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Juiz de Fora tem mais de dez casos de violência contra a mulher por dia em 2026

Enquanto a violência doméstica segue em níveis persistentes, mulheres transformam o luto em redes de apoio


Por Pâmela Costa

14/05/2026 às 06h00

Após ver a vizinha de 26 anos, criada no quintal de casa, entre seus próprios filhos, ser vítima de feminicídio e deixar órfãs três meninas – uma de sete anos, outra de quatro e uma recém-nascida de apenas dois meses – , Angelina Pinheiro organizou o luto como um protesto. Ela criou a comunidade Mulheres Unidas contra a Violência (Muv), que oferece acolhimento, rodas de conversa e auxílio jurídico a vítimas e familiares de diferentes cidades da Zona da Mata.

Juiz de Fora, polo da região, reflete a realidade que Angelina tenta, todos os dias, combater. Na cidade, mais de dez ocorrências de violência doméstica e familiar contra a mulher são registradas por dia, isto é, ações ou omissões baseadas no gênero, ocorridas em casa, na família ou em relações íntimas de afeto, que causem morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico ou dano moral/patrimonialNos dois primeiros meses de 2026, foram registrados 626 casos, um número que, apesar de alto, ainda é menor ante os anos anteriores. No mesmo período de 2025, foram 711 registros, com média diária de aproximadamente 12 casos. Já em 2024, foram 797 ocorrências, o equivalente a cerca de 13 por dia, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Sobre os dados levantados pela reportagem, a pasta de segurança do estado informou que as informações têm como base a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e que o detalhamento deve ser solicitado ao órgão. Procurada, a PCMG afirmou que não comenta dados estatísticos. Mas, para a advogada Leidiane Salvador, a “baixa” registrada entre os anos exigem cautela na compreensão dos dados. Isso porque, conforme defende, eles não refletem a realidade de fato frente a subnotificações. “Os números reais, que não integram as estatísticas, são ainda maiores.” Diferente de Juiz de Fora, que tem população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 567.730 pessoas, em cidades de menor porte a frequência deste tipo de criminalidades se mantém – ainda que com menor índice. Em Cataguases, por exemplo, que é a cidade onde o projeto de Angelina teve início e onde ocorreu o crime, a média bimestral dos registros nos últimos anos mostra uma constância persistente da violência contra a mulher. A cidade, a menos de 120 quilômetros de Juiz de Fora e com população estimada de quase 68 mil pessoas, tem cenário em que pelo menos um caso de registro de violência doméstica ou familiar contra a mulher foi registrado por dia no primeiro bimestre dos últimos três anos. 

O Governo de Minas informou que promove diversas políticas de combate e prevenção à violência contra a mulher e de enfrentamento ao feminicídio em todo o estado, com foco na construção de uma rede coordenada que integra tecnologia, policiamento especializado e planejamento institucional. O eixo central dessa estratégia é articular prevenção, resposta rápida e acompanhamento contínuo, combinando o monitoramento de agressores para evitar reincidências, o atendimento imediato da RpPM, o acesso ágil e discreto ao socorro pelo Emergência MG e a organização dessas ações por meio do Plano de Metas e do Protocolo Fale Agora.

Misoginia e falhas estruturais ampliam obstáculos no enfrentamento à violência contra a mulher

Leidiane Salvador destaca que a misoginia crescente representada principalmente pelo movimento ‘redpill’ (que prega a masculinidade dominante) ajuda a entender o alto número dos registros. “Enquanto o movimento feminista vem discutindo e argumentando que o controle sobre os corpos das mulheres representa graves violências e violações de direitos humanos, o machismo e o patriarcado continuam reproduzindo discursos de submissão e ódio às mulheres, naturalizando as práticas violentas”, explica, sobre essa onda que tem ganhado cada vez mais espaço na internet. 

