Valor é o menor, mas usuário reclama

Superlotação nos pontos da área central é enfrentada diariamente pelos juiz-foranos
Com preço a R$ 1,95, Juiz de Fora possui a tarifa de transporte coletivo urbano de valor mais baixo em relação a outros 44 municípios, entre capitais e cidades com mais de 500 mil habitantes, segundo levantamento realizado, entre janeiro e abril, pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). A entidade reúne especialistas de órgãos públicos e privados ligados à mobilidade urbana. Mas se de um lado a passagem é considerada uma das mais baixas, por outro, o serviço oferecido no município é tido como "precário" pelos juiz-foranos. A Tribuna foi às ruas em busca da opinião dos usuários (ver quadro) e ouviu relatos de atrasos, descumprimento de horários, superlotação e falta de estrutura nos pontos, entre outros problemas.
"A comparação foi feita apenas com o valor absoluto da tarifa paga pelo usuário, sem considerar descontos, gratuidades ou distâncias que as pessoas percorrem. Para afirmar que uma tarifa é barata ou cara, teríamos que levar em consideração fatores como os custos para operar o sistema e o tipo de serviço ofertado", explica o coordenador da ANTP, Eduardo Vasconcellos.
De acordo com o subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer, em Juiz de Fora o cálculo do valor da passagem de ônibus é baseado na soma de custos fixos, custos variáveis e tributos, que é dividida pela demanda pagante que, atualmente, está em torno de 8,5 milhões de pessoas por mês. Segundo ele, o valor da tarifa permitiu a inclusão de novos usuários no sistema. "Acompanhamos a demanda mensalmente e temos notado um aumento."
Além do valor pago, o especialista em mobilidade urbana e transporte e trânsito José Ricardo Daibert afirma que o usuário deve analisar a frequência e a qualidade do transporte e do atendimento para verificar o nível do serviço que é oferecido na cidade. "O preço absoluto é muito importante, afinal, o salário mínimo é igual para todos os municípios que foram incluídos no levantamento, mas é necessária uma avaliação do serviço prestado." Para ele, o questionamento de alguns usuários sobre a distância percorrida entre bairros da cidade ser menor do que em municípios como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte é equivocado. "Se o trajeto é maior, a possibilidade de renovação dos passageiros (Índice de Passageiros por Quilômetro – IPK) também é maior e, consequentemente, o lucro."
Por meio de sua assessoria, a Astransp manifestou insatisfação com relação ao valor cobrado do juiz-forano. "Apesar da tarifa com valor incompatível, o padrão consegue ser mantido graças a uma série de fatores, como por exemplo, a frota nova que, com vida útil média de 3,2 anos, tem custos de manutenção mais baixos." Sobre as reclamações dos usuários, a entidade declarou que isto vem acontecendo por conta dos impactos das mudanças na estruturação e trânsito da cidade.

Espera por veículo chega a uma hora e meia
Superlotação nos pontos e dentro dos coletivos, atrasos constantes, veículos da mesma linha chegando e saindo juntos dos terminais e espera prolongada, de até uma hora e meia, são as principais reclamações de quem depende do transporte urbano na cidade. A situação ficou ainda mais crítica com as obras viárias da Avenida Rio Branco, que serão estendidas nos próximos meses para a Getúlio Vargas e para a Francisco Bernardino, já que quase todos os coletivos passam pela região central.
Moradores do Bairro Filgueiras, região Nordeste, por exemplo, reclamam dos atrasos na linha 103. "O ônibus que era para passar às 21h53 só tem passado às 22h45. E quando passa, muitas vezes está com luzes apagadas, como se estivesse indo para garagem. Temos que pegar um outro coletivo que passa perto e andar o restante a pé. Há dias que saio do trabalho às 21h20 e só chego em casa às 23h50", reclama uma moradora, que preferiu não ser identificada.
Quem mora na Zona Norte também precisa enfrentar o caos nos pontos e dentro dos coletivos. "Saio do trabalho entre 17h30 e 18h e fico geralmente no ponto uma hora e meia esperando o Santa Cruz. É um sofrimento diário", relata a escriturária Rosimar Andrade, 44 anos. Para chegar às faculdades da Zona Sul os usuários também têm dificuldades. Os alunos da Faculdade Estácio de Sá, no Graminha, chegam a perder aulas por conta dos atrasos nas linhas 211, 239 e 249. Quem estuda no Centro de Ensino Superior (CES), no Bairro Estrela Sul, também tem sofrido. "Em algumas matérias, que são no primeiro horário, estou correndo o risco de ser reprovada por infrequência. Saio do trabalho às 17h, 17h30, e não consigo chegar na faculdade antes das 19h30, 20h. Tem dias que desisto e volto para casa", desabafa a vendedora Cristiana Rodrigues.
Melhorias
A Prefeitura reconhece o esgotamento do atual modelo físico-operacional, mas explica que a solução estaria na reestruturação do sistema como um todo. "Hoje, infelizmente, o problema está na regularidade das viagens, pois o modelo já chegou no seu limite. Precisamos reestudar o sistema para garantir a frequência e melhorar a qualidade do serviço oferecido", observa Carlos Eduardo Meurer.
Para viabilização do estudo é preciso que a concorrência pública, que prevê a contratação de empresa especializada para elaboração do estudo técnico de reestruturação, seja autorizada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). O processo foi suspenso em agosto de 2009, liberado em maio de 2011, mas novamente vetado em setembro passado, sem previsões de nova liberação para a licitação, conforme o TCE.
Se a alternativa definitiva ainda está longe de ser adotada, soluções de curto e médio prazo vêm sendo implementadas, ressalta a PJF. "Com as obras e a liberação de uma grande plataforma no corredor central de ônibus na Avenida Rio Branco temos conseguido cumprir os horários com maior regularização. Com isso, em algumas linhas, conseguimos reduzir as perdas em até 60%. Não podemos simplesmente aumentar a frequência das viagens, colocando mais carros, pois isso impacta o valor da tarifa", explica Meurer.









