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Espetáculo teatral ‘Hediondos’ estreia nesta quinta no Paschoal Carlos Magno

Livremente inspirado no livro “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella, peça imagina as últimas horas antes do massacre no Pavilhão 9 do Carandiru, em 1992


Por Júlio Black

26/01/2022 às 07h00

hediondos
Com apenas dois atores no palco, “Hediondos” relembra o massacre do Carandiru, que terminou com 111 mortos em 1992 (Foto: Jonathas Abrantes/Divulgação)

Em 2 de outubro de 1992, uma rebelião no Pavilhão 9 do Presídio do Carandiru, em São Paulo, terminou no maior massacre já ocorrido em uma unidade prisional no Brasil. Mais de 300 integrantes da Tropa de Choque da PM paulista invadiram o pavilhão e mataram 111 detentos em menos de uma hora. A história foi contada no livro “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella, que foi levado ao cinema, anos depois, pelo diretor Hector Babenco.

E é o livro de Varella que inspirou o produtor Antônio Coutinho Júnior – que divide a direção com Giovanni Gori – a escrever o texto da peça “Hediondos”, que terá apresentações nesta quinta e sexta-feira, às 20h30, no Teatro Paschoal Carlos Magno, com uma equipe de artistas e técnicos de Juiz de Fora, Ubá e Tocantins, que formam a Mercado Cultural Produtora e Artistas Independentes. A peça foi um dos projetos selecionados no edital “Ocupa Funalfa”, e os ingressos podem ser adquiridos por meio da plataforma Sympla. Para assistir ao espetáculo é obrigatório apresentar cartão de vacinação, além do uso obrigatório de máscara.

“Hediondos” tem como protagonistas dois personagens que não estão no livro de Drauzio Varella, Alemão (Vinnie Bressan) e Dalila (Adriano Lucas), que mantêm uma relação amorosa enquanto cumprem suas penas. A história se passa poucas horas antes do início da rebelião, em que o casal precisa lidar com o fato de não conhecerem a vida do outro antes da prisão e com os próprios fantasmas pessoais.

Quase dois anos de espera

A trajetória até a estreia oficial de “Hediondos” nos palcos foi longa. Vinnie Bressan conta que Antônio Coutinho Júnior entrou em contato e enviou o texto em 2018, depois que uma tentativa com atores de Juiz de Fora não foi para frente. Os ensaios aconteceram por todo o ano de 2019, e a estreia foi agendada para abril de 2020. Porém, com a pandemia, a apresentação foi cancelada. Como a peça tem o apoio Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, a solução foi realizar apresentações virtuais no final do mesmo ano – além de ter sido a única peça de Minas a ser selecionada para a segunda edição do 2º Festevi (Festival de Teatro de Viçosa), que exibiu pela internet apresentações gravadas.

“Confesso que não gostei muito da apresentação on-line, mas em Juiz de Fora pretendemos fazer uma captação melhor, pois alguns festivais pedem que enviemos um vídeo para fazer a inscrição”, diz Vinnie, que acrescenta que o feedback das apresentações virtuais, mais os ensaios que voltaram a acontecer no ano passado, resultaram em mudanças no texto e ritmo da peça. “Mudou bastante coisa, inclusive o processo em si, que foi extenuante. Tivemos alguns feedbacks para enxugar o texto, que mudou bastante, além do ritmo e a direção, que passou a ter outra pegada. Ganhamos em termos de plasticidade e ritmo. Os atores não mudaram, até porque a química ficou muito legal. O Adriano é um cara com quem nunca tinha atuado, mas descobri nele um grande parceiro.”

Arrebatando prêmios

Além de Juiz de Fora, a peça já tem na agenda apresentações em Belo Horizonte, Tocantins, Ubá e Rio de Janeiro. O público que for ao Paschoal Carlos Magno poderá assistir a um espetáculo que já foi testado presencialmente – em pré-estreia – no Festival Nacional de Teatro de Governador Valadares, que aconteceu na semana passada. E foi uma pré-estreia mais que promissora: “Hediondos” venceu cinco dos nove prêmios a que foi indicado: melhor peça, direção, ator coadjuvante, cenário e iluminação.

“Lá em Governador Valadares foi uma coisa de outro planeta, o que vivenciamos foi muito acima de qualquer expectativa. E foi meio que um susto nossa ida, porque quase não fomos: nosso iluminador, Gil Santos, testou positivo para Covid e não pôde ir. Com sorte, encontramos uma profissional de iluminação lá, passamos a luz em apenas uma hora, e ela ainda ganhou o prêmio. Para nós foi maravilhoso, e agora, em Juiz de Fora, a expectativa nem tem explicação. O Teatro Paschoal Carlos Magno tem um palco que engole a gente se não tomarmos cuidado, e a estrutura que existe lá é nova pra nós”, diz Vinnie Bressan, que já havia assistido ao filme e lido o livro que inspirou “Hediondos”.

“O contexto da história é muito rico, a vida que eles levavam na penitenciária é muito complexa, com relações de poder muito fortes, e poder dar voz a isso no palco é muito positivo”, afirma. “Recomendo a peça para todo mundo, mas principalmente para quem acredita que ‘bandido bom é bandido morto’, porque quando falamos sobre a vida desses presidiários explicamos como foram parar lá, que muitas coisas na vida não temos controle. Em determinadas situações é difícil não reagir de certa forma; se estivéssemos no lugar deles será que faríamos diferente? Desde que comecei a ensaiar a peça me pergunto isso, e não tenho resposta até hoje.”