No meio das ruas: clássicos nacionais

Adauto Venturi faz releitura de “Tiradentes supliciado” no Jardim Glória

Escultura de Adauto inspirada em “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, próximo à Praça Antônio Carlos
De um lado, o rosto de Joaquim José da Silva Xavier. Do outro, sua perna. O clássico “Tiradentes supliciado”, de Pedro Américo, encontra-se ainda mais dilacerado na gigante escultura instalada na Praça Rubens Abreu, entre a Rua Dr. João Pinheiro e a Alameda Engenheiro Gentil Forn, no Bairro Jardim Glória. A obra, produzida pelo artista visual Adauto Venturi, integra o projeto “Desnudamento de ícones”, financiado pela Lei Murilo Mendes. Feito em ferro, o trabalho acaba de ser instalado e ainda deve receber iluminação e tratamento no piso. Recortando a imagem pertencente ao Museu Mariano Procópio, o artista se aproxima de uma alegoria ou cenário, em diferentes níveis. Presente em diversos livros de história, a cena passa a contar, então, com o fundo de prédios e mata, reafirmando a onipresença de um Tiradentes heróico e, também, insultado.
“Já tinha feito essa leitura em duas dimensões e agora decidi-me pela terceira. É uma proposta de desconstruir um quadro reconhecido”, comenta Venturi. Como a confirmar a visão do artista, um morador das redondezas observa atentamente a obra e rasga elogios ao identificar o célebre quadro. “Desconstruindo Pedro Américo II” é a quinta escultura do projeto que termina em maio, com a sexta instalação, uma releitura do relevo de um escravo louvando aos céus, abaixo do busto da Princesa Isabel, presente no parque do Mariano Procópio. Segundo Venturi, o trabalho já está 75% concluído. “O ícone, ali, é a abolição. Hoje em dia ainda temos muito trabalho escravo, além de o ser humano ainda ser muito escravo do sistema”, reflete, trazendo para o momento e intenções atuais a arte de tempos passados.
Além da obra no Jardim Glória, o artista instalou peças na Praça Jarbas de Lery, em São Mateus; na rotatória de acesso ao Bairro Estrela Sul; na praça entre a Avenida Rio Branco e a Rua Morais e Castro; e no canteiro entre a Praça Antônio Carlos e o canhão do exército. Esta última, instalada em fevereiro, tece uma releitura do consagrado “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. “Com esse trabalho, comecei a considerar outros elementos na escultura. Nele temos um cubo que faz a representação da moldura. Utilizei lâmpadas de LED, e a obra ganhou vida e dinâmica muito próprias”, destaca Venturi. Orçado em R$ 22.400, o projeto que tem dispersado monumentos de impacto pela cidade, joga luzes sobre a carência de esculturas públicas em Juiz de Fora, que soma diversos bustos de diferentes personalidades, mas poucas criações artísticas de fôlego a adornar as ruas.








