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Política em foco


Por RUBEM BARBOZA FILHO, PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA UFJF

01/10/2014 às 06h00

Oligarquia e Democracia

Um sistema representativo e democrático, como o nosso, está sempre disputado por duas tendências. De um lado, a oligarquização da política: as mesmas pessoas ocupam as posições de poder, o sistema partidário oferece rotineiramente os seus candidatos e estabelece alianças com diversos setores econômicos e sociais, buscando a estabilidade no exercício do poder. De outro, a mudança, provocada pelo “excesso” que sempre existe numa sociedade democrática com relação ao seu sistema representativo. “Excesso” nascido de alterações na própria estrutura da sociedade, das mudanças no seu imaginário, da insatisfação diante do modo como o sistema político reage às suas demandas e aspirações. Nesse caso, a sociedade pode levar não só à alternância de oligarquias no poder como à alteração mais ou menos drástica do próprio sistema partidário e representativo, catapultando ao centro da cena atores novos ou secundários em relação ao que antes existia e que melhor poderiam representá-la.

A atual disputa presidencial se iniciou comandada pela retórica da mudança, herança das enigmáticas manifestações de junho do ano passado e expressão do desejo de mudanças da maioria dos eleitores. O sistema representativo parecia consciente dos seus limites diante do “excesso” da sociedade e disposto a filtrar e organizar politicamente este movimento de insatisfação vindo de baixo. Dilma acenava com o “muda mais”, Aécio, com a mudança e a racionalidade, Eduardo e Marina anunciavam uma “nova política”. A morte de Eduardo fez o jogo político desandar. Marina foi lançada às alturas, como súbita encarnação desse desejo de transformação e ameaça às oligarquias em disputa controlada. A reação das campanhas do PT e do PSDB não se fez esperar, negando à candidatura de Marina a condição de mudança real. Até aí, nada de espantar. Nem Dilma nem Aécio podiam assistir passivamente à surpreendente ascensão da adversária. O jogo desandou pela natureza dessa reação e das respostas de Marina.

A pesada campanha petista não atingiu apenas Marina: sepultou inteiramente a agenda de mudanças reclamada pela sociedade. De repente, já não mais se tratava de responder ao “excesso” da democracia, mas de amedrontar e imobilizar a sociedade para qualquer mudança possível. Tudo aquilo que o PT construíra supostamente do nada – o “Bolsa família”, os empregos, os salários, a Petrobras, a CLT – ironia das ironias – poderia ser destruído. Este jogo puramente oligárquico, que o PSDB já tentara sem sucesso no passado, não encontrou oposição no discurso de Aécio, e Marina não soube sustentar a agenda da transformação. Com isso, o futuro, o “excesso” e a insatisfação da sociedade sumiram do horizonte da campanha. A tendência oligárquica, agora sustentada pelo PT, parece ter destruído as promessas do início da campanha. Voto nulo, então? Melhor não: quem sabe num eventual segundo turno possamos dizer aos oligarcas e candidatos a oligarcas que continuamos aqui, com o nosso “excesso”?