Será possível prevenir o HIV com apenas duas aplicações por ano?
Nova droga testada com alta eficácia é aprovada nos EUA como PrEP ao HIV e aguarda liberação no Brasil

Aprovado em junho de 2025 pela Food and Drug Administration (FDA), o lenacapavir é o mais novo medicamento a integrar a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV nos Estados Unidos. Desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences, o fármaco já era utilizado desde 2022 no tratamento de pessoas infectadas com resistência a antirretrovirais, e agora se apresenta como alternativa promissora na prevenção do vírus.
O diferencial do lenacapavir está na sua forma de ação e posologia. Diferente da maioria dos antirretrovirais, que interferem na replicação do material genético do HIV, o lenacapavir impede a formação do capsídeo — estrutura responsável por proteger o RNA do vírus e permitir sua entrada nas células. Além disso, o medicamento é administrado por injeção subcutânea e permanece ativo no organismo por até seis meses, exigindo apenas duas aplicações por ano para manter o efeito protetor.
A inclusão do medicamento na PrEP se baseou nos resultados de dois ensaios clínicos de fase 3: o PURPOSE 1 e o PURPOSE 2. O primeiro, realizado com 2.134 mulheres cisgênero na África do Sul e em Uganda, apontou eficácia de 100% na prevenção. O segundo, com 2.179 participantes de países como Brasil, EUA, Argentina, Peru, Tailândia e México, registrou apenas dois casos de infecção, indicando eficácia de 99,9%.
Para o infectologista Moacyr Silva Junior, do Hospital Israelita Albert Einstein, o principal benefício do lenacapavir é facilitar a adesão ao tratamento preventivo. “A PrEP tradicional exige a ingestão diária de comprimidos. O lenacapavir, com duas aplicações ao ano, reduz consideravelmente a chance de falhas no uso”, explica. Ele pondera, no entanto, que os estudos contam com amostras limitadas, e que a eficácia pode variar em uma aplicação em larga escala.
No Brasil, o lenacapavir ainda não está disponível. A Gilead já solicitou o registro do medicamento à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tanto na forma de comprimidos quanto de solução injetável. Entretanto, o pedido inicial não inclui a indicação para uso como PrEP, o que pode atrasar a autorização para essa finalidade. Ainda assim, o especialista acredita que a aprovação deve ocorrer em breve, considerando a robustez do programa brasileiro de prevenção e tratamento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Desde 2018, a PrEP é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com prescrição médica e acompanhamento. Em 2024, cerca de 165 mil pessoas fizeram uso do tratamento preventivo, segundo o Ministério da Saúde — um crescimento de mais de 500% em relação a 2020. O número de municípios que ofertam a PrEP também aumentou, passando de 177 para 659 no mesmo período. A maior parte dos usuários são homens cisgênero homoafetivos, mas também há adesão por outros grupos, como mulheres cis, mulheres trans e homens trans.
Um dos desafios para a ampliação do uso do lenacapavir está no custo. De acordo com a Gilead, o preço da PrEP com o medicamento nos Estados Unidos será de US$ 28.218 por ano. A empresa afirma estar em negociação com seguradoras e sistemas de saúde para garantir acesso ao tratamento. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) defende que a acessibilidade é essencial para o sucesso da estratégia de prevenção.
Como alternativa, especialistas apontam para a possibilidade de quebra de patente, viabilizando a produção de versões genéricas. Segundo um estudo publicado pela The Lancet, isso poderia reduzir o custo anual do tratamento para valores entre US$ 35 e US$ 46 por pessoa, podendo chegar a US$ 25 com o aumento da escala de produção.
A expectativa é de que, aliado a outras estratégias de prevenção como preservativos e testagens regulares, o lenacapavir reforce os esforços no combate ao HIV. “A PrEP mudou a forma como enfrentamos o vírus. Com a chegada de uma nova opção mais prática e eficaz, damos mais um passo importante na direção da erradicação da aids”, avalia Moacyr Silva.
Texto reescrito com o auxílio do Chat GPT e revisado por nossa equipe