Os desafios estruturais também se impõem nesse processo em que, apesar de haver uma Rede de Proteção ampla, como a Lei Maria da Penha, ainda há insuficiência de recursos públicos para sua efetividade. Um exemplo que a advogada aponta é o funcionamento da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM). Se, por um lado, se dedica ao acolhimento qualificado às vítimas de violência, em cidades como Juiz de Fora não há funcionamento ininterrupto conforme preconizado por lei. “Para que essa lei se cumpra é necessário local adequado e principalmente funcionários para darem conta da demanda. Na cidade, a DEAM funciona dentro de um shopping em horário comercial. Por mais que haja esforços dos profissionais no acolhimento e atendimento, o horário não é suficiente”, explica Leidiane.

Outro fator que compromete a proteção às mulheres, observado de perto pela advogada, é a demora na concessão de medidas protetivas, apesar de a legislação estabelecer prazo máximo de 48 horas. Segundo ela, a fiscalização também é insuficiente: são raros os casos em que o agressor é preso em flagrante por descumprir a medida. A combinação desses problemas acaba desestimulando a denúncia por parte das vítimas. Na avaliação da profissional, a raiz da questão está na falta de investimentos e de recursos públicos.

 

Mulheres organizam o luto para lutar por outras mulheres

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Mulheres praticantes de esportes se reuniram na Praça Rui Barbosa, em Cataguases, em ato de mobilização pelo combate à violência contra a mulher. Foto de Arquivo Pessoal.

 

Diante dos índices altos de violência doméstica e familiar contra a mulher – e dos persistentes desafios para a efetivação de políticas públicas – a sociedade civil vem, há décadas, se mobilizando. Mais recentemente, esse movimento também ganhou força nas redes sociais, que passaram a ser ferramentas estratégicas na luta por direitos, levantamento de pautas e de discussões. É nesse contexto que surge o Mulheres Unidas contra a Violência (MUV), organização não governamental criada por Angelina Pinheiro. O que começou em 2021, em meio a um processo de luto, transformou-se no primeiro passo de uma trajetória dedicada à defesa e à proteção de mulheres.

Mãe de três filhos e avó de três netos, Angelina construiu sua vida profissional como empregada doméstica, faxineira e gari. Em meio às discussões que levantava na página do MUV (@unidas_cataguases), resolveu fazer disso sua profissão: concluiu a educação básica por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e, em janeiro de 2025, ingressou no curso de Direito. Hoje, como graduanda, busca estabelecer pontes entre o conhecimento acadêmico e formas concretas de apoiar outras mulheres em situação de vulnerabilidade.

 

Ela leva o tema da violência para as palestras com uma proposta simples – e fundamental: ajudar mulheres a reconhecer e nomear situações que, por muito tempo, passaram despercebidas – ou foram naturalizadas – como algo que não era violência. Segundo Angelina, o efeito aparece na escuta compartilhada: os encontros se transformam em rodas de conversa em que histórias pessoais vêm à tona e seguem reverberando mesmo depois que a atividade termina.

“Eu sempre uso uma dinâmica com elas: bilhetinhos que eu preparo para sorteio – inclusive, levo comigo para onde vou, guardados em um potinho. Aí eu pergunto: “Isso é amor?”. Muitas acabam se confundindo, porque o parceiro diz, por exemplo: “Não quero que você use essa roupa”, interferindo na identidade delas. A partir disso, trabalho várias frases e questionamentos – “Isso é cuidado ou é abuso?” – e percebo que muitas ainda confundem controle com cuidado.”

A metodologia, conforme ela explica, ajuda as mulheres a identificarem as formas de violência, em vista de uma realidade que muitas estão sofrendo algum tipo de abuso. mas ainda não o detectaram como tal. Assim, ela explica sobre o ciclo da violência, um processo que, por vezes, começa na ‘lua de mel’ (em um comportamento aparentemente carinhoso do abusador) até chegar em alguns casos no feminicídio ou demais formas de agressão à mulher.

Um dos pontos que Angelina defende é que o feminicídio não começa no dia do assassinato de uma mulher, sendo o desfecho de um ciclo já iniciado de violência. Sobre isso, Regina Jardim, 66, professora aposentada, acrescenta que esse tipo de crime tampouco termina. Desde que sua filha Priscila Regina Jardim foi assassinada, aos 29 anos, sua vida e a de toda a família nunca mais foram as mesmas. Pouco mais de um ano depois, a irmã da vítima tirou a própria vida, e a mãe, na ausência das duas filhas, não conseguiu continuar a carreira como professora de literatura e aposentou por invalidez.

