, conforme o Departamento de Transportes e Geotecnia da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), é o avanço da impermeabilização do solo. Com a “cultura do asfalto”, áreas que antes permitiam infiltração passaram a escoar superficialmente grandes volumes de água, o que contribui com enxurradas e alagamentos.
“Em um contexto de agravamento das mudanças climáticas, esses espaços verdes deixam de ser apenas elementos paisagísticos e passam a constituir uma infraestrutura urbana indispensável para a resiliência das cidades”, explica a doutora em planejamento urbano Denyse Delgado. A urbanista também destaca que os benefícios das áreas verdes não se limitam a questões ambientais. “São esses espaços que promovem a convivência pública, ampliam o lazer gratuito e fortalecem vínculos comunitários. Em outras palavras, não existe desenvolvimento sustentável dissociado da redução das desigualdades e da garantia do bem-estar social.”
Vegetação urbana de Juiz de Fora é mal distribuída
Além do Parque Halfeld, duas áreas ambientais são tombadas e protegidas por meio de leis municipais: o Museu Mariano Procópio e o Bosque Bairu. Segundo a Prefeitura, foram observados aspectos “cênicos e paisagísticos” para que esses espaços fossem tombados. Levando em conta outros modelos de preservação, a cidade ainda conta com locais conservados pela legislação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que contempla 15 Unidades de Conservação (UC) ambiental e outras quatro Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).
Somados, são apenas 22 espaços de preservação. Pensando na totalidade das áreas verdes do município, o acesso é escasso e se limita a uma parcela pequena da população. “Quando observamos a distribuição dessas áreas sobre o território efetivamente ocupado, percebemos que sua predominância ocorre de maneira tangencial às áreas mais adensadas, sem necessariamente se articular aos espaços do cotidiano das relações pessoais”, analisa Denyse.
Conforme a especialista, Juiz de Fora reúne 133 mil árvores em vias públicas, mas ocupa apenas a posição de número 4.267 entre as 5.571 cidades brasileiras no ranking nacional de arborização urbana. “Basta percorrer a cidade a pé para notar a baixa presença de vegetação. No fundo, é um problema estrutural. As pessoas de menor renda são empurradas para áreas periféricas e ambientalmente frágeis. Assim, a desigualdade ambiental torna-se também territorial, social e climática.”

Impactos da escassez de áreas verdes são sentidos pela população
Em razão da desigualdade demográfica, o Governo Federal lançou, em 2025, o primeiro instrumento federal voltado exclusivamente à arborização das cidades brasileiras: o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU). A iniciativa tem como objetivo melhorar a cobertura arbórea do país, mas prevê metas para serem atingidas somente em 2045. Problemas causados pela escassez de áreas verdes, no entanto, já são percebidos no dia a dia: “Na minha rua não tem uma árvore, uma praça. Sinto que a minha região é deixada de lado em relação à infraestrutura ambiental”, relata o estudante e morador do Bairro Vivendas da Serra, na região Nordeste, Caio Resende, 23 anos.
Caio é aluno da UFJF e reside na Rua Domingos Tavares de Souza. No seu cotidiano, ele precisa pegar duas conduções para chegar à faculdade. Em dias mais quentes e secos, o trajeto pela Rua Paracatu o deixa mais exposto ao calor. “A gente não vê árvores ou espaços verdes no caminho de casa”, relata. A via mencionada pelo estudante é o principal acesso viário entre a região e o restante da cidade. A escassez de árvores, praças e canteiros ao longo do trecho limita o acesso dos moradores da Zona Nordeste à infraestrutura ambiental.
O estresse provocado pelo desconforto térmico também está presente na rotina de quem usa o transporte coletivo na região. “Falta estrutura. Não tem tantas linhas quanto no resto da cidade, e quando o ônibus está lotado e está calor, fica insuportável estar lá dentro. Indo para a UFJF, só quando chega perto do São Pedro que você sente que, ali sim, tem mais áreas verdes e frescas”, observa.
Praças ampliam acesso, mas ainda são subaproveitadas
Para além dos 22 locais de preservação contínua em Juiz de Fora, a cidade tem como característica a alta densidade de praças e parques, que são uma alternativa para democratizar o acesso às estruturas ambientais do município. Em 2020, a UFJF realizou um mapeamento que contabilizou 120 praças na área urbana. Esses espaços permitem a ocupação pública e a preservação da memória coletiva, mas também são equipamentos aliados no controle climático e no combate às ilhas de calor.
Conforme o mapeamento, a região central é a que concentra mais praças e parques, com 47 no total.Em seguida, estão as regiões Norte (27), Leste (14), Sul (7), Nordeste (7), Oeste (5) e Sudeste (4). Já outro estudo publicado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 2021, quantifica a porcentagem da população que tem acesso a áreas verdes públicas de lazer. Segundo o levantamento, 48% do perímetro urbano não dispõe desses espaços.

Para o doutor em ecologia e coordenador do Laboratório de Ecologia Vegetal da UFJF, Fabrício Alvim, as praças e parques da cidade são subaproveitadas: “Essas áreas estão aquém do que poderiam oferecer.” Alvim encabeçou estudos sobre o nível de arborização das praças em Juiz de Fora e percebeu que há desequilíbrio nas características ambientais de cada um desses espaços. “O estudo foi feito em 62 praças, o que totalizou 6.500 árvores. Algumas praças concentram quase 10% disso, como o Parque Halfeld, mas algumas não chegam a dez árvores. Essas áreas são subestimadas em termos de ações de arborização. Elas têm muito potencial a entregar caso fossem devidamente arborizadas.”
Na análise de Alvim, essa característica do adensamento geográfico das praças revela que os juiz-foranos sofrem com injustiça climática. “A justiça climática é o acesso universal a bens de serviços ecossistêmicos, como sombreamento ou regulação térmica, e isso não acontece. O reflexo disso é que as áreas mais vulneráveis e carentes foram as que mais sofreram com as chuvas de fevereiro.”
Ainda de acordo com Alvim, as praças deveriam ter outros mecanismos para ampliar o acesso à infraestrutura ambiental em Juiz de Fora. O especialista cita bacias de drenagem, solos mais permeáveis e o aumento da arborização nas praças e vias públicas para conectar a fauna e a dispersão de sementes de espécies compatíveis ao solo. Além disso, ele ainda levanta a possibilidade da criação das chamadas “florestas de bolso”, que são pequenas áreas em espaços pontuais onde se plantam adensamentos de diferentes espécies de árvores, garantindo qualidade ambiental em vias públicas do município.
Reconfiguração do espaço verde passa pelo Poder Público
Após as chuvas de fevereiro, o assunto sobre o desenvolvimento de uma infraestrutura ambiental mais robusta na cidade entrou em voga, e a população questiona quais ações práticas estão sendo levadas a frente pelo Executivo.
Os especialistas ouvidos pela Tribuna apontaram como intervenções relevantes e plausíveis para a realidade de Juiz de Fora ações de revisão das Leis de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo; exigência de áreas verdes em novos empreendimentos; consolidação de políticas voltadas à infraestrutura ambiental; metas de cobertura vegetal por bairro, priorizando locais mais densos e socialmente vulneráveis; uso de jardins de chuva em canteiros, rotatórias e vazios urbanos; transformação de terrenos subutilizados em espaços públicos de permanência.
A Tribuna questionou a PJF sobre algumas dessas ações, mas o Executivo não se posicionou até o fechamento desta edição.
*Estagiário sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
Tópicos: meio ambiente









