‘Vivendo e tocando’

Compositor lança álbum independente, Sei, na internet, com preço atualizado por semana
"Sabe, quando a gente tem vontade de encontrar/a novidade de uma pessoa." Os primeiros versos da canção "Sei" parecem anunciar o que o trabalho homônimo de Nando Reis representa: novas experiências. O lançamento do álbum, o primeiro 100% independente do artista, teve sete das 15 músicas lançadas na internet, uma por dia, em uma semana de "teasers" para o disco completo, cujas vendas também são feitas exclusivamente on-line.
Em seu grito de independência das grandes gravadoras, o cantor também dividiu a liberdade com os fãs, já que é o público quem define quanto o CD vai custar, com preço atualizado por semana, de forma colaborativa e com base na média de opiniões. E ninguém precisa comprar gato por lebre: antes de opinar, qualquer internauta pode ouvir "Sei" na íntegra no site do músico (http://nandoreis.uol.com.br). "Minha maior preocupação é viabilizar o álbum, e isso tem um custo, essa forma foi interessante porque também permite que eu veja as ideias das pessoas sobre o disco", conta o artista em entrevista à Tribuna por telefone. Apesar de tantas conexões com a grande rede neste último trabalho, Nando confessa que a internet não faz parte de seu cotidiano pessoal. "Reconheço que é uma grande ferramenta, mas tenho pouco interesse."
No front musical, em "Sei", Nando passeia com segurança pelo caminho que trilhou ao longo de seus quase 20 anos de carreira solo: belas canções que, invariavelmente, elevam o tradicional "eu te amo" a arrebatadoras – ainda que simples – variações poéticas, como a faixa-título "Coração vago" e "Pra quem não vem", que tem uma pegada mais roqueira e a doce participação de Marisa Monte. "Esse CD foi uma reunião de muitas coisas que já vinha fazendo nos shows há bastante tempo."
Entre relatos íntimos e viscerais diversos do cantor e a universalidade de referências ao cancioneiro da MPB – que vão de Dalva de Oliveira a Mamonas Assassinas -, "Sei" também tem o peso esperado da produção de Jack Endino, que trabalhou com praticamente todos os grandes nomes do grunge, como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney, e assinou o furioso "Titanomaquia", de 1993.
Compondo "com papel, caneta, voz e violão", Nando volta a Juiz de Fora com sua banda, Os Infernais, trazendo as novas criações na bagagem, sem esquecer grandes hits como "All Star", "Por onde andei", "Relicário" e tantos outros. "Tocar é sempre uma delícia, e aí o juízo fica de fora", brinca. Sobre futuro, o hoje avô Nando Reis, que acumula 30 anos de música, responde com a descomplicação que lhe é peculiar, sem por isso perder a também costumeira poesia: "Quero é seguir vivendo e tocando."
Tribuna – "Sei" é seu primeiro álbum independente depois de anos com grandes. O que muda com isso, em termos artísticos e comerciais?
Nando Reis – Do lado artístico, quase nada. Sempre fiz o que quis, seja na seleção do repertório, dos músicos, enfim, do disco como um todo. Apesar disso, de certa maneira, o fato de ter trabalhado de forma independente, permitiu coisas que não sei se seriam possíveis via gravadora . "Sei" foi todo gravado em Seattle, e não sei se isso caberia no orçamento, e nunca saberei porque já foi feito! (risos) Mas muda muito na relação comercial. Dificilmente uma grande empresa toparia distribuir o disco como estou fazendo, sem iTunes, sem downloads, com a venda feita pelo site e a um preço que o público define depois de ouvir o CD, de acordo com a média de sugestões de valor que muda semanalmente. Uma gravadora considera cálculos e margens de lucro industriais, vende um produto. Eu faço música. Vejo que a mídia física é obsoleta, então acho burro e empobrecedor investir em um preço tão alto nisso por razões meramente comerciais. Optei em disponibilizar a venda pela internet para quem faz questão do disco em si e estabelecer essa relação de proximidade, saber as ideias das pessoas sobre ele, quem está comprando, e a internet permite esse acompanhamento.
– O novo disco veio após um período de turnê com o "Bailão do Ruivão", que não tinha composições suas. Como foi o processo de criação?
– Muito parecido com todos. Componho com papel, caneta, violão e voz. Levo o resultado para o estúdio, mostro para Os Infernais e fazemos os arranjos juntos. Gosto de gravar o CD em sequência, sem espaçamento de dias entre as músicas. O que mudou muito foi uma qualidade superior, tem a ver com a produção do Jack Endino, excelente produtor de rock’n’roll, que respeita minha criação coletiva com a banda e trabalha em cima disso. Meu disco ficou o que eu gostaria de colocar na vitrola para ouvir. Quanto à composição, não funciona como um trabalho comum, há momentos de grande inspiração e outros em que componho muito pouco, como em 2010, período que achei oportuno para fazer o "Bailão", com músicas que sempre me diverti tocando e já faziam parte dos "bis" dos meus shows.
– As letras de "Sei" transitam entre a universalidade de diversas referências musicais e o intimismo de suas memórias pessoais. Você pensou nisso ao escrevê-las?
– Não foi nada concebido. Quando fui gravar, percebi que tinha algo que amarrava as músicas, embora não fosse um traço conceitual, um plano. Depois que vi o disco pronto, percebi que havia uma contextualização de elementos da minha relação com a música, dispersos em vários trabalhos anteriores. Todo o disco é reflexo de algo que estou vivendo, mostra o pensamento do artista no mundo em que vive. Então essa dualidade é natural do meu trabalho, do meu estar no mundo desde sempre.
– Em "Eu & a Bispa", pode-se dizer que há um vestígio do Nando das letras verborrágicas e críticas dos Titãs?
– Sim, claro! De certa maneira, eu sou o mesmo daquela época. Muito do que vivi, do que pensava continua existindo. Cheguei a tocar ‘A Bispa’ em um show do lado de uma Igreja Universal, uma aproximação muito nítida do que eu fazia 30 anos atrás com os Titãs.
– Com 30 anos de música, como é ver o passar do tempo do alto dos palcos?
– É um bom ponto de observação do que é a vida. Continuo fazendo o que fazia desde o início. Como no passado, tenho uma banda que adoro e permite que eu trabalhe fazendo o que amo. Nada mudou, e tudo mudou. Hoje enfrento um trânsito horroroso para chegar aos lugares e tenho filhos, netos. As pessoas escutam minhas músicas, as mesmas e as novas, em aparelhos que eram impensáveis no início da minha carreira. Há coisas boas e ruins de ver o tempo passando, mas o que quero é seguir vivendo e tocando. Me sinto jovem, animado e interessado pela vida, fazendo melhor do que fazia 30 anos atrás.
NANDO REIS
Amanhã, às 23h
Viva Hall
Avenida Deusdedit Salgado 2.400









