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(Não é) justificativa suprema


Por MAURO MORAIS

21/01/2015 às 07h00- Atualizada 22/01/2015 às 14h50

Desfile na década de 1950 mostra foliões subindo a Halfeld

Desfile na década de 1950 mostra foliões subindo a Halfeld

Numa época em que ainda não existia manipulação digital de imagem, as fotografias são prova incontestáveis. O carnaval de Juiz de Fora surgiu bem antes dos desfiles das escolas de samba. Havia a rua e a alegria, além de um tanto de criatividade. Ao contrário do que defendem as agremiações e o Governo municipal, justificando a manutenção dos desfiles, a tradição na cidade não é o carnaval de desfiles competitivos, que tentam, a todo custo, reproduzir a experiência vivida pelo Rio de Janeiro e seu megaespetáculo. A folia dos blocos e bailes remontam a uma história bem mais antiga de mais de um século.

Em “Carnaval em Juiz de Fora: identidade comunitária ou produto da indústria cultural?”, tese de doutorado defendida na Universidade Metodista de São Paulo, o pesquisador Arthur Barroso Moreira mostra que, já no século XIX, a festa é feita sem regras, nas calçadas e nas casas. “A brincadeira do entrudo dominava a festa, com fantasias de dominós para proteger a identidade daqueles que tinham um código próprio para molhar as pessoas: limões de cheiro para os namorados, muita água para os amigos e a água dos penicos para quem gozasse de antipatia. Além da água, havia as cusparadas das janelas do segundo andar ou da sacada”, relata, referindo-se a uma prática comum para a época.

No início do século XX, os bailes e os blocos começam a ganhar espaço, espalhados em numerosos clubes e ruas, servindo tanto a elite quanto os mais pobres. As primeiras agremiações surgiram de blocos já tradicionais. “A Turunas do Riachuelo foi a quarta escola do Brasil e a primeira de Minas Gerais. A história dela tem uma relação estreita com a trajetória da música popular em Juiz de Fora. Um grupo de rapazes se reunia na Rua Silva Jardim, no Largo do Cruzeiro, e dali surgiu um bloco chamado Pastorinhas do Morro”, conta a pesquisadora e jornalista Rosiléa Archanjo, autora da obra “No ar: carnaval de Juiz de Fora meio século de identidade”.

Decadência

Segundo Nancy de Carvalho, que em 1952 foi a primeira rainha do Feliz Lembrança e, aprendiz de Nelson Silva, tornou-se a primeira porta-estandarte da cidade, havia mais animação e espontaneidade nos festejos. “O carnaval, primeiramente, era na Rua Halfeld, tinha carros com fantasia e era lindo de ver. Começava na Praça da Estação e ia até o Parque Halfeld. Depois foi crescendo e, agora que mudou de local, ficou difícil de aproveitar. Havia uma competição em que todo mundo queria ganhar. Era um cortejo de carros, as pessoas saiam e sambavam, depois voltavam”, recorda-se. Aos 80 anos, ela continua desfilando, tanto no bloco do Beco quanto na escola do Barbosa Lage, mas percebe que muito mudou.

Armando Aguiar, o Mamão, juiz-forano que se destacou em todo o país com seus sambas, acredita que uma palavra apenas define o momento atual: decadência. “Para ser sincero, vejo tudo com tristeza, porque percebo muita decadência. A coisa não está do jeito que poderia e deveria ser. As escolas de samba já não vivem seus brilhos, têm muitos problemas e agora nem ensaiam mais. Eles deixam muito a desejar nos desfiles, e comparo com o que já foi feito aqui mesmo”, diz. “Esse modelo de hoje não é o desejado. Escola de samba tornou-se uma atividade muito cara. Ou há investimento de bastante dinheiro ou é melhor não fazer nada”, completa.

Para Nancy, “os diretores não têm tanta animação de tornar a escola popular. Não há entusiasmo, nem interesse”. O tradicional carnaval de Juiz de Fora, segundo aqueles que o vivenciaram, aproveitava-se do clima das ruas e não a recusava criando “cercas”. “Era menos pretensioso. Havia muita percussão e musicalidade, porque na época era feito sem equipamento de som, o que obrigava o pessoal a sair cantando. Era muito emocionante. Não falo de forma saudosista, mas realista”, destaca Mamão.

A oficialização da competição na década de 1960 não se trata de uma evolução natural. Em seu trabalho, Arthur Barroso Moreira discute como a identidade local foi contaminada pela carioca. “Em síntese, o que vimos foi uma relação que é claramente de sobreposição de uma prática cultural em relação a outra, ou seja, primeiro o rádio levou as músicas do Rio de Janeiro para serem cantadas em Juiz de Fora, e, em seguida, as escolas de samba foram se consolidando e eliminando as outras formas de se brincar a festa, até se tornarem sinônimo de carnaval”, explica o pesquisador. “Não significa que existe um paraíso no passado que deva ser resgatado ou que as pessoas não se divirtam no carnaval. Identificamos um processo histórico que só poderá ser modificado por outro processo histórico”, conclui. A tradição, então, é uma raiz ainda encoberta.