No Brasil, a obesidade deixou há muito de ser um problema marginal e passou a compor o centro do debate em saúde pública. Segundo a ABESO, a prevalência da doença subiu de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019. Dados do Vigitel também mostram que a frequência da obesidade tende a diminuir com o aumento da escolaridade, o que reforça seu vínculo com desigualdades sociais.
Ao mesmo tempo, sinais mais recentes sugerem uma inflexão no comportamento do consumidor. Em vez de apenas ampliar o consumo de itens calóricos e ultraprocessados, parte da demanda passou a migrar para produtos associados a saúde, estética e desempenho físico. Um levantamento da Scanntech mostrou forte avanço de categorias ligadas à proteína em 2025, com alta de 117,1% no whey protein e de 15,8% nos leites saborizados com maior teor proteico. Em uma apuração feita no Google Trends, esse movimento também aparece no interesse de busca: em cinco anos, “academia” saltou 200% e “proteína”, 117%.
Nesse contexto, a popularização das chamadas canetas emagrecedoras pode acelerar uma tendência que já estava em curso, e não necessariamente inaugurá-la. A própria Scanntech afirma que, até agora, o avanço desses medicamentos ainda não provocou queda relevante no volume total de alimentos vendidos no varejo brasileiro, mas está inserido em uma mudança mais ampla em direção à saudabilidade, ao bem-estar e à performance. Nos Estados Unidos, estudo associado à CornellUniversity, apontou que, após seis meses de uso de medicamentos da classe GLP-1, os domicílios pesquisados reduziram em média 5,3% os gastos com alimentos.
Os efeitos já começam a ser observados também fora das farmácias. A Abrasel relata ajustes no setor de bares e restaurantes, com mais espaço para drinks sem álcool, pratos com maior teor de proteína e porções menores, em resposta a um consumidor que busca saciedade, controle calórico e preservação de massa muscular.
A discussão, porém, não é apenas comportamental. Ela também é econômica e social. O Painel Brasileiro da Obesidade estimou em R$ 1,5 bilhão o gasto do SUS com obesidade e sobrepeso em 2019. Em paralelo, a Câmara passou a discutir propostas para quebrar patentes de canetas emagrecedoras, sob o argumento de ampliar o acesso e reduzir o mercado ilegal. O debate opõe, de um lado, a promessa de democratização do tratamento e, de outro, os riscos regulatórios e concorrenciais.
No fundo, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A alimentação deixa de responder apenas ao paladar e ao preço e passa a refletir, de forma cada vez mais direta, objetivos de saúde, aparência e performance. Para a indústria de alimentos, para o varejo e para o sistema de saúde, isso significa uma transformação de longo prazo, ainda em fase inicial, mas já suficientemente visível para redesenhar mercados.
*Texto escrito por: Everton Emanuel Lima e Silva; Bernardo Marcos da Silva; André Takano; e Weslem Rodrigues Faria

