Como quem troca de camisa
O processo foi desencadeado no fim de 2010. Na virada daquele ano, o time do Ituiutaba resolveu trocar de cidade-sede e de nome, transferindo-se do Pontal do Triângulo Mineiro para Varginha, no Sul de Minas, e assumindo a identidade do Boa Esporte em 2011. Agora, outras duas agremiações protocolaram pedidos na Federação Mineira de Futebol (FMF) e se transformarão também. O Ipatinga vai para Betim e passa a ter o mesmo nome do município da região metropolitana de Belo Horizonte. Já o Nacional continuará sendo chamado assim, mas não mais terá sua casa em Nova Serrana: a partir de 2013, é o Nacional de Patos de Minas.
Segundo o secretário-geral e assessor jurídico da FMF, Rodrigo Diniz, a entidade não tem o que fazer em relação a esses casos, que desagradam os dirigentes responsáveis pelo futebol do estado, mas estão dentro da lei. "Os clubes, como associações civis, têm o direito de mudar de nome e sede. Sendo a transformação aprovada pro seus associados, eles informam à Federação e podem proceder as alterações. Tanto Ipatinga como Nacional fizeram o procedimento e entregaram toda a documentação, por isso, não há nada que os impeça de mudar como pretendem, mesmo a contragosto da FMF", explica.
No rol de justificativas para a troca estão sempre as dificuldades financeiras e a falta de apoio do poder público. Na opinião de Diniz, motivos insuficientes para uma mudança que, em sua visão, pune o torcedor. "A Federação vê com tristeza essa situação. É uma atitude que penaliza o torcedor que, de repente, corre o risco de não ter mais time em sua cidade. Mudanças de locais de mandos de jogos sempre ocorreram e vão ocorrer por motivos temporários, mas trocas de sede, não. Os clubes acabam dando como justificativa a falta de apoio e patrocinadores, e até mesmo as condições dos estádios municipais, mas sabemos que não é isso. É apenas um pretexto. Tememos pelos reflexos políticos que estão envolvidos nessas migrações."
Para o secretário-geral, na própria argumentação usada pelos times para deixar um local e se transferir para outra sede está algo que mostra que a troca é prejudicial."Se uma equipe não tem uma torcida fiel e que possa ser aumentada, dificilmente vai atrair investidores. Para que um clube seja atrativo ao patrocinador, tem que estar identificado com o torcedor, com a cidade, ter uma marca consolidada. Trocando o time de cidade em cidade não se consegue isso", constata Diniz.
Contra-ataque
Atenta ao que pode se tornar uma verdadeira negociação de cidades tentando atrair equipes de futebol para si, a FMF já estuda medidas para, pelo menos, tornar mais difícil essas trocas de sede. "Com os episódios de 2011, como o do Grêmio Barueri, que virou Grêmio Prudente e retornou a sua cidade de origem logo em seguida, a CBF baixou uma norma, através de Resolução da Presidência (RP nº 08/2011), visando regular tais mudanças. Antigamente isso não acontecia em Minas Gerais, começou com o Boa. Essa movimentação de outros clubes nos causa preocupação, principalmente com o torcedor. Assim, a entidade estuda fazer algo em relação a isso também, como foi feito nacionalmente. Se não conseguiremos impedir, pelo menos dificultaremos as migrações de times. Vamos estudar as particularidades do estado. Isso realmente não é normal", explica Diniz.
Segundo o presidente do Nacional Esporte Clube, Amarildo Santos, agremiação que hoje está em Nova Serrana mas que vai para Patos de Minas em 2013, a falta de perspectiva de apoio da nova administração municipal é que está empurrando o clube para fora da cidade. "Estamos deixando Nova Serra por um motivo simples: falta de apoio da Prefeitura. Atualmente, temos como parceira a administração municipal que nos ajuda dando condições para que mandemos os jogos na Arena do Calçado, custeio de transporte interno e outros benefícios estruturais. Com a mudança no Executivo da cidade, não há garantias de que isso vai continuar. Por isso achamos melhor procurar uma alternativa de nos transferir de sede", afirma Santos, referindo-se à eleição de Joel Martins (PTB) para a cadeira que Paulo César (PDT) deixará no dia 31 de dezembro.
