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Documentário ‘Ritas’ explora pluralidade de fases da padroeira do rock nacional

Em entrevista à Tribuna, diretor Oswaldo Santana conta como chegou ao enfoque do documentário e o que é o legado de Rita Lee


Por Elisabetta Mazocoli

01/07/2025 às 17h09

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Documentário ‘Ritas’ tem conteúdo inédito da artista e conta com ajuda da ‘familee’ (Foto: Divulgação)

O documentário “Ritas”, dirigido por Oswaldo Santana e codirigido por Karen Harley, teve exibição na Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) e segue como a obra do gênero mais assistida no Brasil este ano. Não é à toa — o trabalho primoroso dos diretores conseguiu dar conta da personagem complexa que é Rita Lee, mostrando suas diferentes fases da vida e o que fica de cada um desses momentos. A obra oferece um retrato íntimo da cantora, desde sua infância até a sua última entrevista, contando com reflexões e histórias inéditas narradas pela própria artista, que faz os vídeos caseiros que compõem a obra. Em entrevista à Tribuna, o diretor contou como foi o primeiro contato com Rita, como chegou ao que seria o enfoque do documentário e o que espera que seja o legado dela. Além disso, revelou como a “familee” ajudou durante todo o processo e a recepção dos fãs em relação ao documentário.

“É muito bom ver como várias gerações estão vendo o filme e o que está ressoando nas exibições”, conta Oswaldo. Para ele, havia um desafio claro no processo de fazer o documentário, que já tinha como guia ser livremente inspirado no livro autobiográfico da cantora: eram mais de 60 anos de carreira para serem abordados em apenas algumas horas de filme. “Tem um ditado que diz que ‘quem fala de muita coisa, não fala de nada’. Eu não queria correr esse risco, sabendo da abrangência. Mas quando chegou o nome ‘Ritas’, tive a segurança de entender que ia falar de todos os momentos, mas com essa leveza e abordagem. Foi quando descobri o filme mesmo, e que queria mostrar a pluralidade dela”, diz. Por isso, os espectadores conseguem ver fotos de Rita ainda criança, entrevistas dela sobre o fim dos Mutantes, a fase Tutti Frutti, a importância do álbum Fruto Proibido e o começo do romance dela com Roberto de Carvalho.

Com isso já em mente, o diretor também contou com uma grande ajuda da própria artista e de sua família, que participaram de perto de todo o processo. “A primeira entrevista foi feita pela Karen Harley, e quando começamos a receber esse material de pesquisa, começou a chegar também o material de acervo deles, o que eles tinham guardado. Eles guardavam muito vídeo de festinha de aniversário, de férias… E isso começou a crescer bastante nas estruturas do filme”, conta. Quando eles mostraram esse gosto por essas imagens, a cantora começou a mandar materiais ainda mais recentes, que tinham sido feitos apenas semanas antes do envio. “Chegamos ao ponto de deixar com ela um celular pra ela mostrar o que queria. Tivemos até que tomar cuidado para equilibrar, porque aquilo brilhava tanto que a gente só queria usar esse acervo”, relembra ele.

Para o diretor, faz todo sentido que o filme tenha sua exibição em Ouro Preto, já que o enfoque da mostra foi justamente o humor feminino, que aparece tanto no documentário quanto em toda a obra musical de Rita Lee — assim como em sua pessoa pública. “O deboche dela é incrível. Ela fala de coisas seríssimas com muito deboche”, conta ele, sobre o que se confirma pelas várias risadas do público durante a exibição no Cine-Praça. Para além disso, ele também enxerga a relação com as temáticas de memória e restauração da mostra, já que todo o documentário foi feito pensando no restauro do material que já existia sobre Rita Lee e conta com uma imensa variedade de imagens de acervo sobre ela.

Ritas por Rita

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Oswaldo Santana e Juliana Gusman falam sobre ‘Ritas’ na programação do Cineop (Foto: Leo Lara/Universo produção)

No documentário, é Rita quem fala dela mesma, não apenas como narradora do filme, mas como fonte que liga todos esses momentos de sua vida e que traz as revelações mais interessantes. Como Oswaldo explica, isso foi um caminho natural, já que na autobiografia os leitores também podiam quase escutá-la falando, já que é tudo “muito ela”, com suas próprias palavras e modos de pensar.  Foi nesse ponto que a “familee”, como ele chama, passou a ajudar especialmente, dando apoio e acompanhando todo o processo de criação. 

Mas no documentário, há ainda uma nova camada de reflexões, que só podem aparecer mesmo através da imagem e dos sons: seja porque ela mostra parte do dia a dia, lugares de sua casa, as diferentes interpretações feitas ao longo de sua carreira e até seus trabalhos como artista plástica. Esse último aspecto ganhou destaque especial no filme, que incorpora suas ilustrações a partir do trabalho de pesquisa das fotografias e tratamento de arte.

Um legado de verdade

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Documentário foi exibido no Cineop com praça lotada (Leo Lara/Universo produção)

O documentário começa e termina com reflexões de Rita Lee sobre a própria vida: as primeiras imagens são dela reivindicando como novo aniversário o dia 22 de maio, que é marcado pelo dia de Santa Rita de Cássia, enquanto acaba com ela pensando sobre o envelhecimento e a morte. “ Já tínhamos a estrutura dessa reflexão sobre a morte e o envelhecer. Aquilo chegou na nossa primeira entrevista, e sabíamos que isso era um material forte para encerrar. Após a partida dela, tomou uma dimensão maior ainda pra gente, pra lidar com essa sabedoria e visão que ela teve do processo de envelhecer e de partir”, conta Oswaldo.

Para ele, a expectativa é que o legado de Rita para as novas gerações esteja também nesses ensinamentos sobre as escolhas para a vida e o modo de encarar o mundo. É o que o documentário pretende intensificar. “Acho que o grande aprendizado, pra mim, é ver como uma pessoa pode viver com tanta verdade e intensidade todos os momentos da vida. Dá pra perceber como a Rita era igual na frente e fora das câmeras. Ela sempre foi essa Rita, que são várias Ritas”, reflete ele.