Clube do Choro faz aniversário de 25 anos
A comemoração, em esquema de roda de choro, será realizada, neste sábado, no Bar da Fábrica


É necessário abrir os espaços. Fazer acontecer o que já deveria acontecer há tempos. O processo, no entanto, é lento e gradativo. É preciso, sobretudo, paciência: ir construindo e garimpando. “Mas a proposta foi coroada de êxito.” Márcio Gomes, um dos fundadores do Clube do Choro de Juiz de Fora, comemora os frutos possibilitados pelo grupo desde sua criação, há 25 anos, festejados na última terça-feira (17). A data será celebrada com uma roda de choro, como merece, neste sábado (21), no Bar da Fábrica, a partir das 20h.
O Clube do Choro de Juiz de Fora surgiu a partir do grupo Choro e Cia, que começou suas atividades, em 1988, para suprir uma demanda de uma casa de música instrumental que existia na época e estava em busca de um grupo de choro. Márcio lembra que, apesar de a cidade ter tido compositores relevantes no gênero, existia pouco espaço e poucos músicos para dar continuidade a esse movimento. Os quatro amigos do Choro e Cia, sendo eles Kim Ribeiro (flauta), Cazé Santos (bandolim), Cezar Ferreira (violão sete cordas) e Márcio (pandeiro), tiveram a ideia, em 1997, de começar um projeto com um simples objetivo: “arrebanhar mais músicos para o choro em Juiz de Fora”. “A gente, na época, pensou: se não tem espaço, vamos criá-lo”, diz Márcio. E assim, então, nasce o Clube do Choro.
Mais que apresentar, juntar músicos
Os primeiros encontros, ainda em formato de quarteto, mas já com essa nova proposta, que era muito mais do que simplesmente fazer uma apresentação, aconteceram na Toca da Raposa. Já nessa época, com a divulgação do Clube, novos músicos foram chegando, como Fernando César (violão sete cordas) e Álvaro Giannini (cavaquinho), e a reunião acabou precisando de um novo lugar para acontecer, porque a plateia também foi crescendo. Eles mudaram, então, para a Universidade do Chopp, que ficava na Rua Morais e Castro. “Já estando lá, o encontro ficou muito divulgado e teve afluência de público. A gente passou a convidar outros músicos também. Foi ficando grande.” O bar, no entanto, fechou, e eles trocaram de casa mais uma vez, indo, dessa vez, para o melhor ponto, de acordo com ele: o Bar do Gaudêncio.
“Foi lá mesmo que bombou. Teve um período que o grupo tinha 20 participantes. A gente chegou a fazer um CD só com choros da cidade, tinha um acervo de partituras, oferecia oficinas, fazia lançamento de trabalhos de músicos de fora lá. Foi, realmente, um período que marcou”, rememora Márcio. O Clube do Choro se reunia no Bar do Gaudêncio todos os sábados. E era mesmo como uma roda: os músicos iam tocando, alguns outros iam chegando e participando, geralmente indo madrugada à fora, “até quando acabasse a cerveja”, brinca o músico. Eles gostavam profundamente desse encontro e sentiam já o projeto dando frutos, com novos músicos aparecendo e construindo outros projetos. Aos 14 anos, no entanto, o Clube se dissolveu. “A gente não tinha remuneração, praticamente. Encontrava porque gostava. Mas é difícil manter por mais que 14 anos. Apesar disso, a gente vê que o Clube do Choro acabou se dissolvendo e deu frutos. É como se existisse uma marca, porque, mesmo com esses encontros acabando, quando o pessoal vê a gente em outras rodas, ainda associa ao Clube.” Hoje em dia, Márcio acredita que, além de um número considerável de artistas que tocam o gênero, Juiz de Fora tem público que desenvolveu o gosto por esse tipo de música.
Apanhando os frutos
Márcio lembra que, quando começou – e isso já tem quase 50 anos -, era mais difícil aprender o choro, já que as rodas eram, se não a única, a principal maneira de praticar a linguagem. Ele mesmo conta que foi aprendendo assim: frequentando as rodas, observando os outros e praticando. “Até que, quando a gente vê, é a gente a turma mais velha que está ensinando para os mais novos que estão chegando.” Esses encontros, que são também de gerações, são mesmo um ciclo interminável de ensinamento e aprendizado de um para o outro. Em Juiz de Fora, com o tempo, outras rodas foram surgindo. Caetano Brasil, clarinetista, saxofonista e compositor, que inclusive participou por um tempo do Clube do Choro, organizou a roda de choro didática “Mão na roda”. Ao contrário de outras, o intuito lá era de, realmente, ensinar a tocar determinada música, com pausas necessárias e repetições. Ao mesmo tempo, acontecia a roda no Bar do Gilbertinho, que os integrantes do Clube frequentavam, além dessa nova leva de chorões juiz-foranos, que era para a prática incessante, que também é uma forma de aprender, mas na “marra”, como pontua Márcio. Essa voltou a acontecer, recentemente, por causa da pausa da pandemia, no mesmo lugar; a “Mão na roda”, no entanto, ainda não.
Com começo, sem fim
Assim como acontecia nos encontros do Clube do Choro, a apresentação deste sábado também é aberta aos interessados em participar. A ideia é que o revezamento de instrumento entre os músicos também aconteça. É por isso que Márcio diz que as rodas têm hora para começar, mas nunca para acabar, porque, quando um cansa outro entra no lugar, e a vontade de tocar é inesgotável, assim como o repertório. Só o dono do bar é que pode indicar que chegou ao fim. O encontro vai ser gravado para dar origem a um vídeo voltado à redes sociais. É uma forma de eternizar esse momento que, na verdade, começou há 25 anos e, como toda roda, não vai se esgotar tão cedo.











