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Volta às aulas impacta a cadeia produtiva e o trânsito de Juiz de Fora

Semana marca a liberação para o retorno do ensino superior, última etapa da retomada gradual traçada pelo Município


Por Gabriel Silva, sob supervisão da editora Regina Campos

19/10/2021 às 07h00- Atualizada 19/10/2021 às 07h51

As instituições de ensino superior de Juiz de Fora tiveram a volta às aulas presenciais liberadas nessa segunda-feira (18), marcando o último estágio da retomada gradual planejada pela Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (SE/PJF). Após quatro semanas de flexibilizações, alunos de todos os níveis de ensino retornaram às salas de aula, causando impacto no trânsito e na cadeia produtiva do município. O setor imobiliário e as papelarias da cidade, além de bares e restaurantes, mantêm os pés no chão, mas têm expectativa de aumento da demanda na medida em que o cotidiano avance para o retorno à normalidade.

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Trânsito congestionado na região central com a volta das aulas presenciais; 29 linhas de ônibus da cidade foram impactadas (Foto: Fernando Priamo)

A reabertura dos estabelecimentos de ensino começou no último dia 27 de setembro em Juiz de Fora, data em que as escolas infantis voltaram a receber alunos e deram fim a meses de indefinições e brigas jurídicas. Na semana seguinte, foi a vez do retorno do ensino fundamental I e Ensino de Jovens e Adultos (EJA), no dia 4 de outubro. Em 11 de outubro, voltaram o ensino fundamental II e o ensino médio, a última etapa antes do ensino superior.

Para a retomada, a PJF elaborou protocolo com adaptações necessárias para estabelecer a segurança sanitária, como a ocupação de 50% dos espaços escolares e o distanciamento de 90 centímetros entre alunos e profissionais da educação. As instituições de ensino ainda precisam disponibilizar álcool gel nos espaços, e permanece sendo obrigatório o uso de máscaras entre alunos, professores e demais funcionários.
Além do cumprimento das medidas sanitárias, as instituições possuem também um sistema próprio para notificação de casos suspeitos ou confirmados de coronavírus no ambiente escolar. Pelo protocolo, membros da comunidade estudantil podem ficar até 14 dias afastados das escolas em caso de infecção, seja por contaminação identificada em estabelecimentos de ensino ou fora deles. As aulas também podem ser suspensas, como já aconteceu em pelo menos dois colégios e em uma creche do município.

A volta das atividades presenciais tem grande impacto no município, e não é por menos: apenas na educação básica, a Secretaria de Educação estima que haja 105.307 alunos e 7.510 professores. A retomada, entretanto, é opcional por parte dos estudantes e das famílias, e a adesão parcial ainda limita o número de pessoas que estão, de fato, frequentando as escolas. A SE estima em 50% a adesão das famílias, mas, a qualquer momento, elas podem optar pelo retorno presencial às salas de aula.

UFJF retorna no próximo mês

Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição que congrega alunos de diversas partes do país, são cerca de 15 mil estudantes matriculados nos cursos da graduação presencial. Após semanas de reuniões e articulação do Conselho Superior (Consu) da Universidade, a UFJF definiu o retorno de parte dos alunos à estrutura universitária a partir do dia 3 de novembro.

Inicialmente, voltam os estudantes que têm disciplinas práticas, teórico-práticas ou estágios obrigatórios, a depender do que ficou definido pela coordenação do curso. A UFJF estima que 1.200 alunos da graduação retornem às aulas presenciais no dia 3 de novembro. Desse total, são 1.051 graduandos de Juiz de Fora e outros 231 de Governador Valadares. Antes, apenas alunos dos cursos da área da saúde estavam frequentando o campus.

Já o calendário do segundo semestre regular de 2021 da instituição teve o pontapé inicial nesta segunda-feira (18). O período será realizado, para a maioria dos estudantes, no formato de Ensino Remoto Emergencial (ERE), como ocorre desde 2020.

Papelarias esperançosas

Após um longo período de reinvenção, as papelarias juiz-foranas têm na retomada das aulas presenciais a expectativa de retorno das vendas em patamares anteriores à pandemia, ainda que não seja a realidade atual. Assim resume Daniel Braga, proprietário da papelaria MEC. “No cenário que nós estávamos vivendo, qualquer movimento que tivesse já seria positivo. A gente sabia que ia melhorar (as vendas), porque pior não poderia ficar. E realmente melhorou um pouco, mas nada tão significativo quanto a volta às aulas tradicionais”, pondera.

Durante os 18 meses de paralisação das atividades presenciais, Daniel Braga optou por renovar a variedade de mercadorias que a MEC dispõe. Assim, cadernos, canetas e livros passaram a dividir espaço com itens característicos das aulas on-line. “A gente teve que se readaptar, experimentando itens de informática. Os periféricos de informática, como cartuchos, teclado e webcam, foram muito pedidos. Nós entramos muito nessa área também, além de tentar fornecer muito no delivery”, conta Braga.

Passado o período mais agudo da pandemia, a expectativa do setor é para uma melhora gradual. Entretanto, a unanimidade entre os empresários é que o movimento inicial de procura por itens estudantis ainda é tímida. “A grande maioria está aproveitando o material que tem, porque, por ser um retorno em bolhas, as crianças vão ter pouco tempo (em sala de aula)”, explica Regina Fernandes, proprietária da papelaria Artpapel.

