Páginas atemporais

‘Álbum do Município de Juiz de Fora’, escrito por Albino Esteves, completa um século este ano e se prepara para ganhar a internet

Ponte da Tapera
O tempo era outro, e colégio se escrevia com dois elles e sem acento, “collegio”, ginásio era “gymnasio”, e Juiz de Fora tinha menos de 90 mil habitantes, incluindo a população de “Mathias Barbosa” (então distrito) e Sarandy (atualmente, Sarandira). Estão lá a fotografia da casa em que morou o tal Juiz de Fora e registros de um lugarejo cheio de morros, muito verde, poucas casas e uma estrada – a União e Indústria – propagada como o grande avanço. O “Álbum do Município de Juiz de Fora”, organizado pelo médico e político Oscar Vidal Barbosa Lage, em parceria com o historiador e escritor Albino Esteves, responsável pela redação dos textos, completa um século de história neste ano, mantendo-se como uma das principais fontes de pesquisa em relação aos primórdios da cidade.
“O Albino Esteves não tinha a pretensão de fazer um trabalho primordialmente científico. Há um pouco de tudo ali, de desenhos a gráficos, passando pelas fotografias. O álbum continua curioso hoje”, comenta o diretor do Instituto de Artes e Design da UFJF, Ricardo Cristofaro, que recorreu à obra por algumas vezes em seu trabalho artístico. “Os dados que ele traz, principalmente em relação à formação do município, são bastante interessantes. Sobre a arquitetura, a urbanização e a presença de prédios no passado, o álbum é uma importante fonte”, ressalta.
“A extensão dada a este album maior ainda seria se por ventura não houvessemos, por motivos varios, reduzido o formato de clichés e corpos de typos, dispensando mesmo diversos outros informes”, destaca Albino Esteves nas notas finais do enorme livro, com mais de 500 grandes páginas e pequenas letras. A empreitada, em tempos sem computadores e internet, era mesmo superlativa e de uma ousadia incomparável. “O valor do álbum está na quantidade de informações de diferentes áreas que ele conseguiu reunir num mesmo espaço. É um panorama sobre as origens, um trabalho de fôlego”, aponta Elione Guimarães, responsável pelo setor educativo do Arquivo Histórico de Juiz de Fora.
Registros virtuais
Segundo ela, o arquivo preserva, hoje, originais de formulários que Albino criava em sua pesquisa pela cidade, investigando características estruturais da zona urbana e também da zona rural. Esse amplo ângulo de ação também se destaca no projeto, que mostra lugares hoje presentes apenas em fotografias, como as humildes igrejas dos distritos e as fazendas do entorno. “Em certas passagens há fotografias de gente muito simples e, ali, vemos a questão do vestuário, como eram esses ambientes e outros detalhes. Há, até, fotografias de cachoeiras”, destaca Ricardo Cristofaro. Nesse panorama, a arquitetura da cidade também denuncia as vultuosas transformações do gosto. “Mesmo sendo tão eclética, ainda era muito mais harmônica do que é hoje. Me parecia uma cidade mais agradável nesse sentido arquitetônico”, completa o professor.
Hoje uma raridade, a primeira edição do álbum, agora centenária, só sobreviveu ao tempo graças às reedições, uma feita em 1989 e outra em 2008. De acordo com Sérgio Neumann, responsável pela terceira edição, foram necessários dois anos para a restauração das imagens e dos textos do álbum, que ainda esse ano deve ganhar o meio virtual. “Acredito que irei, com a presença do álbum na internet, concluir esse projeto de dar acesso a esse trabalho. Está tudo pronto para ser colocado no ar”, explica ele, que espera disponibilizar o documento até o aniversário da cidade, em maio.
Enquanto isso não acontece, estudantes continuam procurando as bibliotecas da cidade, que preservam alguns exemplares, em busca de uma das mais complexas e completas pesquisas sobre a história de Juiz de Fora. “Enquanto para estudantes de nível médio ele sempre é indicado, para os universitários, é o primeiro passo. O álbum é e sempre será uma referência”, conclui Elione Guimarães. Para os saudosistas, vale a lembrança. Para os futuristas, um lugar a se espalhar na construção do amanhã, principalmente depois da caracterização climática feita por Albino: “As manhãs são lindas, fartas de luz, sem nevoas; os dias claros, de sol limpido; as noites de suavidade intensa, de luar bellissimo, com céo desanuviado e polvilhado de estrellas”.








