Intimidade produtiva
O cinema compartilha de uma relação de intimidade com outros segmentos da arte. Como modalidade que congrega som e imagem em movimento, aproveitou-se da literatura e do teatro, para criar sua dramaturgia, da música, para embalar suas tramas, e das artes visuais, para compor seu espetáculo visual. Uma mostra da Associação de Belas Artes Antônio Parreiras coloca em evidência essa relação com uma programação de filmes que exploram vida e obra dos mestres da pintura. O diálogo entre essas duas modalidades, entretanto, é ainda mais estreito e produtivo. A obra de determinados artistas serve de referência para a criação estética na sétima arte. No sentido oposto, o cinema também serviu de ferramenta para o desenvolvimento das artes contemporâneas, permitindo experimentações e o desenvolvimento da videoarte, um dos segmentos mais discutidos da atualidade.
Amanhã, às 19h, a mostra exibe o longa Caravaggio, cinebiografia do artista italiano, considerado um revolucionário pelo tratamento dramático de luz em suas telas e também por sua condição marginal na sociedade da época. Procuramos filmes que não só contêm a trajetória desses artistas, mas que tenham alguma ligação estética com sua obra, enfatiza o presidente da Associação Antônio Parreiras, Lucas Amaral. Por meio de uma parceria com a Funalfa, o projeto acontece em edições mensais, realizadas no anfiteatro João Carriço.
O projeto Pintores no cinema foi aberto no primeiro semestre com o clássico Sede de viver. Dirigido por Vincent Minelli e com Kirk Douglas no papel de Van Gogh, o filme carrega a tela de cores fortes ao retratar o estilo intenso do holandês. Conforme Amaral, o longa de 1956 impressionou nomes como Carlos e Nívea Bracher e Dnar Rocha. ‘Sede de viver’ influenciou uma geração inteira de pintores em Juiz de Fora, afirma.
A exemplo da cinebiografia de Van Gogh, o apelo emocional da narrativa pode tornar a arte de alguns artistas mais próxima do espectador. Eu não me esqueço de como o filme ‘Frida’ mexeu com o sentimento de muitas mulheres, em relação às questões femininas que abordava, conta o professor do Instituto de Artes e Design, Afonso Rodrigues.
Os filmes Goya in Bordeaux, de Carlos Saura, Pollock, de Ed Harris, e o documentário O mistério de Picasso, de Georges Clouzot, já foram exibidos na programação. Frida, de Julie Taymor, é um dos próximos destaques. O projeto continua até dezembro, com previsão de continuidade em 2012. Com esses longas, queremos aproximar a população, de um modo geral, da pintura, explicita Amaral.
Personagens
sedutores
Diante da oferta de filmes dedicados a grandes personalidades da pintura, Afonso Rodrigues destaca o interesse dessa indústria por personagens que mudaram o modo de pensar da humanidade. O cinema tem uma sedução muito grande por personagens de ruptura, o que enquadra os artistas de modo geral, comenta.
O caráter visual de ambas as categorias também torna a pintura uma candidata natural a inspirar o cinema. Assim, não são raros os casos de autores que buscaram nas artes referências estéticas para seus trabalhos, caso de Ridley Scott, em Os duelistas. Para conceber a produção, o diretor bebeu na fonte da pintura romântica francesa, assim como Stanley Kubrick, em Barry Lyndon.
Outro nome célebre no meio de campo entre as artes e o cinema é o de Peter Greenaway. Considerado um multimídia, o britânico atua em ambas as modalidades, trazendo a estética renascentista e barroca para filmes como O livro de cabeceira.
Em relação às cinebiografias de pintores, Afonso Rodrigues destaca a possibilidade de repercutir a trajetória desses artistas em função de outros aspectos que permearam suas vidas. A biografia é um suporte que consegue estender a obra para a questão social e política. Afinal, a arte é um reflexo da sociedade. É o que acontece em Caravaggio – próxima atração do projeto Pintores no cinema. Nas mãos do diretor Derek Jarman, militante da causa homossexual, a história do artista italiano repercute a questão da marginalização, vivenciada a partir do círculo de convivência do pintor.
Do outro lado da câmera
Nos anos 1920, a sétima arte despertou a atenção de uma nova geração de artistas dispostos a tentar novas formas de expressão. Encontraram um campo instigante na técnica cinematográfica, capaz de colocar a imagem em movimento. Esses artistas se apropriaram dessa linguagem para fazer certas experiências com a imagem, explica o diretor do IAD, Ricardo Cristofaro.
O precursor dessa mistura foi o norte-americano Man Ray, que em 1923 criou o filme O retorno da razão, usando as ideias de projeção e movimento para trabalhar a plasticidade da imagem. Sua obra abriu caminho para outros vanguardistas, como Marcel Duchamp, que em 1926 produziu Anémic. Na década de 1960, a estética cinematográfica foi importante na concepção artística da pop art, que teve Andy Warhol como um de seus principais ícones.
Conforme Cristofaro, empreitadas como essas possibilitaram o desenvolvimento da videoarte na década de 1970, uma das modalidades mais pesquisadas no meio acadêmico atual. Muitos contemporâneos vêm dessa trilha. São formas emprestadas do cinema. Podemos pensar em uma espécie de hibridismo, pondera Cristofaro, citando o exemplo de Mattew Barney, artista norte-americano que se classifica como escultor, mas foca seu trabalho na imagem cinematográfica.









