Parque Estadual do Ibitipoca prevê implementação de passeios motorizados

Iniciativa busca incluir pessoas com mobilidade reduzida em roteiros turísticos; proposta prevê estudos para avaliar o impacto ambiental da circulação dos veículos 


Por Mariana Floriano e Nayara Zanetti

27/07/2025 às 06h00

ibitipoca leonardo costa
Proposta de implementação dos UTVs ainda está em análise pelo IEF (Foto: Leonardo Costa)

O Parque Estadual do Ibitipoca, um dos destinos de ecoturismo mais procurados de Minas Gerais, pretende implementar passeios com veículos utilitários para tarefas, os UTVs, sigla para o inglês “Utility Task Vehicle”. A proposta da concessionária Parquetur, em análise pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), busca facilitar o acesso de todos os públicos aos atrativos naturais. 

A proposta inicial prevê uma fase de testes com duração de três meses. “Estamos trabalhando para que o teste de operação seja feito o mais breve possível”, afirma Maycon Morais, gerente operacional da Parquetur em Ibitipoca. Nesse período, um ou dois veículos realizarão duas saídas diárias, uma pela manhã e outra à tarde, em roteiros que ainda estão em fase de definição. 

O principal objetivo é oferecer uma alternativa para que pessoas com mobilidade reduzida, condicionamento físico limitado ou idade avançada também possam explorar roteiros mais distantes do parque. “O objetivo é oferecer uma opção para as pessoas que não têm condicionamento físico ou de saúde para visitarem os atrativos mais distantes”, explica Morais. 

‘Uso de trilhas para passagem de veículos já existe’

Os veículos escolhidos para a operação são os UTVs (Utility Task Vehicle), modelo Defender Can Am de seis lugares com caçamba. Segundo Morais, este tipo de veículo já é utilizado internamente para apoio operacional, resgate e combate a incêndios florestais. “Trata-se de uma versão para trabalho e de um tipo de veículo já utilizado para apoio operacional e resgate dentro do parque”, detalha. 

Os trajetos, embora não totalmente definidos, utilizarão as vias que já servem para a passagem de veículos institucionais. Segundo a Parquetur, a escolha dos caminhos levará em conta a segurança dos visitantes e a minimização dos impactos ambientais. “Os caminhos serão os mesmos que hoje são utilizados pelos veículos institucionais no apoio às operações […] Ou seja, o uso de algumas trilhas para passagem de veículos já existe”, pontua Morais. 

UTV Defender Can Am divulgacao CAN AM
Veículos UTVs modelo Defender Can Am de seis lugares foram escolhidos para operção (Foto ilustrativa: Can-Am)

Projeto depende de estudos de impacto ambiental 

O serviço será aberto a todos os visitantes, sem restrições de faixa etária ou seleção prévia. As reservas poderão ser feitas on-line, no site oficial, ou diretamente na bilheteria física, seguindo o mesmo procedimento já adotado para a compra de ingressos, sujeito à disponibilidade. “É importante lembrar que a proposta oferece acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida e que não conseguem visitar o parque da maneira convencional – essas pessoas terão uma opção de passeio inclusivo no parque”, destaca o gerente. 

Em relação aos possíveis impactos ambientais do projeto, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) informou que a proposta está em fase de ajustes que consideram as condições das trilhas e a segurança da operação. Durante a fase de testes, será realizado um monitoramento contínuo para avaliar os efeitos da atividade. 

“Os estudos que serão feitos do ponto de vista ambiental irão ocorrer durante o período teste do passeio, apresentando os resultados específicos da atividade. Seus resultados irão demonstrar a viabilidade pelo ponto de vista sustentável e quais as medidas a serem tomadas para mitigar seus impactos”, esclarece Morais. 

O IEF também destacou que a fase de testes servirá para avaliar o interesse do público pelo novo serviço. De acordo com o órgão, a data de início da operação experimental será divulgada assim que todos os detalhes de planejamento e ajustes forem finalizados. 

Conselheiros da AMAI temem expansão do uso de veículos dentro da reserva

A Associação dos Moradores e Amigos de Ibitipoca (Amai) foi chamada para a apresentação da implementação de veículos UTV no Parque Estadual. Integrante do Conselho Consultivo do Parque, a entidade participou de uma reunião extraordinária, realizada de forma remota, com representantes do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e da Parquetur, concessionária responsável pela gestão da visitação.

Durante a apresentação, o IEF e a Parquetur expuseram argumentos a favor da proposta, destacando, entre outros pontos, que veículos do tipo já são utilizados em outras unidades. Além disso, expuseram que os UTVs seriam significativamente mais leves e com “baixíssimas emissões de poluentes”, diferente dos carros utilizados atualmente em manutenções dentro do Parque.

A Amai, no entanto, demonstrou preocupação com o público-alvo da proposta. Embora a justificativa apresentada seja ampliar o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, os representantes da associação afirmam que o projeto, na forma como foi apresentado, deixa claro que não haverá restrições para o uso. “Nos preocupa a possibilidade dos UTVs se tornarem mais uma opção de passeio para qualquer visitante que possa pagar, sem priorizar quem realmente precisa desse tipo de transporte”, afirmam Jhon Carelli e Cézar Antonio, representantes da Amai no Conselho.

