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Sob a sombra do herói


Por JÚLIO BLACK

26/02/2015 às 09h02- Atualizada 26/02/2015 às 11h24

Passado de glórias persegue antigo astro do cinema, que tenta dar a volta por cima e conquistar o respeito da crítica

Passado de glórias persegue antigo astro do cinema, que tenta dar a volta por cima e conquistar o respeito da crítica

Se “Birdman” era ou não o melhor filme entre os indicados, fica a gosto do freguês. O que se pode afirmar sem medo de errar é que a produção do diretor mexicano é, sim, um filme com qualidade suficiente para levar aquele bonequinho dourado oferecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Iñárritu acertou ao contar a história de Riggan Thomson, um ator que se tornou famoso ao interpretar no cinema o personagem Birdman, mas que acabou caindo no ostracismo ao se recusar a filmar o quarto episódio da franquia. Em busca das glórias passadas e do reconhecimento da crítica – que vê nele um ator menor por ter protagonizado uma série de blockbusters -, ele resolve investir as economias na montagem de uma peça na Broadway, a Meca do teatro em Nova York, escrevendo, produzindo, atuando e dirigindo a adaptação do conto “Do que estamos falando quando falamos de amor”, de Raymond Carver.Nada como quatro estatuetas douradas na estante para dar moral a um filme. Quatro semanas após o lançamento em território nacional, “Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância)” chega aos cinemas da cidade com a moral de ter sido o grande vencedor da edição 2015 do Oscar, realizada no último domingo. O filme de Alejandro Gonzáles Iñárritu foi escolhido em quatro das principais categorias da premiação: melhor filme, diretor, fotografia e roteiro original, derrotando produções como “Boyhood – da infância à juventude”, “Sniper americano”, “A teoria de tudo” e “O jogo da imitação” – os três últimos também estão em cartaz em Juiz de Fora.

Nem tudo, porém, são flores. A produção da montagem é complicada, com mudanças de última hora no elenco, apresentações de pré-estreia caóticas, um ator (Edward Norton) completamente perturbado e – talvez o único pecado filme – uma crítica teatral predisposta a escrever um texto para transformar o esforço de Thomson em um retumbante fracasso. Além disso, o ator ainda precisa lidar com a ex-mulher e a filha problemática, que trabalha com ele.

Méritos, o filme tem em grande quantidade. Alejandro Gonzáles Iñárritu, que também é um dos roteiristas do longa, sabe lidar bem com a questão do culto às celebridades – ou seu ostracismo – nos dias de hoje, colocando em perspectiva a questão do que é arte ou escapismo: afinal, Thomson ainda busca ser visto como um ator “sério”, uma vez que – para a crítica – os filmes de super-herói continuam a ser mero entretenimento, como foi (injustamente) visto na própria cerimônia do Oscar. Os dilemas do ator principal são também bem explorados pelo cineasta, incluindo aí a “voz” do herói fantasiado que persegue o protagonista, que usa seus “poderes” nos momentos de maior frustração, ultrapassando os limites do real e imaginário. Outro achado de “Birdman” são os longos planos-sequência, com cortes pouco perceptíveis que criam a sensação de que o filme foi rodado em uma só tacada.

O vencedor do Oscar, porém, só poderia funcionar com o elenco correto, e isso não falta a “Birdman”. Michael Keaton tem em Riggan Thomson o melhor papel de sua carreira, ironicamente exorcizando o seu apagado Batman com Tim Burton. Edward Norton tem a chance de fazer quase uma paródia de si mesmo, enquanto Emma Stone sabe aproveitar as oportunidades que tem. Não à toa, o trio foi indicado ao Oscar.

BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

UCI 3: 19h. Cinemais 2: 14h20, 16h50, 19h20 e 21h40

Classificação: 16 anos

 

Quanto mais repetitivo, pior

Quando “Carlota Joaquina, a princesa do Brasil” chegou aos cinemas, há mais de duas décadas, falou-se tanto da tal “retomada” (a virada do jogo após a implosão da Embrafilme no governo Collor) que todo mundo imaginou que teríamos uma cinematografia de nível internacional, o que parecia consolidado com produções como “Cidade de Deus”, “O que é isso, companheiro?” e “Central do Brasil”. Mas alguma coisa deu errado no meio do caminho, e o cinema “made in Brazil” é monopolizado no século XXI por irrelevâncias como “Até que a sorte nos separe”, “Copa de Elite”, “Os caras de pau” e “Superpai”, uma das estreias da semana.

Dirigido por Pedro Amorim, o filme aposta nos clichês do cinema norte-americano para contar a história de Diogo (Danton Mello), que era um dos caras mais populares da escola, na linha do farrista incansável. Casado e com um filho, ele deixa a família de lado nos finais de semana para jogar baralho com os amigos. Quando a turma do colégio marca uma festa de reunião, ele não pensa duas vezes: larga o moleque numa creche e parte para a farra.

Se o clichê do pai que negligencia a família não é suficiente, ainda piora: em um dos recursos mais manjados, Diogo consegue pegar o garoto errado na creche e só descobre isso bem depois; começa então a caçada noite afora para descobrir onde o herdeiro foi parar. Para quem quiser arriscar, “Superpai” deixa claro já no trailer que a ideia, ali, é regurgitar as mesmas velhas piadas óbvias dos outros filmes que pertencem à mesma “família” de produções descartáveis. Para quem deseja jogar dinheiro fora, enfim.

SUPERPAI

UCI 5: 13h20, 15h20, 17h20, 19h20 e 21h20 (todos os dias) e 23h30 (sexta-feira e sábado). Cinemais 3: 15h, 17h10, 19h10 e 21h30

Classificação: 16 anos