Mesmo com a ida para Patos de Minas, o dirigente não dá garantias de que sua equipe permanecerá por lá em busca da construção de uma identidade com o torcedor e a cidade. "Estamos indo para Patos de Minas para fincarmos pé lá. Mas não dá para prever o futuro, dar a certeza de que é lá que vamos nos firmar e crescer dentro do futebol estadual e, quem sabe, nacional", diz Santos.
O sucesso da transferência depende inclusive de uma parceria com outro clube mineiro que, por enquanto, não concorre na mesma divisão que o Nacional. "Escolhemos Patos pois firmamos uma parceira com o Mamoré, através da qual vamos utilizar seu campo de treino e o estádio durante o Campeonato Mineiro. Hoje, eles estão no Módulo II. Se o Mamoré subir, vamos sentar de novo e conversar. A princípio, o acordo é até o fim deste Campeonato Mineiro", explica Amarildo.
De acordo com o dirigente, o desejo era ficar em Nova Serrana, mas se isso acontecesse, a equipe teria que fechar as portas. "Nossa intenção era ficar em Nova Serrana, mas diante da perspectiva de perda de apoio da Prefeitura, fica impossível. Sei que a torcida perde, que é ruim. Mas preciso ver o lado do clube. Se insistíssemos em permanecer lá, o clube acabaria, e eu não posso permitir isso. Tenho que olhar o lado da equipe", argumenta Santos.
Já mudou
Embora Amarildo considere esse o primeiro movimento do clube entre sedes no estado, o Nacional já trocou de cidade, e também de nome. Criado em 2008 como Fabriciano Futebol Clube, tendo como base o município de Coronel Fabriciano, o time só ganhou seu atual nome e foi para Nova Serrana em 2009. "Considero que essa é a primeira vez que o clube está mudando de sede. Quando foi criado, como Fabriciano, não tinha essa proposta. Era de um empresário, o Marcelo Martins, e fundamentalmente visava a negociação de atletas. Entrei em um acordo com ele, assumimos a agremiação e a levamos para Nova Serrana, rebatizando-a como Nacional com o intuito de fazer uma equipe que disputasse os principais campeonatos."
A diretoria do Boa Esporte prefere não falar sobre a mudança de cidade – a primeira a causar impacto no futebol mineiro – desde o início de 2011. Para rádios, jornais e redes de televisão à época, o presidente do clube, Rone Moraes, justificou a troca de município por conta da impossibilidade de mandar seus jogos no Campeonato Brasileiro da Série B. O regulamento exige que a arena dos confrontos tenha capacidade para, no mínimo, dez mil pessoas, e o Estádio da Fazendinha, em Ituiutaba, comportava 3.500 torcedores em 2010.
Atualmente, o time sediado em Varginha vem sendo abraçado pela cidade, ganhando torcedores e renovou seu compromisso para ficar por lá, mesmo sem a reeleição de Eduardo Corujinha, atual prefeito da cidade do Sul de Minas, o homem que levou o clube para o município. Há duas semanas, uma reunião entre dirigentes do Boa e integrantes da nova administração, incluindo o futuro chefe do executivo, Antônio Silva, selou a permanência do clube. "Viemos para fazer um bom trabalho, para ficar um longo tempo e para chegar à Série A", garante o diretor da agremiação, Roberto Moraes.
Já a transferência de sede e mudança de nome do Ipatinga para Betim Esporte Clube está sendo tratada somente pelo presidente da agremiação, Itair Machado. Embora a reportagem da Tribuna tenha conseguido contato com o vice-presidente e irmão de Itair, Luciano, este não estava autorizado a falar sobre o assunto. Apesar das inúmeras tentativas de contato com o mandatário do Tigre, ele não atendeu ou retornou as ligações feitas para seu celular pessoal desde o início da última semana.









