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Disputa acirrada pela Prefeitura


Por RICARDO MIRANDA

01/01/2012 às 07h00

Tratada por Tancredo Neves como "jardim da infância" da política, Juiz de Fora caminha para ser palco de uma eleição de gente grande este ano. A se confirmarem as candidaturas do prefeito Custódio Mattos (PSDB), do deputado federal Júlio Delgado (PSB), do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), da ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Margarida Salomão (PT), e do ex-prefeito Alberto Bejani (PSL) estarão no páreo cinco concorrentes com históricos de votação nada modestos.O prefeito e o ex-prefeito trazem em seus currículos dois mandatos executivos. Já os dois deputados e a petista, para se ter uma ideia, obtiveram juntos 45% dos votos válidos do município na disputa para deputado em 2010. Até mesmo o ex-secretário do Ministério do Esporte, Wadson Ribeiro (PCdoB), que corre por fora, vem com um legado de 20.792 votos obtidos junto ao eleitorado juiz-forano na última eleição. Na avaliação de especialistas ouvidos pela Tribuna, o acirramento característico das disputas locais tende a se agravar caso o cenário sucessório não se decante até o início da campanha.

A esperada polarização entre PSDB e PT, inaugurada no segundo turno das eleições de 2008, é uma possibilidade remota no primeiro turno, analisa o cientista político da UFJF, Raul Magalhães. "Se os postulantes confirmarem suas candidaturas, o eleitor terá alternativas com candidatos e partidos com perfis diferenciados." Para ele, além de Custódio e Margarida, considerados certos no páreo, Bruno também virá para a disputa como parte da estratégia da cúpula nacional do PMDB de ocupar espaços estratégicos. "Diferentemente do PSDB com o PFL (atual DEM), que loteavam espaços para evitar conflitos, o modelo de coabitação do PT com o PMDB é competitivo. Mesmo podendo caminhar juntos no segundo turno, o PMDB quer competir com o PT." Quanto a Júlio, o cientista político não vê, por ora, nenhum motivo para o deputado deixar a disputa. "O próprio Júlio tem dito que vem." A incógnita, segundo ele, ronda apenas a candidatura de Bejani. Sem definição quanto à validade da Lei da Ficha Limpa, o ex-prefeito segue elegível, mesmo tendo renunciado para fugir da cassação em 2008.

A presença de Bejani no páreo pode embolar ainda mais o primeiro turno, mas seu gás para causar estragos nas candidaturas adversárias não é mais o mesmo, avalia Rubem Barboza, professor de ciência política da UFJF. Ele também concorda que dificilmente a eleição vai se resumir a apenas dois concorrentes já no primeiro turno. Da mesma forma, prefere não antecipar nenhum mote para a eleição. "Isso vai depender da percepção do eleitor em relação à cidade." A questão da renovação, segundo o professor, pode retornar como apelo, mas é difícil prever. "O novo surge do inesperado. Isso é de campanha." Mesmo não sendo possível mensurar em que medida, o cientista político da UFJF, Fernando Perlatto, considera o discurso da novidade presente na disputa de 2008 como algo que ainda não se perdeu. "Como quem venceu foi o Custódio (que concorria como ex-prefeito), nada mudou. A necessidade de renovação permanece." Ele não arrisca, no entanto, dizer como o mote será usado. "Não sei se o PT vai usar, por exemplo, a questão da mulher, como tem recomendado seus dirigentes por conta da aprovação da presidente Dilma Rousseff."

Para o também professor de ciência política da UFJF, Marcelo Dulci, há uma cenário em que o novo pode ser o tema predominante. Ele faz um diagnóstico a partir de uma percepção menos científica e mais pessoal de que o eleitorado de Juiz de Fora aparenta um cansaço do mesmo. "Isso pode conduzir o processo em torno do novo. Não acho provável, mas há uma chance devido ao cansaço." Nesse caso, de acordo com o professor, Bruno e Júlio seriam privilegiados. Sua aposta primeira, no entanto, é de uma polarização ao longo do processo em torno de PSDB e PT, como no segundo turno de 2008.

