A experiência de Deus como impossibilidade do não sentido
Deus é o Sentido radical que impede que o mundo, o outro e o eu se dissolvam no absurdo.
Falar da experiência de Deus no século XXI parece, à primeira vista, uma ousadia anacrônica. Vivemos numa cultura que proclama ter superado a questão de Deus, reduzindo-o a problema sociológico, psicológico ou político. Contudo, Lima Vaz, filósofo jesuíta brasileiro nascido em Ouro Preto, lembra que, mesmo num mundo pós-teísta, o homem não cessa de interrogar o sentido de sua própria existência. É nesse ponto que a experiência de Deus se revela não como ilusão, mas como necessidade estrutural do espírito.
Para o filósofo mineiro, a experiência é sempre relação ativa entre consciência e presença. Ela se desdobra nas três dimensões que formam o espaço da vida humana: o mundo, o outro e o eu. Mas, em todas essas dimensões, há algo que ultrapassa o dado fenomênico: o fato de que tudo o que aparece é inteligível, tudo tem algum sentido. O homem pode duvidar de tudo, exceto do sentido – porque pensar e viver já é afirmar um sentido.
Assim, a experiência de Deus não é uma “quarta experiência” ao lado das outras, mas o fundamento silencioso que as torna possíveis. Deus é o Sentido radical que impede que o mundo, o outro e o eu se dissolvam no absurdo. A experiência de Deus é, portanto, a experiência da impossibilidade do não-sentido: não podemos negar o sentido sem, ao mesmo tempo, afirmá-lo ao dizer que “tudo é sem sentido”. De modo semelhante, não se pode negar a verdade em geral a não ser afirmando que é verdade que a verdade não existe. O vínculo do nosso espírito com o ser e a verdade – o sentido – é estrutural.
O niilismo moderno tentou suprimir Deus, mas acabou sufocado pelo vazio e pela contradição. A abertura a Deus, entendida como busca inteligente, não é fuga, mas coragem de pensar até o fim. Viver em Deus, diz Lima Vaz, é experimentar que a existência, mesmo ferida e fragmentária, é habitada por um Sentido que a precede e a sustenta. E é precisamente aí, no mais íntimo da razão humana, que Deus se deixa experimentar – não como objeto, mas como luz de todo sentido.
*Elílio de Faria Matos Júnior é padre e professor de filosofia e teologia
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