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Na orelha da bola


Por WENDELL GUIDUCCI

15/11/2012 às 07h00

Disso eles nunca saberão

A moçada está por aí, espalhada pelas ruas, ginásios e escolas públicas travestidas de dormitórios. Eles vêm de longe, vêm de Araguari, de Campo Belo, de Itaúna, vêm de Igarapé, Bocaiuva, Umburatiba, e de Jacinto, Pompeu, Perdões, Ataleia… Vêm em busca de troféus, de beijos rápidos, de gols, de endereços de e-mail e páginas de Facebook, de cestas de três pontos e flertes estéreis. Nestes dias em que ficarão por aqui, vão conhecer Juiz de Fora.

Alguns vão poder caminhar pela Avenida Rio Branco e estranhar o vento molhado de novembro. Se derem sorte, vão poder parar na esquina com a Independência para comer um daqueles tijolos de farinha, gordura e recheio escalda-língua da incomparável Pastelaria Mexicana.

Ainda pelo Centro, talvez alguém os conte sobre os painéis de Portinari no Edifício Clube Juiz de Fora. Quem sabe, alguns desses rapazes e moças possam conhecer por dentro a arquitetura delirante do Cine-Theatro Central e, no processo, levar consigo o cheiro de amendoim doce que não para de fumegar em frente ao antigo Banco Real.

Mas o que eles nunca saberão é da voz poderosa de um preto velho que sentava o dedo na viola, sem dó nem piedade, nem dos dedos nem das cordas, bem no coração da cidade. A música de Antônio Macário ecoou durante longos anos pelas artérias entupidas do Centro, e na memória de quem a ouviu se cristalizou, com peso de concreto e aço, como um monumento da cultura de Juiz de Fora.