Eleições 2026: Saiba como as IAs podem influenciar debates e em quais falhas prestar atenção

Pós-doutora em Modelagem Computacional e professora da UFJF analisa como novas tecnologias poderão influenciar as Eleições 2026


Por Hugo Netto

04/01/2026 às 07h00- Atualizada 15/01/2026 às 14h09

priscila vanessa capriles goliatt foto arquivo pessoal
(Foto: Arquivo pessoal)

Esta entrevista integra a série Perspectiva 2026, da Tribuna, que discute os desafios impostos pelas novas tecnologias ao processo eleitoral brasileiro. Em reportagem especial, o jornal ouviu especialistas para analisar como o avanço da Inteligência Artificial deve impactar as Eleições de 2026, ampliando tanto os riscos de manipulação quanto as possibilidades de uso estratégico por campanhas e partidos.

Nesta matéria, a pós-doutora em Modelagem Computacional e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Priscila Capriles Goliatt, detalha os aspectos técnicos por trás da produção de vídeos, áudios e textos sintéticos, explica o grau de maturidade das tecnologias de clonagem vocal e discute as limitações atuais das IAs. A entrevista também aborda os desafios para identificação de conteúdos falsos, o uso de agentes automatizados em campanhas eleitorais e as implicações desse cenário para a proteção do eleitor e a integridade do debate democrático.

Confira a entrevista na íntegra:

Tribuna: Como o avanço dos modelos de voz sintética e clonagem vocal pode alterar debates eleitorais? A tecnologia já é suficientemente estável para enganar auditorias?

Priscila: Com relação à tecnologia de imitação de voz, sim, ela está muito avançada e realista, e fica muito difícil para uma pessoa comum notar a diferença entre uma voz real e uma artificial. O risco é maior em redes sociais, por exemplo, se eu estou ali assistindo um vídeo no Instagram ou no TikTok, que são vídeos curtos, e como a maioria das pessoas, já não estou com uma atenção de 100% e não foco nos detalhes, nesses casos, a mensagem falsa pode ser aceita como verdade.

A maior parte das pessoas consomem somente a mensagem “por alto”, não a mensagem inteira, então, para elas, vai ficar muito difícil realmente identificar uma fraude com precisão. Hoje em dia, é realmente necessário ter profissionais qualificados para fazer essa identificação.

Tribuna: Até que ponto as campanhas conseguem usar IA para ajustar discurso quase instantaneamente com base na reação do público?

Priscila: Quando eu faço login em uma conta, tudo o que eu coloco dentro daquela conta, a IA vai aprendendo comigo: o que eu gosto de falar, o que eu gosto de pesquisar, como eu gosto que a resposta seja dada para mim, qual é o tom que eu quero, se é um tom formal, se é um tom descontraído, se é uma linguagem simples ou não. Então, se eu tiver treinado bem a IA, ela pode agir como meu assistente personalizado.

Por exemplo, se um candidato está fazendo um debate em um canal que vai atingir a grande massa da população, ou em um canal em que vai atingir uma população específica com um nível de escolaridade mais especializada, ele pode “avisar” à inteligência que quer uma resposta mais simples, ou que quer uma resposta mais rebuscada e complexa. Assim, a IA vai adaptando o discurso.

Se um profissional está com um notebook durante um debate, e vão vindo as perguntas, ele vai digitando essas perguntas e, assim, alimentando em tempo real a inteligência computacional com elas. A partir disso, ele pede para ela prever quais seriam as próximas perguntas e já esboçar respostas. Então, se o candidato tiver acesso a esses resultados da IA durante o debate, ele consegue ajustar a resposta e o discurso dele em tempo real.

Tribuna: Agentes de IA já têm capacidade para planejar e executar ações básicas de campanha? Isso pode ser usado em 2026?

Priscila: Qualquer pessoa que faça hoje um treinamento especializado de engenharia de prompt vai ter capacidade para planejar e executar essas ações de campanha. Claro, você precisa de alguém que entenda bem a diferença entre as inteligências artificiais, porque hoje existem várias. E, muitas vezes, a gente não usa uma só; a gente usa três, quatro simultaneamente, para comparar as respostas ou até juntar as respostas em uma que seja mais convincente.

Então, uma pessoa como essa que seja contratada por um partido ou por uma coligação, para poder apoiar essa campanha, vai conseguir fazer ações essenciais: ajustar discurso, indicar que roupa tem que vestir, qual é a linguagem que tem que usar, quais são as expressões faciais e gestos que devem ser feitos. Inclusive, pode indicar quais são as melhores pessoas para estarem no palanque ao lado do candidato quando ele for fazer determinado discurso.

Esse profissional de IA pode fazer um ajuste para qualquer tipo de cenário para que isso traga uma sensação de reconhecimento e de bem-estar para o público que vai estar assistindo. Eles querem que as pessoas se sintam bem, se sintam confortáveis e se sintam abraçadas, apoiadas e incluídas.

