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Na orelha da bola


Por WENDELL GUIDUCCI

19/01/2012 às 07h00

A imprensa espertalizada e o fuxico

Acho um perigo a maneira como a imprensa espertalizada vem conduzindo determinados assuntos nesta época chata e modorrenta do futebol nacional, quando nada acontece dentro de campo. Na ânsia por atualizar os sites e emplacar manchetes de impacto nos jornais e programas de rádio e TV, tem muito coleguinha escorregando no quiabo e viajando na maionese. Uma coisa é abordar as polêmicas. A outra é criá-las para vender notícia.

Já ouviu falar no factoide? É algo assim: um cara inventa uma notícia e planta ela na mídia para chamar (ou desviar) atenção para algum fato ou pessoa. É uma prática muito comum do mau-caratismo nacional em várias esferas, mas a rapaziada das redações costuma ser treinada, geralmente na prática e não nas escolas de jornalismo, para não engolir esses sapos venenosos. Mas, na correria da atualização minuto a minuto, o pessoal anda temperando anfíbio com fio de azeite e degustando como se fosse salmão defumado. Ah, qual é?! Ainda se fosse rã…

Chego ao jornal, entro em um site de esportes e está lá: Agora, joga direito ou vai voltar para o Flamenguinho…, frase atribuída ao atacante Fred, do Fluminense, em conversa telefônica com Thiago Neves. Não vem ao caso se ele falou ou não falou. O que vem ao caso é o risco de trazer isso a público. Porque na vida privada cada um diz o que quer, e eu duvido que o moço da caipirinha ou qualquer outro jogador tenha peito de vir a público e chamar seja lá que time for de inho. O cara já é perseguido pela própria torcida, não vai querer outra em seus calcanhares.

Não é papel de uma imprensa minimamente séria fazer fuxico para vender manchete. É diferente quando, em 1995, Renato Gaúcho alfinetava Túlio Maravilha que alfinetava Romário (que sempre alfinetava Edmundo) para ver quem era o Rei do Rio- e me perdoem se estou misturando Suas Majestades com o Animal. Nos idos de 1995, era uma provocação divertida que conferia charme ao Campeonato Carioca. E independente disso, eram declarações que saíam da boca deles diretos para os microfones.

Fazendo o papelão do leva e traz, do fofoqueiro, de ouvir por trás das portas, essa imprensa que se acha tão esperta incorre no sério risco de transformar uma rivalidade saudável, que casos como o do triângulo amoroso Fluminense-Thiago Neves-Flamengo ajudam a acirrar espontaneamente, em uma disputa odiosa constantemente ameaçada pela violência e a intolerância, já presentes em doses letais no nosso cotidiano. Futebol é paixão. Não precisa de fermento podre para crescer e se perpetuar.