O sentido da vida
“A compreensão da vida nessa perspectiva leva-nos, inevitavelmente, à crença em Deus”
Embora não seja dado a elucubrações filosóficas ou metafísicas, a leitura de livro recente, escrito por respeitado intelectual, membro da ABL (Imortalidades, Eduardo Giannetti, Companhia das Letras, 2025), despertou-me para o tema que, aqui, procuro versar. A obra, permeada de erudição, é um conjunto de reflexões em torno do “anseio de perenidade” do ser humano, manifestado em quatro vetores: o desejo de prolongar a vida; a fé em alguma forma de outra vida após a morte; a preocupação com a posteridade e o legado que deixaremos; a sensação do presente absoluto que momentos de êxtase proporcionados pelo amor, pela arte ou pelo misticismo, permitem-nos viver. O autor trata desses temas sem cogitações de ordem religiosa, revelando, ao contrário, um certo agnosticismo. Não deixa de reconhecer, porém, que “a vida é uma bênção independentemente de qualquer estado futuro.”. E aí é que fixo, desde logo, minha conclusão acerca do sentido da vida, que, a meu ver, não pode ser encontrado senão no seu caráter transcendental ou que vai além da existência terrena.
A compreensão da vida nessa perspectiva leva-nos, inevitavelmente, à crença em Deus, esse “ser incompreensível e iluminado que o espírito humano reveste de atributos”, na síntese precisa de Lafayette Rodrigues Pereira, em sua célebre polêmica com Sílvio Romero — Vindiciae. E Lafayette não era um filósofo ou um teólogo, mas um jurista – o maior jurisconsulto do seu tempo, na visão autorizada de Rui Barbosa. Não importam os atributos de que cada qual, conforme a sua fé, procure revestir a ideia de Deus. A intuição humana basta para compreendê-Lo e aceitá-Lo.
Na bela expressão do poeta, “Deus não é uma hipótese somente: / Existe em tudo, porque está, latente, / Dentro da própria inteligência humana”. “É a força misteriosa e soberana, / Da qual, serena e límpida nascente, / Inesgotável e perpetuamente, / Toda a energia cósmica dimana!” (Raul Machado, Deus, in Cantos sem glória, Irmãos Pongetti – editores, 1953).
O autor de início citado, discorrendo sobre o universo e o mundo, “com sua prodigiosa opulência de entes e seres”, a compor o “entorno do nada”, reconhece a dificuldade lógica de admitir-se a ideia desse nada, em face da existência. Mas o deslinde da questão pode ser encontrado no artigo do Prof. Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, na edição de 20/06/2025 deste jornal: o nada, como consequência de algo finito, só encontra explicação no “reconhecimento de um Ser que não tem limites e que, por isso mesmo, é chamado Deus pela linguagem religiosa.”. Eis aí o contraponto da obra que tomo como leitmotiv deste texto.
*Paulo Medina é professor emérito da UFJF
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