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Ano da luz, do riso e do canto


Por MAURO MORAIS

13/01/2015 às 14h05

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George Savalla Gomes dificilmente seria reconhecido pelo nome de registro. Lembrado, muito menos. Carequinha nasceu no circo e morreu vestido de palhaço. Nascido em Rio Bonito, interior fluminense, fez da vida um picadeiro e tornou-se um dos mais famosos palhaços do Brasil. De sua estreia nacional como cantor no programa “Picolino”, da Rádio Mayrink Veiga, em 1938, ao auge com o “Circo Carequinha”, programa que durou anos na TV Tupi, passando pela “Escolinha do Professor Raimundo”, o artista fez história ao incorporar um personagem sempre preocupado com o folclore, com a inocência infantil e, principalmente, com uma linguagem acessível e alegre. Se vivo, Carequinha completaria um século de estrada no dia 18 de julho deste ano. Ao lado da cantora francesa Edith Piaf, mulher de personalidade forte e canções emocionantes, e do astro Frank Sinatra, sucesso nos palcos com seu “New York, New York” e nos cinemas, o palhaço é um dos centenários de 2015, que promete, ainda, celebrações de importantes artistas que já se despediram, como Bezerra da Silva, cuja morte completa dez anos este mês.

Considerado o ano internacional da luz, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), como forma de homenagear e jogar luzes para a necessidade de sustentabilidade das fontes de energia, 2015 também reserva a comemoração dos 30 anos do Rock in Rio. Programada para setembro, a edição festiva já tem confirmada a presença de Katy Perry, Sistem of a Down, A-Ha, John Legend e alguns outros grandes nomes da música mundial. O evento que revolucionou o cancioneiro brasileiro, fortalecendo a geração do rock nacional nos anos 1980, como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, prepara novidades para este ano, quando também acontece a edição norte-americana, em maio.

Clube dos cem

Morto em 2006, aos 91 anos, o palhaço Carequinha terá sua memória resgatada pela Prefeitura de São Gonçalo, cidade que escolheu viver e na qual se despediu. A secretaria de Turismo e Cultura da localidade, que já possui dois espaços com o nome do artista – um deles é um teatro com capacidade para 220 lugares – prepara uma série de eventos, entre eles o lançamento de uma biografia e um disco com dez sucessos de sua carreira. Tio do ex-prefeito Alberto Bejani, ele foi agraciado com a medalha do Mérito Comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld, uma das mais importantes distinções de Juiz de Fora, em 2005. Também foi homenageado pelo Bloco do Beco, no mesmo ano, e chegou a ficar internado na Santa Casa de Misericórdia meses antes de sua morte. Este ano, estão previstas homenagens a ele durante o carnaval. O palhaço será tema dos desfiles das escolas Real Grandeza e Feliz Lembrança, além do bloco Pintinho de Ouro.

Já o centenário de Édith Piaf deve ser vastamente comemorado na França. Em abril será inaugurada uma megaexposição de seus objetos pessoais, como fotos e documentos, e as emissoras de televisão francesa preparam a exibição de shows, filmes e entrevistas para celebrar o dia 19 de dezembro. Em março, no Teatro Adyar, em Paris, estreia o musical baseado na vida e na obra da cantora, e outros concertos também deve acontecer em sua cidade natal. Consideradas frustrantes pela classe artística e pelo público, as homenagens feitas em 2013, quando completou 50 anos da morte da artista, devem servir de exemplo para as celebrações deste ano.

Grandioso como Piaf, Frank Sinatra também chegaria à casa dos 100 este ano, em 12 dezembro. Cantando os sucessos do músico, o espetáculo “Sinatra: o homem e a música”, com a Jazz Big Band, excursiona pelo Brasil. Enquanto isso, o canal de televisão norte-americano BBC One prepara um grande concerto e, para isso, convidou cantores, atores, bandas e corais para o evento, que ainda não tem data marcada. Billie Holiday, a grande Lady Day, faria um século de vida em abril, não fosse sua morte aos 44 anos. Em Nova York, em maio, o contemporâneo Join Fisher Center recebe o tributo à cantora, feito pelo Aaron Diehl Trio, acompanhado da premiada intérprete Cécile McLorin Salvant, considerada uma das herdeiras do jazz de Billie.

Nomes hoje menos conhecidos na música brasileira também completariam seus centenários, como a irmã de Carmem Miranda e também cantora, Aurora Miranda; o compositor e radialista Fernando Lobo (pai de Edu Lobo); o compositor Abel Ferreira (autor de chorinhos ainda hoje conhecidos); e Orlando Silva, intérprete de “Nada além” e “Súplica”. No humor, Zé Trindade, faria 100 anos em abril e Grande Otelo, em outubro. Na terra natal do eterno intérprete de Macunaíma, Uberlândia, o ator ganhará um memorial ao lado do teatro que leva seu nome e será todo reformado. Otelo ainda é tema do calendário distribuído pela prefeitura local e enredo do desfile da Escola de Samba Uberlandense Santa Cruz.

No meio intelectual, o Brasil comemora em outubro o centenário de Antônio Houaiss, filólogo, escritor e imortal que dá nome a um dos mais famosos dicionários brasileiros. Seu nome deverá, então, estampar muitos colofões pelo país (aquelas inscrições na última página de um livro), além de render alguma homenagem da Academia Brasileira de Letras, como é o costume com os centenários. Conhecido por seu “Cidadão Kane”, Orson Welles faria aniversário de 100 anos em maio. Atual e ainda polêmico, mesmo passados quase 35 anos de sua morte, Roland Barthes, que faria um século em novembro, será tema de um colóquio internacional em São Paulo, entre os dias 23 e 26 de junho. Na França, sua terra, acaba de ser criada a Rede Internacional Roland Barthes, que espera identificar e reunir os principais especialistas na obra do pensador.