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Os golpes em três tempos


Por MAURO MORAIS

26/05/2015 às 04h00- Atualizada 26/05/2015 às 08h43

Elenco interpreta situações de opressão e intolerância

Elenco interpreta situações de opressão e intolerância

Há o que é frequente e o que é perene. O que ultrapassa os ponteiros do relógio e o que pode ser estancado. “Canção de ninar (ou faça o que tem que fazer)”, espetáculo que o grupo T.O.C. – Teatro Obsessivo Compulsivo estreia nesta quarta, às 20h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, faz som com a intolerância humana silenciada por séculos. No desejo de que a resistência seja eterna e de que o ódio não seja mais uma constante, a peça envolve a realidade sem nela se encerrar. Uma ficção ligada intimamente ao que já foi dito e vivido. Três golpes, três momentos e um mesmo discurso: em 307 D.C., quando o Império Romano persegue cristãos e Catarina de Alexandria levanta sua voz para clamar por misericórdia; em 1964, quando a ditadura militar traça dois lados opostos, comunistas x militares, torturando famílias e derramando sangue; e em 2014, ano das vinganças com as próprias mãos, que prendem marginais a postes e entende o estupro quando mulheres usam roupas com os corpos à mostra.

Em cena, uma família partida pelo regime opressivo, cuja força calava vozes contrárias. “As escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza”, brada, em determinada passagem do espetáculo, a personagem Beatriz, denunciando o pensamento atroz que não apenas massacrou os contemporâneos de Santa Catarina, mas também supliciou militantes no Brasil dos anos 1960 e continua a vitimizar pessoas como Amarildo – “Onde está Amarildo?”, questionam todos os atores no palco.

“Essa lenda de Catarina de Alexandria sempre me impressionou. Não pelo lado religioso, mas pelo fato de uma jovem se manter fiel aos seus ideiais, resistindo à intolerância”, conta a autora do texto e integrante do grupo, Táscia Souza, que percebeu o elo ao entrar em contato com histórias de mulheres resistentes durante a ditadura militar e ao se revoltar diante da violência contra um jovem negro, na Zona Sul carioca, acorrentado nu junto a um poste, pelo pescoço, por ser suspeito de assaltos, além de uma pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre violência contra a mulher.

Atemporal

“São três espaços ou tempos diferentes? Não. Os tempos não podem ser separados do espaço, porque tudo acontece na sociedade. Há falas que podem ter ocorrido nos anos 1960 e no ano passado. Intolerância e preconceito são questões atemporais”, defende o diretor Gustavo Burla, que precisou trabalhar com um texto cheio de rubricas, dinamismo e muita ação. A luz é quem resolve o que precisa ser localizado no calendário. “Não é um texto sobre a ditadura, mas sobre como as mesmas coisas continuam sendo levadas para as ruas passados 51 anos. A ideia é borrar os limites dessas referências temporais. Esse é um recurso que Brecht usava muito, recorrendo às narrativas antigas para falar do aqui e do agora”, explica Táscia Souza.

“Daqui a algumas décadas, talvez o que se ensine nas escolas seja justamente a degolar meninos pretos. Ou a desmembrar os corpos daqueles que defendem que cada um possa fazer dos próprios corpos suas próprias regras. Ou a transformar mortos em pombos e fazê-los magicamente ‘desaparecer'”, fala Sabine, uma das personagens mais complexas e sensíveis da trama, cuja força poética transborda ao narrar as dores da Catarina santa e os traumas de um passado que é presente nas páginas policiais.

“Sou muito narrativa. Algumas ações de escritas são mais ou tão importantes que as faladas”, comenta a dramaturga. “O texto não deixa ficar na superfície, não nasceu raso. Ele aponta para os dramas que continuam aí, infelizmente vivos”, elogia Burla, pontuando a força dramática presente nos personagens: “Não conseguimos ter um distanciamento total”, diz. “O peso que os atores sentem em cena não se compara ao que as personagens reais sentiram quando foram confinadas. Qualquer pessoa que refletir, se não tem um caso da ditadura para contar, tem do dia a dia, do hoje. Tudo ali é muito palpável”, completa Burla.

Entre resistentes

Ao escrever, a autora pensava numa cena que também servisse de bandeira branca. Construiu sequências, que por si só, dizem não aos silenciamentos. “Queria mostrar como é esse tipo de pensamento deturpado, de grande parte da sociedade que descarta uns em detrimento de outros, como isso atravessa a trajetória da humanidade, como a intolerância e a retirada de direitos é presente ao longo dos séculos”, pontua Táscia Souza. Contudo, todo o grupo vai além, ao mostrar que, no próprio processo, resistir foi imperativo. A terceira montagem do T.O.C. resiste aos procedimentos comerciais e se alinha ao independente, sem financiamentos externos. “Não negamos os méritos das leis de incentivo, mas fazemos teatro por amor. Adoraríamos viver disso, mas ele continua sendo o ‘Plano B’ financeiramente. E isso não quer dizer que damos menos importância a ele. As peças têm se pagado”, comenta Gustavo Burla.

Nesse sentido, na curta trajetória da companhia, montar um texto autoral também é revelar as próprias referências e as motivações artísticas. “Entro em cena pensando nessas pessoas, não só nas mulheres, que ao longo dos tempos precisaram ser fortes para poder resistir às variadas formas de opressão e crueldade. Não estou fazendo ficção apenas, mas representando um real muito próximo de todos nós. E é impossível atuar sem pensar no que já foi vivenciado pelo mundo”, conta a atriz e repórter da Tribuna Marisa Loures, que dá vida à protagonista Nina. Completam o elenco os atores Paulo Moraes, José Eduardo Brum, Tatiany Duque, Júlio Andrade e Marcos Araújo, que, juntos, cantam na abertura, “Aroeira”, de Geraldo Vandré. “Vim de longe, vou mais longe/ Quem tem fé vai me esperar/ Escrevendo numa conta/ Pra junto a gente cobrar”, diz a letra, um dos estandartes dos anos em que resistência era sinônimo de dor. Hoje, já distante do chumbo, a acepção continua a mesma, as agruras, também. “Resistir é não se deixar sucumbir, é ser fiel, é acreditar e ter certezas, defendendo até o fim”, conclui Marisa.