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Com volta às aulas, crianças reforçam o direito de brincar

Após quase dois anos afastados das escolas, voltar apresenta desafios, mas também grande expectativa


Por Mariana Floriano, sob supervisão de Luciane Faquini

12/10/2021 às 07h00

Ser criança é deixar-se encantar com o simples, enxergar o divertido em cada coisa e ter sempre pequenos motivos para sorrir. Mesmo quando o mundo dos adultos para, por conta de um vírus ainda pouco conhecido, e as escolas fecham as portas, fazendo com que os amigos fiquem distantes, ainda assim, criança que é criança não para de brincar. Com o retorno às salas de aula e, consequentemente, ao convívio social, a volta à rotina se torna uma aventura, porém ainda permeada de preocupações.

Assim como cada criança é única, a forma como viveu o isolamento social também foi. Algumas só estão voltando a ter contato com outras crianças recentemente, após a reabertura das escolas. Já outras, cujas famílias não tiveram o privilégio de se isolar em casa, não sentiram tanto esse prejuízo social, mas tiveram, por outro lado, um grande déficit na educação. Com isso, as perdas geradas por esse tempo não podem ser calculadas de forma homogênea.

Para os irmãos Bruno, de nove anos, e Gustavo, de sete, o momento da volta às aulas foi também um tempo de redescoberta. Como conta a mãe dos meninos, a jornalista e escritora Mônica Calderano, a família optou e teve a condição de permanecer isolada em casa no último um ano e sete meses, com o estudo e trabalho realizados de forma remota. “A expectativa para esse retorno é imensa, porque é muito mais que a volta às aulas, é a volta ao convívio social. Esse tempo em que ficamos juntos foi bom, porque nos protegeu, mas por outro lado, com a circunstância desse contato direto, nós estávamos participando de todas as relações sociais das crianças. A volta para escola é também a retomada da própria individualidade dos meninos, a relação deles com o mundo sem passar por mim ou pelo pai.”

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Mônica Calderano e os filhos (Foto: Arquivo pessoal)

Frente à nova realidade da pandemia, o modelo de escola tradicional teve que ser reinventado. Brincadeiras tão típicas da infância, onde o contato físico parecia ser imprescindível, ganharam novos padrões, necessários para que o tempo perdido seja recompensado com segurança. “É muito surpreendente o quanto as crianças, pelo menos as minhas, não se importam com isso, como eu achei que se importariam”, afirma Mônica. “Elas estão tão felizes com a possibilidade de olhar para alguém, sair da tela do computador, conversar com o professor que está ali na frente deles, conversar com um amigo, que não tem problema ter essa distância que a gente acha esquisita, que não tem problema estar usando uma máscara. Tem hora que eu percebo que o estranhamento está mais na gente. É claro que eles gostariam de poder estar correndo pelos corredores, brincar livremente, mas não podem, e estão aceitando isso.”

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Conforme a psicopedagoga Karla Gabriel, as crianças iniciam um momento de reaprender a conviver com o outro (Foto: Arquivo pessoal)

É na escola que, desde pequenos, aprendemos a viver em comunidade. Como afirma a psicopedagoga Karla Gabriel, esse momento de retorno será uma oportunidade de reaprender a conviver com o outro, “com todos os desafios e alegrias que sabemos que existem nessa convivência. Experimentar a convivência fora do lar é arriscar-se a conhecer esse outro. E vamos precisar reaprender isso com um novo protocolo de convivência, zelando pela autoproteção e proteção do próximo.”

Além disso, a saúde mental dos pequenos também é uma preocupação. “É natural que tenhamos ficado impactados emocionalmente e psicologicamente com o isolamento”, explica a psicopedagoga. “Cada ser sentiu de uma maneira diferente. E as crianças, também foram afetadas por tudo isso. Tiveram reações de medo, de adoecer, de morrer, de perder pessoas que amavam. Os pequenos tiveram crises de angústia, de humor, tristeza, irritabilidade e até mesmo alterações do apetite e sono”.

