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Entrevista/Reinaldo, ex-jogador e vice-presidente da Ademg


Por PEDRO BRASIL

31/03/2013 às 07h00

O andar com dificuldades é reflexo das cirurgias e infiltrações no joelho que encerraram de forma precipitada- aos 29 anos -, a carreira de um dos maiores atacantes do futebol brasileiro: Reinaldo, ou "Rei", como é chamado pela torcida do Galo. Mesmo com as limitações de movimentos, José Reinaldo de Lima ainda "distribui canetas" nas raras peladas que disputa aos 56 anos. Maior artilheiro da história do Atlético-MG (255 gols) e do Mineirão (144 gols), o Rei trabalha no futebol, mas fora de campo: atualmente, é vice-presidente na Administração dos Estádios de Minas Gerais (Ademg). Além disso, é proprietário do BH Futebol e Cultura, em Nova Lima.

Em visita a Juiz de Fora, há duas semanas, para reencontrar amigos do meio político – Reinaldo já foi deputado estadual (PT) e vereador (PV) em Belo Horizonte -, após uma pelada, o Rei bateu um papo descontraído com a Tribuna sobre futebol, preparação para a Copa do Mundo, o Brasil de Felipão e a boa fase do Atlético que, na visão dele, é o melhor time da América do Sul.

 

Tribuna – O que trouxe o Rei a Juiz de Fora?

Reinaldo – Tenho muitos amigos aqui e, com a entrada na política, esses laços se fortaleceram. O Márcio (Itaboray) me aproximou do (deputado federal Marcus) Pestana. Além deles, também conheço o prefeito Bruno (Siqueira), o Custódio (Mattos). Sempre que alguém me chama, venho com prazer. Além disso, meu filho está abrindo um negócio aqui.

 

– Você acredita que Juiz de Fora tem chance de ser centro de treinamento de uma seleção na Copa do Mundo?

– A Fifa cobra que as cidades ofereçam boas condições de trabalho. A posição geográfica de Juiz de Fora é favorável, já que com duas horas de estrada você está no Maracanã e com três horas está no Mineirão. Isso sem contar a expressão da cidade, Juiz de Fora é um polo, uma cidade de grande desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o município precisa se fixar no cenário esportivo brasileiro. Tinha muita esperança que acontecesse quando o Tupi subiu (para a Série C em 2012), mas não aconteceu. A cidade tem todos os requisitos: uma equipe profissional, um estádio muito bom, tem público para jogo…

 

– E o Mineirão, como está a situação dele? Já está tudo pronto para a Copa?

– Estive com o Jérôme Valcke, da Fifa, em sua visita para saber como estava o estádio. A única preocupação dele era com o Maracanã. No Mineirão, está tudo certo. Algumas obras que são necessárias para fazer o deslocamento dos torcedores, como as do BRT (Bus Rapid Transit), ainda estão em andamento, mas está tudo dentro do script. Independente disso, o estádio é de acesso muito fácil, fica na Pampulha, tem um estacionamento amplo. Acredito que Belo Horizonte será um dos lugares mais agradáveis para ver os jogos da Copa.

 

– Você acha que o Brasil tem condições de vencer a Copa?

– O Brasil é sempre favorito. Desta vez, ainda joga em casa e quer superar o trauma da Copa de 1950. Somos pentacampeões e temos os melhores jogadores. O time precisa pegar mais entrosamento e treinamento, mas acredito que a Seleção tem todas as condições de vencer essa Copa e fazer uma festa bonita.

 

– Como você vê o cenário de atacantes na Seleção?

– Acredito que o Brasil possui jogadores de grande competência, como Fred, Luis Fabiano e Leandro Damião, mas eles têm estilo parecido, são mais fixos dentro da área. Talvez o Brasil precisasse de jogadores com mais mobilidade. Nós temos o Neymar, que é genial, o Ronaldinho Gaúcho. Existem jogadores para fazer duas ou três seleções. A preocupação é com relação ao entrosamento técnico-tático, não com os atletas.