O protesto de uma mãe em luto vira memorial

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Para a mãe, Priscila Regina Jardim era a expressão desse sorriso. A jovem gostava de ler, escrever poemas, amava os sobrinhos e encontrava na dança e nas viagens a forma mais intensa de viver. Priscila foi assassinada à tiros, em 2007, por um homem com quem teve um relacionamento de menos de três meses. Foto de Arquivo Pessoal.

Um homem com quem Priscila manteve um relacionamento de menos de três meses a matou. Ele havia sido aluno de sua mãe Regina, conhecia a jovem desde a infância e usou, no crime, uma arma que ganhou do pai ao completar 18 anos. Após o assassinato, fugiu. Em busca de justiça, Regina, a mãe da vítima, iniciou uma mobilização no Orkut.

O crime ocorreu em 2007, na cidade de Cruzeiro, e, após alguns dias foragido, o suspeito foi localizado a cerca de 90 quilômetros de distância, em Taubaté. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104), que tipificou o crime e estabeleceu penas de 12 a 30 anos de prisão – ampliadas, em 2024, para 20 a 40 anos -, só foi sancionada em 2015. Assim, o assassinato de Priscila não foi enquadrado como feminicídio à época do julgamento, e o autor do crime foi condenado a 13 anos de prisão. A mãe da vítima recorreu e, em segunda instância, ele foi sentenciado a cumprir 19 anos.

A mobilização de Regina Jardim não cessou. “Para conversar melhor com a advogada, comecei a ler sobre crime passional – como era chamado na época. Começaram a aparecer casos, e eu me assustei com o número de vítimas”, relata. Ela afirma que desconhecia a dimensão do problema no país e, em meio ao luto, sua luta agora se direcionava para que essas mulheres não fossem esquecidas. “Eu precisava mostrar, e achei que a melhor forma seria reunir os rostos e os nomes dessas mulheres.” O que começou no Orkut como instrumento de protesto migrou para o Facebook e, depois, para o Instagram  (@quem.ama.liberta), onde se consolidou como um memorial dedicado às vítimas de feminicídio no Brasil

Sobre o trabalho que faz há quase vinte anos sozinha, ela comenta o cuidado que vai da escolha das fotografias a como será escrito o caso, a partir de sua curadoria. Na época dos blogs, ela relata, usavam cores vermelhas, fotos de corpos ensanguentados e escreviam de formas que, muitas vezes, diminuia o ato do agressor (o agente da violência). Regina vai na contramão: “Procuro foto delas bonitas, de preferência sorrindo para mostrar a vida que foi arrancada. Eu quero vê-las vivas, alegres, como a minha filha. Os rostos nos mostram o extermínio de mulheres que poderiam estar ativas na sociedade. Todas são heroínas, todas ousaram dizer não!”, ressalta. Ela conta que, por meio do memorial –  que reúne foto e nome da vítima, relato do caso e atualizações sobre a condenação -, muitas mulheres já entraram em contato para agradecer, após reconhecerem situações de abuso e conseguirem sair de relacionamentos violentos. Mães também compartilharam com ela suas dores, e familiares enviaram histórias de vítimas. “A gente se sente amparada e também ampara, porque conhece a mesma dor”, conta Regina, ao se referir ao movimento de mulheres que, atravessadas pela violência, buscam, como podem, impedir que isso se repita com outras. 

Em caso de violência, denuncie

Em caso de violência contra a mulher, denúncias podem ser feitas pelo 190, em situações de emergência, ou pelo 180, na Central de Atendimento à Mulher. Também é possível acionar o Disque-Denúncia Unificado (181) ou registrar a ocorrência pelo aplicativo MG Mulher. As vítimas ainda podem procurar Delegacias da Polícia Civil ou unidades da Polícia Militar de Minas Gerais. Em casos como ameaça, lesão corporal, vias de fato e descumprimento de medida protetiva, o registro também pode ser feito pela Delegacia Virtual.