Brincar é preciso

Quando se é criança, ir para escola também é sinônimo de brincar. Com a pandemia, a brincadeira se tornou ainda mais importante para que os pequenos conseguissem criar um mundo à parte, mais divertido, em meio às adversidades observadas pelo país. E agora as atividades lúdicas no ambiente escolar são a grande aposta para estimular a ressocialização.

A coordenadora da educação infantil do Colégio Academia, Rosely de Souza Pinheiro, afirma que a brincadeira é a forma mais complexa que a criança tem de se comunicar consigo e com o mundo. Para ela, nesses primeiros dias de volta às salas de aulas, foi observado que as crianças estavam bem felizes e animadas, contudo, bastante ansiosas pelo reencontro presencial com os professores e colegas.

“Vemos que a ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade, mas principalmente na infância, na qual ela deve ser vivenciada, não apenas como diversão, mas com objetivo de desenvolver as potencialidades da criança, visto que o conhecimento é construído pelas relações interpessoais e trocas recíprocas que se estabelecem durante toda sua formação”, afirma Rosely.

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As atividades lúdicas no ambiente escolar são a grande aposta para estimular a ressocialização. A ludicidade é uma necessidade do ser humano, mas, na infância, ela deve ser vivenciada não apenas como diversão, mas com o objetivo de desenvolver as potencialidades da criança (Foto: Divulgação Colégio Academia)

Síndrome da gaiola

A preocupação com as consequências do isolamento vai muito além daquelas que abrangem as dificuldades para se adaptar. Os casos em que crianças e adolescentes se ajustaram até demais a privação do convívio, podem representar uma dificuldade quando estes, mesmo podendo, não querem sair de casa e se relacionar com outras pessoas. Tal fenômeno é mais frequente do que se imagina e recebeu um nome de síndrome da gaiola, cunhado pelo psiquiatra da infância e adolescência da Associação Brasileira de Psiquiatria, Gabriel Lopes. O termo faz alusão aos pássaros que não deixam o cativeiro, referindo-se aos jovens e crianças que apoiaram-se nas modalidades virtuais e desconsideraram, por completo, os estímulos vindos do contato com o mundo exterior.

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Psicólogo e professor de psicologia da Estácio, Carlos Eduardo Pereira (Foto: Arquivo pessoal)

O psicólogo e professor de psicologia da Estácio, Carlos Eduardo Pereira, afirma que tais casos se relacionam muito com o perfil do indivíduo. “Para muitos, o isolamento acarretado pela pandemia não foi ruim, foi até bom. Para aquelas pessoas que se julgam mais introvertidas, essa diminuição do contato pessoal é benéfica, porque gera uma menor exposição, uma menor ansiedade em relação à interação com outras pessoas ainda desconhecidas.”

Ele ainda explica que isso pode ser preocupante, visto que crianças e adolescentes estão passando por uma fase de desenvolvimento no qual o contato social é de grande importância. “Se pensarmos na segunda infância, onde falamos de uma socialização secundária, em que o indivíduo sai do convívio estritamente familiar, o papel dos amigos e da própria experiência escolar é muito importante. Nesses casos, e também para os adolescentes, a perda desse convívio é muito prejudicial. Para eles, na pandemia, a casa foi o lugar onde se sentiram mais seguros e confortáveis, agora o momento é de fazer um esforço para deixar essa zona de conforto.”

O medo de “sair da gaiola” muita das vezes não é exclusivo das crianças e adolescentes. Por mais que os índices epidemiológicos tenham apresentado uma melhora, o mundo ainda passa por uma pandemia, e os pais ainda têm muito receio de permitir que os filhos voltem para a antiga rotina. Segundo Mônica, escolher pela volta à sala de aula foi também um momento de muita relutância. “Até poucos dias antes de mandá-los para escola, eu ainda estava reticente, porque o problema da pandemia visivelmente ainda não acabou. Nós ficamos preocupados, porque as crianças ainda não estão vacinadas. […] A gente vem acompanhando a situação no município e pesando a nossa circunstância, Com o avanço da vacinação, nós optamos por esse retorno, e espero que tenhamos acertado.”