 

– Você comentou sobre o Neymar. Ele é um grande jogador, mas sofre com a marcação dos adversários. E se o Neymar jogasse na sua época, o que teria acontecido com ele?

– Eles já tinham quebrado ele há muito tempo (risos). Naquela época, as condições eram muito ruins. Nem o Maracanã era igual a esse campo que acabei de jogar (aponta para o gramado). Campo, bola, chuteira, calção, era tudo ruim. Hoje o tipo de treinamento é bem é específico, ou seja, o atleta está mais preparado fisicamente. Tudo melhorou, inclusive o dinheiro. Hoje, se o cara joga duas temporadas, já está rico. Tudo favorece os atletas atuais, embora o futebol tenha mudado muito. Hoje exige-se mais velocidade do que técnica. É mais fácil formar o atleta do que o jogador de futebol .

 

– E esse time do Atlético do Cuca. O que dizer sobre ele ?

– Desde o ano passado, eu falo que o Galo é o melhor time do Brasil. Hoje, vendo a Libertadores, afirmo que o Galo é o melhor time da América. O Cuca deu um padrão bem ofensivo para esse time. Eles são agressivos, jogam para frente e agradam até os adversários. A gente vê que o Galo está bem porque os gols são todos trabalhados. É quase uma linha de passe.

 

– Recentemente, você passou sua coroa para o Ronaldinho Gaúcho via Twitter. Como você analisa o futebol dele?

– Ele deu mais qualidade ao time do Atlético. O Ronaldinho se tornou o diferencial no toque de bola e trouxe mais respeito ao Galo. Hoje os adversários sabem que estão jogando contra um campeão mundial. Na Bolívia, os caras não estavam pedindo autógrafo para ele? O Ronaldinho tem sido a grande expressão, o "cara" do Galo.

 

– Você escreveu uma história importante no futebol. Faltou alguma coisa como atleta?

– Claro que, quando você é atleta, quer conquistar tudo. Mas quando a gente para de jogar e faz uma avaliação do ponto em que chegou, é possível ver que conquistamos muito. Só o fato de se tornar profissional já é um grande feito. Ter o reconhecimento de torcedores, profissionais, treinadores, é razão de uma satisfação muito grande. Eu não posso me queixar de nada. Atingi meus objetivos. Fui o maior artilheiro do Brasileiro, joguei com grandes craques, disputei Copa do Mundo e tenho reconhecimento imenso das pessoas. Não dá para abraçar tudo, mas no meu íntimo, guardo ótimas lembranças. Sou muito feliz.

 

– Você sempre se destacou pelo posicionamento dentro de campo, mas também por assumir posições fora dele. Falta esta postura fora de campo aos atletas de hoje?

– Não. A minha participação foi em uma época de ditadura, repressão. E quem tinha uma tribuna como a imprensa tinha que usar. Eu tive acesso a isso, fui oportunista e usei para acelerar esse processo democrático. Hoje não faz sentido esse tipo de ação. Estamos na plenitude da democracia. Acho que só é necessário um sindicalismo mais forte por parte dos atletas.

 

– Você atuou no futebol, na política e na crônica esportiva. Onde é mais difícil jogar?

– Na política, onde tudo é mais emaranhado. O Legislativo é muito fragilizado, acaba que fica na "defensiva", esperando ações do Executivo. Você fica preso. Agora, houve uma evolução do brasileiro com relação à política. O povo está começando a credenciar melhor o parlamentar. O povo deve entender que os políticos só estão lá por causa deles. O parlamento é a cara do povo: tem gente boa e ruim. De qualquer maneira, nós já melhoramos bastante, tivemos algumas decepções, mas mesmo assim vamos melhorar ainda mais. Há 20, 30 anos, o povo era retraído, infeliz, até ignorante mesmo, no sentido de faltar escolaridade. Hoje a maioria das crianças está na escola, o povo está saindo da miséria, tem uma alimentação mais balanceada. As pessoas passaram a ter mais dignidade.