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Na orelha da bola – ‘Depois de tudo que eu fiz’


Por Wendell Guiducci

01/03/2012 às 06h00

Eu ouvi a história no Bar do Moreira, onde sempre é possível encontrar políticos aos sábados, na calçada, metidos em camisas do Boca Juniors ou do Manchester United, de bobeira, escutando a voz das ruas. Ouvi o caso da boca de dois publicitários – é sempre ótimo conversar com publicitários, porque eles adoram falar sobre eles mesmos e sobre as coisas que só eles sabem e a gente quase não abre a boca e tem bastante tempo para ouvir.

Dizem que o ponta estava no fundo do poço. Estava sem clube, encostado por causa de uma hérnia de disco e nem sabia se ia voltar a jogar bola. E era bom de bola, pelo que falaram. Não bastassem as dores nas costas, estava sofrendo de dor de corno também, depois de a mulher ter lhe metido alguns pares de chifres enquanto ele cruzava de ônibus fretado as distâncias do grandioso estado de Minas Gerais para jogar por um time do interior. Parece que o cachorro também morreu na mesma época, mas a gente nunca sabe quando os caras estão exagerando para criar um efeito dramático, sabe como é.

Fato é que um treinador ficou sensibilizado com a situação do ponta e amparou o moço. Conseguiu um médico, fisioterapeuta e, mais importante que isso, aconselhou-o como um pai e o impediu de desistir. E o cara foi se aguentando. Em seis meses estava jogando bola, e o técnico o levou para jogar com ele. Do banco foi para o campo, virou titular, perdoou a mulher e comprou outro cachorro. Passou um tempo jogando na Bélgica (o outro disse que era na Suécia, mas pouco importa, era um mercado desse naipe), ganhou um dinheirinho e voltou para Minas.

O ponta tomou um rumo, o técnico outro, mas se reencontraram um tempo depois, em times diferentes. Não demorou muito e o técnico ligou, pedindo ao amigo boleiro que desse uma força com um outro jogador. Era para convencer o terceiro elemento a ir trabalhar com o treinador. O ponta não pestanejou e ligou para o cara e disse algo do tipo vai na fé que o fulano é boca boa demais. Umas semanas depois, novo telefonema. Agora o técnico queria que o ponta emprestasse uma grana, porque o clube já não pagava salário há dois meses e ele tinha financiado uma casa e não sei mais o quê. E o ponta firme foi lá e mandou o dinheiro.

Mais algumas semanas e o técnico, ameaçado de rebaixamento e de demissão, ligou para o amigo e pediu para aliviar no jogo do final de semana, que era tipo o penúltimo do campeonato. O ponta, melhor do time, levou na brincadeira, mas o treinador apelou, não sei se exatamente com essas palavras: depois de tudo que eu fiz por você, me deve uma. Vamos segurar pelo menos um empate. O ponta desligou o telefone. Não era primeira divisão nem nada, mas naquele final de semana, entrou em campo, fez um gol e ajudou a rebaixar o time do ex-amigo.

Não se tem notícia de que tenha comemorado o feito, mas ainda naquela noite, aborrecido, entre uma e outra cachacinha, lá mesmo no Bar do Moreira, teria dito que, se soubesse naquela época que o gesto amigo lhe custaria tão caro, teria virado marceneiro.