Segundo Regina, a loja tem tido maior procura por materiais de uso pessoal, como caderno, lápis e caneta, uma vez que as escolas têm optado por não fazer listas dos itens necessários para o ano letivo. “(Em 2022) a gente espera um movimento maior, mas ainda estamos com um pé atrás. Nós não podemos nos preparar como nos anos anteriores”, afirma a empresária, lembrando que ainda não há indicativo de quais serão os protocolos para as aulas presenciais do próximo ano, o que, de acordo com ela, desperta temor no setor.

Setor imobiliário e bares esperam impacto

No setor imobiliário, a pandemia também foi sentida em grande parte pela interrupção das aulas. O gestor de locação da imobiliária Ribeiro e Arrabal, Júlio Ribeiro, estima que o aluguel de imóveis quarto e sala, predominantemente alugados por estudantes, tenha caído em até 50%. “Quando voltar o presencial, o impacto deve ser muito grande (nas imobiliárias). Hoje, tem muitos imóveis com foco em estudante fechados”, afirma. “Quando voltar efetivamente, sem ser no sistema híbrido, essa demanda vai retornar ao que estava antes da pandemia”, reflete.

Além da demanda gradual da chegada de universitários, que acontece semestre a semestre, outro motivo para o otimismo no setor é a expectativa de que alunos que ingressaram no ensino superior durante as aulas remotas também se estabeleçam em Juiz de Fora, Antes mesmo dessa retomada total, a imobiliária Ribeiro e Arrabal já sente o aquecimento do negócios desde a metade de 2021. “Em 2020, foi mais preocupante. Neste ano, desde junho, as coisas estão andando de maneira relativamente normal”, relata Júlio.

O Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora (SHRBS-JF) também tem expectativa que o setor aproveite a onda da retomada. Segundo o assessor jurídico da entidade, Rogério Barros, a saída das pessoas de casa leva a uma maior demanda, principalmente para os restaurantes. “Para o pessoal de restaurante, principalmente em bairros da Zona Norte e da Zona Sul, é essencial a volta das aulas porque, a partir do retorno, muitas famílias procuram a alimentação fora do lar. A nossa expectativa é que o movimento retorne gradativamente”, projeta.

Linhas de ônibus retornam

O retorno das aulas será acompanhado de uma maior circulação de linhas de ônibus. A partir desta segunda (18), 29 linhas do transporte coletivo urbano de Juiz de Fora foram impactadas, sendo cinco com retorno à operação e as outras 24 com implementação de carros extras ou alteração do quadro de horário.

Os ônibus das linhas 141, 143, 203, 207, 209, 301, 335, 402, 429, 522, 706 e 707 tiveram ajustes no quadro de horário. Já as linhas 125, 136, 304, 432, 436, 439, 440, 521, 525, 527, 549 e 608 tiveram um carro fixo extra adicionado à circulação. Por fim, os ônibus 134, 142, 204, 400 e 734 tiveram o retorno operacional da linha.

Além da alteração no transporte coletivo, a Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU), em contato com a reportagem via assessoria, informou que oito agentes de trânsito da pasta estão empenhados no apoio às escolas, seja para travessia de pedestres em pontos de maior movimentação ou no monitoramento do trânsito. A expectativa é que a circulação de veículos aumente substancialmente.

Protocolos em análise

Apesar da volta às atividades presenciais ter sido sacramentada, o percentual máximo de ocupação das salas de aula ainda é tema de debates. Na última semana, o Governo de Minas confirmou a liberação para que 100% dos espaços sejam utilizados, frente a 50% de ocupação, como era deliberado pelo Estado até então. A PJF, entretanto, reluta em aderir à recomendação.

Na última quarta-feira (13), a Prefeitura realizou reunião para analisar a deliberação estadual. Entretanto, segundo o secretário de Comunicação (Secom), Márcio Guerra, o Executivo não chegou a uma conclusão sobre o tema. “A Prefeitura tem o direito de gestão plena da saúde, de seguir ou ser mais rígida do que determina a secretaria de Estado. Então, estamos estudando com calma tudo isso, porque são decisões importantes que impactam muito seriamente o cenário da saúde”, afirmou Márcio em entrevista à Rádio Transamérica Juiz de Fora na última semana.

Apesar da deliberação para o retorno da totalidade da capacidade das salas, o distanciamento obrigatório de 90 centímetros entre os alunos permanece e é um fator que dificulta a ocupação dos espaços. A depender do tamanho da sala, ficará inviável ter uma maior quantidade de pessoas frequentando o mesmo ambiente e preservando a distância mínima. Entretanto, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) discute flexibilizar também o distanciamento obrigatório.

Pelas redes sociais, o Movimento Escolas Abertas cobra a liberação da capacidade total das salas de aula juiz-foranas. Em carta aberta, o movimento afirma que “retirar a limitação em 50% da capacidade não significa descuidar do distanciamento”, além de argumentar que “a retirada do limite também não significará a ocupação de 100% da capacidade da sala de aula, tendo em vista que muitas famílias (…) ainda estão reticentes para autorizarem o retorno de seus filhos”. O assunto, no entanto, permanece em aberto.