Quando a complexidade financeira vira risco sistêmico: a liquidação do Banco Master

Embora o mercado já precificasse o risco de contágio desde os problemas na holding, a medida encerra o ciclo de incertezas que pairava sobre depositantes e credores

Por Henrique Gonçalves Dos Santos, Bernardo Marcos Da Silva, Pedro Paulo De Almeida Fiorillo, Leoni G. Kronemberger, Alessandra Cristina Quirino e Weslem Rodrigues Faria

A liquidação extrajudicial do Banco Master e da Will Financeira, decretada pelo Banco Central (BC), é mais do que uma manchete de telejornal; é um marco de rigor institucional. Embora o mercado já precificasse o risco de contágio desde os problemas na holding, a medida encerra o ciclo de incertezas que pairava sobre depositantes e credores. Contudo, o episódio expõe uma ferida exposta do nosso sistema: a opacidade dos conglomerados que operam na zona cinzenta entre o banking tradicional e o chamado shadow banking.

Como bem apontou o Relatório de Estabilidade Financeira do BC (dezembro/2025), a combinação de bancos, financeiras e plataformas digitais cria desafios hercúleos para a supervisão. Foi justamente nessa complexidade que o Grupo Master navegou, criando uma rede de interconexões que, até o momento da ruptura, diluiu a percepção real do risco.

O cerne da questão não é apenas a má gestão, mas o arranjo regulatório. A Resolução nº 4.656 do BC modernizou o mercado ao estruturar as Sociedades de Crédito Direto (SCD) e Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEP). A intenção era nobre: aumentar a eficiência e baixar o spread. O efeito colateral, porém, foi uma fragmentação funcional que separou a originação do crédito de quem de fato carrega o risco.

Somado a isso, regras de fundos de investimento (como a antiga ICVM 578) permitiram a engenharia financeira que vimos aqui: veículos lastreados em ativos ilíquidos, sustentados por valuations elásticos e verificações puramente documentais. No papel, o ativo vale ouro; na prática, a liquidez inexiste.

O caso Master é emblemático porque prova que tamanho não é documento para risco sistêmico. Mesmo sendo uma instituição de porte médio, sua inserção em um ecossistema de intermediações sucessivas e funding opaco potencializou o estrago. Formou-se uma “circularidade financeira”: um modelo que roda bem enquanto há fluxo de caixa contínuo, mas que se revela um castelo de cartas ao primeiro sinal de desconfiança. Quando a música parou, o custo do colapso deixou de ser privado e foi transferido ao mecanismo coletivo de proteção, expondo as externalidades sistêmicas produzidas por esse arranjo regulatório.

O desfecho do caso Banco Master expôs as tensões de um sistema financeiro que se tornou mais sofisticado e mais difícil de ser averiguado. A atuação do BC e o acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) evitaram o efeito dominó e preservaram a confiança no curto prazo. Mas o alerta incômodo permanece. A sofisticação do mercado não pode servir de biombo para a falta de transparência.
A liquidação do Banco Master deve marcar o fim da tolerância com estruturas que priorizam a engenharia financeira em detrimento da clareza econômica. Resta saber se o mercado aprenderá a lição antes que a próxima “inovação” teste novamente os limites dos mecanismos de proteção coletiva.

Tribuna de Minas

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