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Partidos fisgam puxadores de voto


Por Ricardo Miranda

30/10/2011 às 08h00

Filiar-se a um partido deixou de ser, há algum tempo, um ato do eleitor em decorrência de sua identificação com um determinado programa político. À mercê de interesses de donos de partidos ou içados por anseios pessoais, artistas, atletas e celebridades vêm, a cada eleição, aportando na política em busca do poder até como forma de manutenção do estrelato. Francisco Everardo Oliveira Silva, o humorista Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo com 1.353.820 votos, tornou-se símbolo da estratégia de usar o "pop" para "puxar votos". A prática, cada vez mais comum no processo eleitoral brasileiro, orientou muitas das filiações feitas pelas legendas com representação em Juiz de Fora. Personagens do cotidiano local, como Maria Pereira da Silva, a Maria do Calçadão da Rua Halfeld, e a maior estrela do Tupi na atualidade, o atacante Ademilson Correa, estão filiados e podem disputar as eleições do próximo ano. A principal aposta é que as celebridades consigam votos suficientes para eleger também outros filiados não tão famosos.

Com bancada de dois vereadores – Noraldino Júnior e José Emanuel -, o PSC recebeu o reforço da Maria do Calçadão da Rua Halfeld e de Francisco Rogério Franco, o cantor Roger, que faz dupla com Gean. Também filiou-se ao partido o ex-vereador Oliveira Tresse. O PP passa ter em seus quadros o maestro Ciro José Tabet. A legenda segue com os dois vereadores: Chico Evangelista e Antônio Martins (Tico-Tico). O PDT, coordenado pelo secretário de Administração e Recursos Humanos, Vítor Valverde, conseguiu a adesão da esteticista Alcione Marocolo e do presidente do Movimento Gay de Minas (MGM), Marcos Trajano. Chegaram à sigla ainda os ex-vereadores Maria Luiza Moraes e Barbosa Júnior. Eles vão se juntar ao vice-prefeito Eduardo Freitas e aos vereadores José Fiorilo e Ana Rosgnoli. A ex-jogadora de vôlei, Márcia Fu, ficou no PCdoB. Também da bancada do esporte, o atacante Ademilson ingressou no PRB, mesmo rumo tomado pelo radialista Ricardo Wagner. A legenda hoje tem um representante na Câmara: Carlos Bonifácio.

Ricardo Wagner não é o único recém-filiado ligado aos meios de comunicação. O comunicador Léo Peixoto foi para o recém-fundado Partido da Pátria Livre (PPL). O radialista Léo de Oliveira está no PMN, que conquistou ainda a filiação do ex-prefeito José Eduardo Araújo, outro com passagens por emissoras de rádio. O PMN é coordenado pelo vereador Isauro Calais. A jornalista Cláudia Figueiredo filiou-se ao PT. O partido dos vereadores Flávio Cheker, Roberto Cupolillo (Betão) e Wanderson Castelar levou para seu quadros o ex-vereador Juraci Scheffer e o artista plástico Rogério de Deus. Também do meio artístico e com disposição para entrar na vida pública, a cantora Sandra Portella ingressou no PR. A legenda importou para Juiz de Fora o prefeito de Chácara, Vagner Cândido, que deve concorrer a uma cadeira na Câmara. Ainda na cota dos artistas, deve voltar ao páreo o ator e diretor Gueminho Bernardes, ainda filiado ao PSB.

O PSDB filiou o ex-presidente da Câmara, Fernando Paranhos, e o filho de mesmo nome. As principais apostas do partido, além do vereador José Laerte, são os integrantes do primeiro escalão da Prefeitura Eduardo Schroder, do Procon, Sueli Reis, da Secretaria de Atividades Urbanas. Ainda do ninho tucano, o subsecretário de Saúde, Ivander Mattos, pode vir para a disputa. O vereador Rodrigo Mattos vem sendo tratado como carta fora do baralho. No PMDB, Cosme Nogueira, do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserpu), e o juiz aposentado Márcio Welson Gonçalves de Castro são as filiações com status de celebridades. Formam a atual bancada do partido os vereadores Júlio Gasparette, José Sóter de Figueirôa Neto e Francisco Canalli.