Tribuna: Existe algum meio totalmente eficaz e acessível ao grande público para verificar se um conteúdo é falso? Qual será a melhor forma de proteção do eleitor no ano que vem?

Priscila: Hoje, para o público em geral, verificar se um conteúdo é falso é difícil. As pessoas dificilmente percebem essas diferenças. É claro que as inteligências artificiais ainda têm pontos fracos, como, por exemplo, uma mão. A maioria das IAs ainda não consegue fazer uma mão perfeita. A mão é uma parte do nosso corpo muito complexa, que faz muitos gestos, muitos movimentos, tem muitas finalidades. Então, isso deixa a inteligência artificial um pouco confusa.

Então, normalmente, quando o profissional vai usar uma inteligência artificial, ele procura justamente não incluir essas coisas que a gente já sabe que são pontos fracos da IA, para a população em geral não conseguir perceber isso.

Hoje, é preciso que um candidato entre com uma ação informando que o vídeo não é verdadeiro, que o áudio não é verdadeiro, que o texto não é verdadeiro. Então é feita uma auditoria por especialistas, que têm programas próprios para poder identificar qualquer tipo de manipulação. Pode ser uma manipulação feita manualmente ou uma manipulação feita por inteligência artificial.

Tribuna: Modelos generativos atuais conseguem produzir textos, áudios e vídeos em grande volume e com alta qualidade. O que, do ponto de vista técnico, torna essa produção tão convincente?

Priscila: Vamos pensar com relação aos filmes que a gente tem hoje com realidade virtual, por exemplo, Avatar, que lançou agora um outro filme. Eles são feitos para a gente perceber que tem um movimento real de vento, de água, de fogo, a expressão facial, etc. Nesse caso, isso tudo é treinado com pessoas de verdade atuando.

Os conceitos da inteligência artificial vão além disso, porque eles aprendem não com uma ou duas pessoas que estão ali fazendo um personagem, mas com milhões, bilhões de vídeos postados na internet: expressões faciais, trejeitos que as pessoas têm, etc.

Então, na hora de gerar essas imagens, a IA vai fazendo uma geração de vídeo já com “pensamento” estatístico. Ou seja, dado que eu quero fazer uma imagem lá na frente de alguém se perguntando sobre algo, eu já começo a criar agora uma expressão facial que vai mudando o estado em que eu estou agora para um estado de pergunta no futuro. Isso tudo deixa muito real. Porque, por trás disso tudo, a gente tem duas coisas: um algoritmo que vai refinando, refinando, refinando esse processo até a gente não conseguir distinguir o que é fictício do que é real. Segundo: os profissionais que estão por trás disso são o que se pode chamar de “operário de chão de fábrica de inteligência artificial”.

Então, por trás de cada código que “não fica muito bom” ou que dá errado, você tem um ser humano (um operário de IA) por trás, corrigindo, avisando para a inteligência artificial: isso daqui não está certo, tem que ser desse outro jeito. Então, a IA também não aprende sozinha com o que ela vê na internet, ela tem seres humanos nos bastidores falando que o que ela aprendeu está certo ou está errado.

Tribuna: Quais são as limitações reais das IAs hoje? Elas já conseguem entender contexto a ponto de produzir peças políticas complexas?

Priscila: A inteligência artificial não consegue produzir uma resposta se você não fornecer para ela um contexto. Então, vamos pensar nas eleições. Digamos que eu seja um candidato, eu vou treinar a inteligência artificial para favorecer o meu partido. Eu vou treiná-la com o histórico de cada um dos meus adversários e vou explicar para ela o contexto em que cada um desses cenários aconteceu. Ela então vai aprender com isso.

Agora, eu vou falar para ela um novo contexto: agora estou nas eleições de 2026, tenho tais pessoas como candidatos oponentes, e eu gostaria que você interpretasse quais são as possíveis perguntas que eles podem realizar e quais são as possíveis respostas que eu posso oferecer. Esse é um exemplo do que a gente chama de engenharia de prompt.

Então, se for feito um treinamento correto e uma pergunta bem clara, objetiva e com um contexto muito bem informado, a IA vai trazer uma resposta excelente. Mas tudo o que ela traz, a gente tem que verificar, porque há alguns momentos que a gente chama de “delírio da inteligência artificial”. É quando ela fica confusa ou não sabe o que te responder. Aí, com base no que ela conhece, ela faz uns cálculos e te dá a resposta que ela acha que seria a mais provável. Mas não necessariamente esse “mais provável” é, de fato, real.

Tribuna: Mais alguma consideração?

Priscila: De tudo isso que falamos de inteligência artificial, o uso da IA vai ser maior agora para converter os indecisos. Porque o candidato precisa entender qual é o perfil desse indeciso: o que ele gosta, o que ele faz, com o que ele se preocupa. A partir daí, ele pode reutilizar a inteligência artificial para começar a mostrar para essa pessoa indecisa, que ele (o candidato) tem aquelas coisas que ela procura ou que ela deseja em algum momento.