Segundo eles, a maior apreensão da Associação diz respeito a possíveis impactos ambientais e ao risco de um precedente para a ampliação da circulação de veículos motorizados dentro da Unidade de Conservação. “É uma proposta que parece positiva à primeira vista, mas precisa ser analisada com cautela. A presença de veículos nas trilhas pode impactar a experiência dos visitantes e comprometer o uso do parque. Além disso, ainda há receios sobre os trechos e a frequência com que os veículos irão circular após o período de teste, e se chegarão a pontos como a Janela do Céu ou o Pico do Pião, por exemplo. Há dúvidas também se o trajeto até a Lombada será mantido, como foi comunicado aos conselheiros após a reunião de apresentação”, pontua.

Jhon acrescenta que, embora veículos pesados, como os 4×4, sejam utilizados há anos na reserva, sua circulação é pontual, restrita a situações de manutenção ou resgate. “A presença dos UTVs, ao que nos parece, será constante, inserida na dinâmica de visitação do parque, com possibilidade de ampliação desse uso com o passar do tempo. Isso, no futuro, pode acarretar impactos ambientais muito grandes, considerando a fragilidade geológica da Unidade.”

De acordo com Cézar, uma possibilidade seria manter os passeios motorizados pela parte de fora do parque, como o que já acontece. Os conselheiros ainda afirmaram que moradores da Vila de Ibitipoca e guias que atuam na região entraram em contato com a Amai para manifestar insatisfação com a possibilidade da implantação desse novo serviço pela concessionária.

Pesquisador aponta segurança dos turistas e fragilidade do parque

“Ibitipoca não é um parque como os outros. Não dá para comparar com a Serra dos Órgãos ou com Foz do Iguaçu. É uma unidade relativamente pequena, com fragilidade geológica muito maior, índices pluviométricos elevados e alta incidência de raios. Tudo isso evidencia a vulnerabilidade do parque, tanto ambiental quanto em relação à segurança dos visitantes”, afirma Cézar Barra, engenheiro ambiental e coordenador do Núcleo de Análise Geoambiental (Nagea) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que pesquisa o parque desde 2005.

Ao comentar a proposta de implementação de veículos UTV no Parque Estadual do Ibitipoca, Cézar destaca dois aspectos centrais que, segundo ele, devem ser considerados com prioridade: a segurança dos turistas e a preservação da integridade do parque. Ele ressalta que as trilhas que levam aos principais atrativos, como a Janela do Céu, o Pico do Pião e o Circuito das Águas, já apresentam dificuldades significativas para a circulação, mesmo a pé.

“As estradas por onde passam essas trilhas têm manutenção difícil, por causa da própria formação de quartzito do solo, que dificulta a drenagem. Quando chove, a água escoa com força e forma grandes seixos soltos, que tornam o trajeto perigoso até para veículos”, explica. O pesquisador relata que já percorreu trechos do parque em veículos 4×4, durante atividades de pesquisa, sempre acompanhado por funcionários experientes. “Mesmo com carros apropriados e motoristas acostumados ao terreno, havia trechos em que os veículos ficavam sob três rodas, agarravam no chão.”

Cézar também alerta para o fato de que muitas trilhas foram abertas ao longo do tempo sem estudos prévios adequados, o que agrava os problemas de drenagem. “Quando chove, essas trilhas funcionam como canais por onde a água escorre, transformando o caminho em verdadeiros rios.”

Para ele, qualquer proposta de uso de veículos no interior do parque precisa estar sustentada por estudos técnicos aprofundados e um plano contínuo de monitoramento e manutenção. “Se não houver um acompanhamento frequente do impacto causado por esses veículos e uma estrutura de manutenção adequada, os riscos para os turistas e os danos ambientais podem ser sérios.”

Portaria Norte

O pesquisador também destaca a preocupação da comunidade científica com a possibilidade de que a liberação dos veículos UTV abra caminho para o uso de outros tipos de transporte motorizado dentro do parque. Uma das propostas previstas na concessão é a abertura da portaria Norte, localizada na divisa do parque com os municípios de Bias Fortes e Santa Rita do Ibitipoca.

“Nosso receio é que, no futuro, seja permitido que o visitante entre por uma portaria e saia por outra utilizando veículos. Isso transformaria o parque em uma rota de passagem, o que contraria totalmente os princípios de uma Unidade de Conservação”, alerta Cézar.

Segundo ele, a abertura de uma estrada cruzando o parque traria impactos severos, especialmente para a fauna local, que já apresenta sinais de fragilidade. “Estradas, por si só, já provocam muitos atropelamentos de animais. Em uma área que deveria funcionar justamente como refúgio para a fauna, esse risco se agrava ainda mais”, afirma.

O pesquisador relata que, ao longo dos anos de estudos na região, tem percebido uma redução significativa na presença de espécies nativas. “O lobo-guará virou quase uma lenda. Nunca vi. Cobras, que antes eram comuns, também deixaram de aparecer”, diz. Para ele, é fundamental atenção redobrada às propostas de acesso motorizado. “Se a abertura de uma estrada dentro do parque se concretizar, o impacto será gravíssimo”, conclui.