Legado de caciques mantém peso eleitoral

Se o impacto do novo no processo sucessório local ainda é difícil de mensurar, a força do antigo é considerada certa. "As velhas raposas ameaçam sempre", brinca o cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino. Para ele, mesmo com todo apelo ao novo propagandeado desde a última eleição municipal, os três prefeitos da cidade nos últimos 30 anos (Tarcísio Delgado, Alberto Bejani e Custódio Mattos) seguirão com papéis destacáveis na disputa deste ano. "A ausência do (ex-presidente) Itamar Franco aparece como a principal novidade nesse sentido." Ainda assim, pondera, seu legado deve ser vinculado à candidatura do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB). O mais grave, no entanto, na avaliação do professor, é o fato de a eleição poder fazer ressurgir Bejani. "Falam em renovação, mas o processo pode levar ao ressurgimento do velho."

A saída de Itamar do jogo é uma variável a ser considerada, observa o cientista político da UFJF, Paulo Roberto Figueira Leal. "Itamar era um jogador importante. Mas não pode ser considerado decisivo." Ele chama atenção também para os rumos a serem tomados pelo tarcisismo. O comportamento do grupo ligado ao ex-prefeito Tarcísio Delgado (PMDB) foi mencionado por todos especialistas ouvidos pela Tribuna. A situação do cacique peemedebista dividido entre as candidaturas do filho, Júlio Delgado, e do correligionário, Bruno Siqueira, tem aguçado as especulações dos bastidores políticos locais. Para Raul Magalhães, cientista político da UFJF, único a arriscar um prognóstico, o PMDB buscará seu espaço com Bruno, e Tarcísio saberá resolver as questões domésticas.

Além da força do caciquismo local, as eleições deste ano sofrerão impacto também das articulações estaduais e nacionais. Ter a candidatura em Juiz de Fora vinculada à estratégia nacional do partido, segundo Figueira Leal, tem peso maior para PT, PSDB e PMDB. "Se o PSDB tomar Juiz de Fora como uma questão de honra, o cenário muda muito." Isso, na avaliação de Fernando Perlatto, cientista político da UFJF, deve acontecer em função do projeto do senador Aécio Neves (PSDB) de chegar à Presidência da República. Da mesma forma, ele considera provável que o PT invista na cidade como parte da estratégia de conquistar o Governo de Minas.

Outra variável citada pelos especialistas a ser considerada no processo sucessório deste ano é a reeleição, com seus ônus e bônus. Para o professor de ciência política da UFJF, Marcelo Dulci, há uma tendência na política mundial favorável ao candidato a mais um mandato. Ele lembra que, no caso específico do Brasil, é quase regra prefeitos conseguirem emplacar um segundo mandato. Por outro lado, estar no poder implica em desgaste inevitável. No caso de Custódio, segundo Diogo Tourino, promessas pontuais com prazos fixos acabaram levando a um ônus ainda maior.

O cientista político da UFV chama atenção também para o impacto das redes sociais. Se, em 2008, o uso de Twitter e Facebook era tratado apenas como promessa, para este ano é considerado certo. "As redes tem uma capacidade incrível de reverberar escândalos." Mas o efeito mais nocivo das novas tecnologias de informação aos políticos, segundo ele, está no fato de se romper os laços primários. "A opinião que se restringia ao bairro e à família passa a percorrer todo o município." Isso sem contar o farto material arquivado na internet que, mesmo hoje, seis meses antes do início da campanha, já começa a circular.

São Paulo (AE) – As eleições municipais do ano que vem já começam a movimentar os bastidores da política brasileira. Na corrida para as principais prefeituras do país, alguns candidatos sem histórico em uma disputa desse porte estão apostando boa parte de suas fichas nos padrinhos políticos. Um dos casos mais emblemáticos é o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem forte apelo popular e conseguiu emplacar o ministro da Educação, Fernando Haddad, para disputar a prefeitura de São Paulo, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), desbancando nomes tradicionais como a da senadora e ex-prefeita Marta Suplicy. Apesar da força política do ex-presidente Lula, que atualmente está fazendo tratamento para combater um câncer na laringe, mas já prometeu voltar à ativa em breve, inclusive com a promessa de subir nos palanques de seus afilhados políticos, há quem duvide da influência de tais padrinhos sobre o eleitorado nesse tipo de eleição. Em entrevista exclusiva à Agência Estado, o sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, atesta: "O apoio do Lula numa eleição municipal é mito." Segundo Alberto, que também é autor dos livros "A cabeça do brasileiro", "A cabeça do eleitor" e "Erros nas pesquisas eleitorais e de opinião", muitos candidatos apoiados por Lula nas eleições municipais de 2008 perderam o pleito, inclusive a ex-prefeita Marta Suplicy, derrotada pelo atual prefeito Gilberto Kassab (PSD).