Na orelha da bola
‘Tempo, tempo, mano velho…’
Cada um vê o tempo passar por uma lente diferente. Enxergar as coisas evoluindo pelo para-brisa, e não pelo retrovisor, é uma experiência muito particular. Quando tocamos no assunto, a gente se dá conta que às vezes esquece que o tempo é mais presente e futuro do que pretérito perfeito, imperfeito e por mais que perfeito que seja, ele anda é pra frente, não pra trás. Não adianta sentir saudades de Zico nos shorts agarrados, é melhor curtir Messi nos shorts largos. Não é renegar o passado, mas aproveitar o momento, como diz aquele filme com o Robin Williams – em que ele se veste como homem, não o outro.
Eu vejo o tempo passando todo dia nos dentes que vêm e vão pelas frestas dos sorrisos e dos choros das minhas filhas. Vejo quando revejo a moça de cabelos ora vermelhos, ora roxos, ora laranjas, levando e trazendo sua filha da escola, uma menininha cujo nome eu não sei e provavelmente jamais saberei, mas que a cada nova olhada ocasional está maior e mais bonita, usando roupas menos coloridas e com menos lacinhos e penduricalhos de criança. E vejo toda vez que o locutor na TV diz o o filho do Bebeto, o filho do Romário ou os filhos do Mazinho.
Encaro o tempo toda vez que percebo os fios de cabelo se jogando do alto da minha cabeça, recusando-se a ficarem brancos. Covardes. Suicidas. Preferem a morte ao desbotamento. Abandonando o convés calvo como ratos e marinheiros frouxos. Mas não sou vítima preferencial: fizeram o mesmo com Marcão, o São Marcos, que pendurou as luvas na semana passada e obrigou todos nós, que gostamos de jogar bola, a sair um pouco de lado para dar passagem ao tempo. Ali também eu o vi andando de novo. Não para nunca.









