Ravell, drag queen de Wagner Vaccari, estrela ‘Queen stars’ na HBO
Drag é a única mineira no reality show que busca a criação do primeiro trio de drags brasileiro


Wagner Vaccari, de maneira intuitiva, sabia desde novo que um dia daria vida a Ravell. Ainda criança, nascido em uma família musical, a voz o interessava. O juiz-forano queria ser dublador e treinava com o filme “O rei leão”. “Eu sempre quis ser artista, mas nunca imaginei que conseguiria”, relata. Hoje, Ravell, que nasceu há 15 anos, é uma das 20 drags que participam do Queen Stars, reality show de drag queens produzido pela HBO. Comandado por Pabllo Vittar e Luisa Sonza, o programa quer formar o primeiro trio de drags brasileiras. Na disputa, ganha quem tem a melhor voz e performance. Os jurados são Vanessa da Mata, Tiago Abravanel e Diego Timbó. Os três primeiros episódios foram lançados na última quinta-feira (24). A partir de 4 de abril, os episódios irão ao ar às segundas-feiras, sempre às 20h, no canal fechado TNT.
Ravell e Wagner são indissociáveis. “É engraçado, porque agora eu tenho falado do Wagner na terceira pessoa. Mas ele sou eu. Eu sou o Wagner. E sou a Ravell. Por causa do que está acontecendo na minha vida, estou sendo mais Ravell. Mas Wagner e Ravell sou eu mesmo. Eu sou grato, porque foi a Ravell que me permitiu chegar aonde estou hoje.” A primeira vez que Wagner passou uma maquiagem para se apresentar como drag foi em Goiânia, em um concurso na cidade, quando passou um tempo morando por lá. Foi impulsionado a participar por um amigo que já trabalhava como drag. E Wagner ganhou, mas acabou fazendo outras coisas pelo caminho, sem dar atenção ao feito. Isso tem 15 anos, o mesmo tempo que ele trabalha na noite como cantor. Nessa época, Ravell ainda não cantava, mas Wagner, sim.
Beyoncé Ravell
Wagner integrou uma série de bandas de baile e deu aulas de dança em várias academias da cidade. Antes de ir para Goiânia, não tinha idade para frequentar as casas de show que reunia as drags de Juiz de Fora. Mas, quando voltou, já tinha. Começou a perceber como a noite era formada na cidade, entender como tudo funcionava. Conheceu, então, Rayane Ravell, uma das principais drags juiz-foranas, que foi quem deu o maior apoio a ele, e, como homenagem, pegou emprestado seu nome. Mas ele já era conhecido mesmo como Beyoncé, porque gostava de fazer cover da cantora norte-americana. Nisso, surgiu a Beyoncé Ravell.
‘É minha luta que me representa’
Ora se apresentando como cantor, ora se apresentando como drag, Wagner/Ravell ainda não tinha juntado as suas duas facetas. Vendo Pabllo Vittar em um show, viu que era possível, sim, a uma drag, cantar. “Tive uma conexão muito forte. Eu vi que eu podia fazer aquilo.” Apesar de Juiz de Fora sediar um dos principais concursos gays do Brasil, Wagner ainda considera a cidade homofóbica. “A gente parece que vive no meio de uma guerra. É uma contradição muito forte. Ao mesmo tempo que tem representatividade, tem muito racismo e muita homofobia. Mas eu quero mostrar que é possível, sim, uma drag preta da periferia chegar ao topo. E mesmo com tudo o que eu sofri é importante dizer que o racismo e a homofobia não me representam. É a minha luta que me representa.”
Wagner nasceu no Bairro São Judas Tadeu, na Zona Norte de Juiz de Fora. Agora, morando em Belo Horizonte, só teve a oportunidade de voltar lá no começo de 2020, e montado. Ele conta que, na ocasião, muito antes de o reality ser uma realidade, alguns moradores o reconheceram e pediram para tirar fotos, uma vez que seu trabalho como drag já era reconhecido. “Foi uma sensação. Agora, com o reality, todo mundo se lembrou de tudo. Muita gente postou foto comigo, me dando apoio. Fotos minhas criança ainda, porque era a única que alguns tinham. É muito importante as raízes que eu tenho. Eu sei de onde eu vim e para onde eu vou. Isso me abraça.”
Outros tempos
Hoje, para ele, com as redes sociais, tudo fica mais fácil. Quando começou, Wagner diz que teve que aprender tudo “na marra”, porque não havia tutorial no YouTube ensinando a maquiar, muito menos divulgação em Instagram ou Twitter. Seu trabalho se tornou reconhecido pelo boca a boca. E a maquiagem foi se tornando fácil pela vivência dos camarins, com outras drags. “A vida ensina.” Ele mesmo se maquia para dar vida a Ravell. “Se eu tiver meia hora, me arrumo em meia hora. Mas se eu tiver tempo, me arrumo em três horas.” E ele lembra bem da ocasião em Goiânia, sendo maquiado pelo amigo, sem ter peruca, muito menos salto, porque calça 43 e era difícil encontrar calçado com esse número.
Estar no reality show é a confirmação de que Wagner precisou passar por tudo isso para que Ravell conseguisse brilhar. “Eu já pisei em muitos palcos, mas nunca em um daquele tamanho (o do “Queen stars”). E lá eu tenho tido o reconhecimento que poucas vezes eu tive. Os jurados me enxergam de uma forma que muitos na minha cidade e na minha família não me enxergaram.” Ele também quer ser o que Pabllo, um dia, foi para ele: um impulso. Mostrar que é possível. Durante muito tempo, foi limitado às drags o lip sync, a dublagem. Agora, o “Queen stars” valoriza, também, a técnica que já foi escondida por vezes, a preparação vocal e o fôlego que exige a performance do cantar e dançar.
O que toca a pele
Ravell é a participante mais experiente do reality show, já que Wagner tem 35 anos e é o mais velho da competição. A bagagem, para ele, foi fundamental, até porque o reality mistura o que ele sempre fez: cantar e dançar. Na pele, ele tem registrada uma música de Beyoncé, de ombro a ombro, para não esquecer, como se isso fosse possível, a semente que foi plantada lá atrás. “Na minha pele, eu só registro a arte que me toca.”











