Arborização de JF está abaixo da média do país

Na Rua Luiz Detsi, São Mateus, única árvore que pode ser vista não está em via pública
Se você mora em uma via que tem pelo menos uma árvore, sinta-se um privilegiado. Juiz de Fora é uma das cidades com menos espaços verdes de Minas Gerais e possui índice de domicílios em áreas arborizadas (55,5%) inferior à média nacional (68%). Conforme informações divulgadas em maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase metade das residências juiz-foranas (44,5%) está em área onde não há arborização. Isso representa que 227 mil habitantes vivem em trechos de vias que não possuem sequer um arbusto.
Dos 853 municípios mineiros recenseados em 2010, Juiz de Fora ocupa a posição 522 no ranking de cidades por índice de arborização. Isso a coloca atrás de Contagem (370ª), Betim (295ª), Belo Horizonte (184ª), Uberaba (72ª) e Uberlândia (34ª). Juntamente com Goiânia (GO), que tem 89,5% dos domicílios em vias com árvore, e Campinas (SP), cuja porcentagem é de 88,4%, BH, com 83%, está entre as capitais mais arborizadas do país.
De acordo com a engenheira florestal e supervisora de arborização urbana da Agenda JF, Ana Maria Brandão Mendes, realmente Juiz de Fora tem pouca arborização, "ainda mais se for comparada com Belo Horizonte". Ela explica que, pelo fato de ser uma cidade planejada, a capital conta com vantagens. "Aqui, temos locais com as calçadas muito estreitas, com casas construídas sem o afastamento ideal, o que dificulta o plantio. Para realizar qualquer projeto de arborização, é preciso considerar as características das espécies, mas também do local, e isso envolve as condições das calçadas, verificar os problemas relativos à rede elétrica, entre outras circunstâncias. Enquanto em algumas cidades boa parte da fiação é subterrânea, o que facilita plantar árvores, aqui quase não encontramos essa situação", destaca Ana Maria.
Os números do Censo Demográfico de 2010 fazem referência apenas à proporção de lares por existência ou não de árvores na via, sem levar em conta as ruas estritamente comerciais ou industriais, por exemplo. Como é a primeira vez que esse tipo de informação referente à urbanização do entorno dos domicílios é divulgada, não há possibilidade de comparação com anos anteriores.
No entanto, há exatos três anos, uma pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Estudo da Paisagem da UFJF revelou que 94% das áreas urbanizadas de Juiz de Fora possuem Índice de Área Verde (IAV) menor que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 12 metros quadrados para cada morador. Além disso, o levantamento indicou que, em 80% do município, a proporção de praças, parques, canteiros e jardins de uso público não superava um metro quadrado por habitante.
Apesar de algumas iniciativas, como a tentativa de reflorestamento em diversas regiões da cidade, os dados indicam que as ações locais ainda não foram suficientes para colocar o município em um patamar mais agradável. Existe, por parte da Prefeitura (PJF), a intenção de elaborar um plano de arborização para o município, a partir de levantamento detalhado das espécies existentes e dos locais onde não há árvores, o que favoreceria o replantio e planejamento adequados. No entanto, o diagnóstico ainda não começou a ser feito.
Projetos
Conforme a Secretaria de Comunicação da PJF, há dois projetos no setor. Um deles é o "Cidade verde", que visa ao plantio de 500 mil espécies em áreas de encosta e de preservação permanente. Os trabalhos já foram iniciados, e 84 mil mudas já foram plantadas, sendo que a expectativa é de reflorestar 106 hectares na região urbana. O outro projeto é referente ao plano de arborização do município, que precisou ser adiado devido às intervenções urbanoviárias. Segundo a pasta, desenvolver a proposta antes de concluir as obras comprometeria os resultados esperados. Por isso, a ideia é que o projeto seja incluído no plano plurianual, para que haja garantias de que poderá ser executado quando as mudanças viárias forem concluídas.
Índices representam retrocesso
Os dados do Censo consideram apenas se as residências estão localizadas em quadras com árvore. Mas, se levassem em conta a quantidade da vegetação existente, poderiam indicar uma situação ainda pior. Isso porque muitas ruas e avenidas extensas têm quantidade insignificante de vegetação. É o caso da Rua São Mateus, na Zona Sul, que possui apenas cinco arbustos e três coqueiros em cerca de 1,5 quilômetro de prolongamento. A maioria dessas árvores concentra-se no fim da via, próximo à Fundação João de Freitas, sem que haja distribuição harmônica pelo logradouro.
Para o professor Daniel Sales Pimenta, do Departamento de Botânica da UJFF, o fato de a cidade apresentar índices tão ruins representa um retrocesso. "Desenvolvimento sem respeito à natureza é burrice. Desenvolvimento a qualquer custo provoca o comprometimento dos recursos naturais e, consequentemente, perda da qualidade de vida", assevera.
Pimenta destaca ser preciso incentivar a educação ambiental nas escolas, ampliar a fiscalização de desmatamentos e dos loteamentos espalhados pela cidade, além de deixar de priorizar o desenvolvimento empresarial a qualquer custo. Para o professor, a compra da área da Mata do Krambeck pela UFJF, para transformação em jardim botânico, representa um avanço, pois impediu a construção de um loteamento e favoreceu a preservação.
A supervisora de arborização urbana da Agenda JF, Ana Maria Brandão Mendes, pondera que algumas iniciativas já são feitas para impedir que o crescimento desordenado da cidade interfira ainda mais nas áreas verdes. "Todos os novos bairros e condomínios que passam por processo de licenciamento contam com projeto de arborização. Um plano piloto também foi desenvolvido no Bairro Cidade do Sol e, no período adequado, haverá o replantio."
Necessidade de planejamento e mudança cultural
A supervisora de arborização urbana da Agenda JF, Ana Maria Brandão, diz que solucionar o problema da arborização é algo difícil, pois exige planejamento de longo prazo e mudança cultural. "Boa parte da população não compreende a importância das áreas verdes. Um exemplo é que 50% dos pedidos de corte de árvore recebidos pela Agenda JF referem-se às vias públicas e têm motivos fúteis, como queda de folhas ou obstrução da visão. Por isso, não podemos atender a maioria dessas solicitações."
Conforme o professor Daniel Sales Pimenta, as árvores mantêm uma fauna associada, como passarinhos, diminui o aquecimento, aumenta a refrigeração nas cidades, ajuda a reduzir o teor de gás carbônico e a aumentar o oxigênio na atmosfera. Além disso, em termos de ornamentação, as flores e folhagens podem aliviar o estresse. Ana Maria reforça que as árvores atuam diretamente no microclima da região onde estão inseridas, além de produzirem áreas de sombra e funcionarem como abrigo e fonte de alimento para a fauna urbana.
Mas a supervisora da Agenda JF aponta que ainda há resistência da população para compreender a importância das áreas verdes. Problema nesse sentido foi enfrentado pela aposentada Esmeralda Leopoldina da Cruz, 61 anos. Ela é moradora da Rua Tenente Lucas Drumond, no Jardim Natal, Zona Norte, e diz que há cerca de 40 anos plantou diversas palmeiras em via pública. "Não sei se hoje em dia pode. Mas, naquela época, a gente fazia assim e, no meu caso, funcionou bem até no ano passado, quando um vizinho cortou quase todas. Só ficou um coqueiro. Eu havia plantado do lado que não tinha poste, para evitar problemas com a fiação. As árvores eram lindas, a rua vivia cheia de passarinhos. Avisei a todos os órgãos, liguei para a polícia de meio ambiente, mas não fizeram nada. E hoje estamos praticamente sem planta", denuncia a moradora.







