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Na orelha da bola


Por WENDELL GUIDUCCI

29/12/2011 às 07h00

Se eu acreditasse

Se eu acreditasse em pedidos de ano novo, pediria que meu time fosse campeão quantas vezes fosse possível em 2012. É uma alegria passageira, mas qualquer um sabe que uma vida feliz é feita de retalhos de alegria, aqueles bem coloridos, cada um de um tamanho, e que no fim das contas o que conta é enxergar mais retalhos coloridos do que o forro cinza.

Se eu acreditasse em pedidos de ano novo, pediria que meu goleiro não assassinasse nem mandasse assassinar ninguém, que meu zagueiro não fumasse maconha pelo menos até se aposentar, que meu atacante não desse tiro e que meu outro atacante não cheirasse cocaína sendo profissional de futebol. E que meu treinador não ficasse levando grana por fora a cada contratação de jogador.

Se eu acreditasse pelo menos um pouquinho em pedidos de ano novo, eu pediria que atletas de esportes olímpicos não tivessem de trabalhar fora das pistas, das quadras ou das piscinas para se sustentar, e que os vampiros não sugassem todo o sangue dos brasileiros até 2016, fazendo furos com suas presas de britadeira e bate-estaca nas carnes dos estádios, metrôs e aeroportos. E que pudéssemos beber cerveja (que seja Budweiser) nas arquibancadas sem nos matar uns aos outros.

Se eu acreditasse mesmo em pedidos de ano novo, pediria que os torcedores tivessem sossego para ir aos estádios com suas famílias e seus amigos e suas paixões, e que os desocupados se unissem a eles em paz em vez de saírem à noite perseguindo jogadores que gostam de beber caipirinha. E que as caipirinhas, patrimônio nacional, continuassem saindo em tanta profusão quanto os gols.

Se eu acreditasse em pedidos de ano novo, pediria que cada promessa de 16 anos acreditasse menos na bajulação interesseira de seus agentes e de comentaristas esportivos e mais em suas mentes e corpos. E que tivéssemos mais craques e estrelas e precisássemos menos de ídolos e heróis, e que os ídolos e heróis, tornando-se mal inevitável, precisassem menos de assessores de marketing, media trainers, advogados e psiquiatras.

Isso tudo, claro, se eu acreditasse.