Mônica ainda afirma que a socialização, que é o caráter mais importante, também é o maior desafio. “Porque depende do outro. A segurança dos meus filhos depende da forma de agir de cada família dos colegas dele, e isso gera a maior angústia. Porque vemos muitos bons exemplos, mas também vemos muitos problemas.”

Direito e essência do ser humano 

O brincar, com toda sua importância, é um direito de cada criança. Em Juiz de Fora, a luta pelo direito de brincar ocorre há mais de dez anos. De acordo com Jacqueline Lopes, pesquisadora da cultura da infância e conselheira da Aliança pela Infância, lutar por uma cidade que seja mais amiga do brincar é lutar também por uma cidade mais pacífica. “O brincar é a essência da criança, do ser humano como um todo. Se a gente brinca, nós abrimos nossa percepção para outros mundos possíveis, as crianças fazem isso quando brincam. O brincar tem um lugar importantíssimo de formação de cultura, de formação de uma melhor sociedade.”

Um dos ativismos por esse direito é certificar que toda cidade tenha uma lei municipal que garanta a Semana do Brincar. Em Juiz de Fora, essa lei existe e está em vigor desde de 2016. Sempre na última semana de maio são realizados uma série de eventos que promovem o brincar. “Durante a pandemia, nossa programação ocorreu por meio de lives, mas em geral são ações que mobilizam toda cidade, com participação de escolas e movimentos sociais”, explica Jacqueline, que também é uma das promotoras do evento.

Durante a pandemia, para Jacqueline, o brincar necessita de uma conversa muito mais ampla, que deve levar em consideração a realidade socioeconômica no qual a criança está inserida. “As crianças nunca vão deixar de brincar, é a essência delas, e mesmo com a pandemia, essa essência não é prejudicada. Em nossas lives, o brincar dentro de casa foi incentivado, nesse momento em que todos precisamos nos isolar. Mas a gente sabe que isso é uma realidade para poucos. […] Nas periferias, as crianças continuam brincando, e até mais. Com as escolas fechadas, elas foram para rua e tiveram mais tempo para brincar. Quando a gente fala de isolamento infantil, a gente pensa em uma criança urbana, de classe média, e nem essas deixaram de brincar.”

Política pública em BH: profissão de brincante 

Uma das cidades pioneiras em tratar o brincar como política pública é Belo Horizonte. Na capital, desde 1997, há pessoas contratadas para brincar com as crianças em espaços públicos. Roque Antônio Soares Júnior, mais conhecido como Mestre Roquinho, é uma dessas pessoas que exerce a profissão de brincante.

De acordo com Mestre Roquinho, ser brincante é ser aquele que, acima de tudo, brinca. “Mas na minha experiência, significa também observar a infância, aprender princípios, e pensar o mundo a partir desses princípios. Pensar na criança como alguém que, para além de ser educada, guarda uma informação importante para construção do mundo que a gente quer.”

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Fotos: Mestre Roquinho

Depois dessa pandemia, segundo Mestre Roquinho, as crianças só vão estar esperando um convite para brincar. “Quando a gente sair desse momento, milhares de crianças continuarão isoladas, continuarão sem acesso ao que é necessário, aos espaços ideais para se desenvolver brincando. A gente precisa escutar as crianças para construir um mundo que as acolha. É necessário ter uma perspectiva que, nesse momento, a mudança não precisa vir delas – as crianças só querem brincar – mas sim partir de nós, adultos, para que construamos um mundo que dê liberdade para a criança ser criança e poder brincar.”