 

Candidaturas podem dividir famílias

O PTB manteve o ex-vereador Vicente de Paula Oliveira, que, caso seja candidato, vai concorrer com o irmão, o também ex-vereador José Geraldo Oliveira. Na legenda ainda figura o pastor Aloízio Penido, que é cotado para compor chapa como vice-prefeito. Também tornou-se trabalhista o ex-vereador Vanderlei Tomaz. Outra disputa doméstica pode acontecer no clã Alberto Bejani. O ex-prefeito foi para o PSL levando consigo sua esposa Vanessa Loçasso Bejani, que deve ser candidata à Câmara. Filiada ao PDT, a ex-vereadora Márcia Regina de Oliveira, que foi casada com Bejani, quer voltar à vida pública. Por fim, a filha mais velha do ex-prefeito, Tatiana Bejani, filiada ao PTC, também pode concorrer a uma cadeira de vereador. O PTC dos vereadores Luiz Carlos Santos e José Tarcísio, filiou também os ex-vereador Aparecido de Jesus (Cidão), Luiz Coelho (Pardal) e Eduardo Novy.

Dos partidos com representantes na Câmara Municipal, o DEM foi o que menos se mexeu. O partido do vereador João do Joaninho filiou apenas três novos nomes em 2011. A legenda vai reforçar sua chapa com Aristóteles Faria, da Agenda JF e filho do ex-vereador Romilton Faria, mas deve optar por fazer uma coligação possivelmente com o PSDB. Coordenado pelo secretário de Estado da Saúde, Antônio Jorge, o PPS filiou o ex-chefe da Defesa Civil, Sérgio Rocha. Foram para legenda também os ex-secretários de Saúde de Juiz de Fora, Cláudio Reis e Eunice Caldas, além da ex-vereadora Rose França. O PV, por sua vez, apostou em candidatos com experiência em eleições, mas sem ninguém que tenha exercido mandato. A sigla quer repetir o sucesso da estratégia usada nas últimas duas eleições pelo PRP, que elegeu três vereadores em 2004, e o PP, que emplacou Chico Evangelista e Antônio Martins (Tico-Tico) em 2008.

 

Proporcionalidade promove efeito inverso

A aposta dos partidos ao filiarem personalidades como o palhaço Tiririca é tentar atrair o voto de protesto. O problema é que, ao despejar votos em determinado candidato como forma de protesto, o eleitor pode estar contribuindo para eleger políticos que são justamente a causa de sua indignação. A avaliação é do cientista político da Universidade Federal de Viçosa, Diogo Tourino, que chama atenção para o efeito da proporcionalidade nas eleições parlamentares. No sistema de eleições proporcionais – para deputado estadual, federal e vereador – não basta o candidato ser o mais votado para se eleger. É preciso que o partido ou a coligação atinjam o coeficiente eleitoral, que é resultado da divisão dos votos válidos pelo total de cadeiras legislativas em disputa (19, no caso de Juiz de Fora). Assim, quanto maior a votação obtida por um partido ou coligação, mais candidatos ele pode eleger. Os votos dados a Tiririca nas eleições de 2010, por exemplo, ajudaram eleger outros quatros deputados.

Dessa forma, segundo Tourino, o partido acaba ganhando força e estruturando-se sem nenhum apego ideológico. "Com muitos eleitos, a legenda começa a pedir espaço no Governo e a colocar seus quadros à frente de empresas estatais, o que muitas vezes propícia escândalos de corrupção." O voto de protesto, na avaliação do cientista político, é comum proliferar junto ao eleitorado mais jovem e desencantado com a política. "Eles votam de sacanagem, sem nenhum outro propósito a não ser protestar." Ele considera, no entanto, prematura dizer que algo nesse sentido possa acontecer em Juiz de Fora nas próximas eleições. "Não sei se isso vai funcionar na disputa pela Câmara de Juiz de Fora. São bem menos cadeiras em disputa e, nesse contexto, o voto passa a ter mais valor." Ainda conforme Tourino, a proximidade do eleitor juiz-forano com candidatos é maior, o que também interfere no peso do voto.

 

Economia

O cientista político chama atenção, entretanto, para o cuidado que se deve ter com as chamadas candidaturas de protesto. "É preciso evitar o discurso elitista, afinal o princípio da democracia é que todos votam e são votados." Especificamente em relação a Tiririca, ele considera que a forma como a candidatura foi colocada, com o bordão "Pior do que tá não fica", trazia o claro apelo ao voto de protesto. Por outro lado, a candidatura do ex-jogador Romário foi colocada de forma séria. Em seu primeiro ano como parlamentar, Romário acabou sendo eleito por uma revista masculina como o homem do ano na política. Para Tourino, a busca por candidaturas de celebridades representa ainda uma economia para os partidos, que não precisam investir recursos e tempo para torná-los conhecidos pelos eleitores.

Confira lista completa de filiados em Juiz de Fora:

PV

PTN

PT do B

PTC

PTB

PT

PSTU

PSDC

PSL

PSOL

PRTB

PSB

PSC

PSDB

PP

PPL

PPS

PRP

PRB

PR

PDT

PHS

PMDB

PMN

PP

PCB

PC do B

DEM