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Jornalista resgata história dos desfiles de carnaval em Juiz de Fora


Por JÚLIO BLACK

09/10/2014 às 06h00

Rosiléa discute a identidade de blocos, bailes, desfiles das escolas de samba, que está se perdendo

Rosiléa discute a identidade de blocos, bailes, desfiles das escolas de samba, que está se perdendo

Os desfiles de escolas de samba em Juiz de Fora chegam ao 50º aniversário em 2016, mas a jornalista Rosiléa Archanjo de Almeida não quis esperar tanto para lembrar a data. Ela realiza, nesta quinta-feira, no Museu do Crédito Real, o lançamento do livro “No ar: Carnaval de Juiz de Fora meio século de identidade”, resultado de pouco mais de um ano de pesquisas sobre o evento e as transmissões radiofônicas que eram feitas desde a década de 1930 para cobrir a mais tradicional festa cultural do país. A publicação reúne a pesquisa histórica e acadêmica feita por ela no período, a partir de um artigo publicado em 2012 para o Encontro de Comunicação da UFJF, reunindo ainda entrevistas e análises empíricas sobre os números ligados ao evento nestes 48 anos.

Rosiléa, uma apaixonada pelo carnaval desde a infância e que comparece todos os anos aos desfiles na cidade, conta que o livro surgiu da necessidade de se “fazer alguma coisa”. A ideia, a princípio, era investir no tema a partir do mestrado, mas o fato de ter sido acometida pela Síndrome de Guillain-Barré (doença que impede a transmissão de estímulos nervosos para diversas partes do corpo, podendo afetar a movimentação dos membros e o funcionamento do aparelho respiratório e coração, entre outros sintomas) fez com que mudasse os planos. “Não estava trabalhando na época, e o horário da fisioterapia impedia que conseguisse um emprego. Resolvi então não esperar ser aprovada no mestrado para desenvolver minha pesquisa. Entre os dez temas ligados ao carnaval e rádio que havia pensado, resolvi escolher o que envolvia a identidade da festa na cidade, pois era uma questão que mesmo na faculdade me despertava dúvidas”, explica ela, para quem o carnaval juiz-forano possui, sim, uma identidade, mas que vem sendo desvirtuada paulatinamente com o passar do tempo.

“Minha intenção é discutir essa identidade que está se perdendo, dos blocos, dos bailes, dos desfiles das escolas de samba. A Turunas do Riachuelo foi criada em 1934, foi a primeira escola de samba de Minas Gerais. Parte das primeiras composições musicais da cidade data das décadas de 1920 e 1930, para as batalhas de confete e ranchos que eram realizadas”, destaca a jornalista, que buscou na Biblioteca Municipal Murilo Mendes boa parte da fonte de sua pesquisa, a partir de revistas e jornais como “Tribuna de Minas”, “O Farol” e “Tribuna da Tarde”, além de artigos acadêmicos, dissertações e livros nacionais sobre o tema. “De Juiz de Fora, só encontrei um que falasse sobre o carnaval, mas o principal tema era a música na cidade.”

Outra dificuldade encontrada, segundo ela, foi conversar com o próprio pessoal que faz o carnaval de Juiz de Fora, apesar de ter conseguido entrevistar personalidades locais do samba como Régis da Vila, Zezé do Pandeiro, Zé Kodak, Dona Nancy de Carvalho (a primeira porta-bandeira da cidade) e o compositor Mamão. “As quadras das escolas de samba ficam fechadas o ano inteiro, agora que elas começaram a investir em comunicação. É muito difícil encontrar as pessoas ligadas à preparação dos desfiles durante o ano.” Rosiléa indica que as agremiações e a própria folia de momo enfrentam há anos uma série de dificuldades, entre elas a descontinuidade dos desfiles, a alteração no local onde são realizados, o declínio dos ensaios nas quadras e o fim dos bailes carnavalescos.

“Hoje não há o mesmo glamour de antes, é preciso valorizar o que é feito aqui. Mesmo com todos os problemas, a nossa identidade é marcada pelas escolas de samba e os blocos tradicionais. A ideia de mudar a data dos desfiles, este ano, foi péssima”, ressalta. Para ela, deve-se evitar a comparação com o carnaval feito em outras cidades. “Não temos a estrutura de Rio e São Paulo. Falta, mesmo que pareça contraditório, uma ‘mentalidade carioca’ para as agremiações. Nas décadas de 1970 e 1980 nosso carnaval atraía turistas, até escola de samba do Rio de Janeiro desfilou aqui.”

Lembranças e homenagens

Se as críticas com a forma como o evento é tratado estão presentes, como as lembranças dos anos em que os desfiles não foram realizados ou que apenas uma agremiação passou pela Avenida Barão do Rio Branco (onde a festa era realizada), há também momentos para resgatar fatos históricos. É o caso do primeiro desfile, de 1966, vencido pela Feliz Lembrança com o enredo “Mascarada veneziana”. Foi o primeiro desfile com um carro alegórico, divisão de alas e até mesmo a mudança do ritmo do samba durante o desfile.”

Além do livro, quem adquirir a publicação vai levar um CD com 50 sambas de enredos clássicos do carnaval juiz-forano. O evento terá, ainda, a distribuição das comendas “Carnaval de Juiz de Fora meio século de identidade”, em parceria com o Instituto Cultura do Samba. Entre os homenageados, estarão as escolas de samba locais e diversas personalidades ligadas ao evento cultural. Além do lançamento, o livro pode ser adquirido diretamente com a autora através do email [email protected].

NO AR: CARNAVAL DE JUIZ DE FORA MEIO SÉCULO DE IDENTIDADE

Lançamento do livro, nesta quinta-feira, às 19h

Museu do Crédito Real

(Avenida Getúlio Vargas 455)