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Vestido de pele


Por RENATA DELAGE

04/08/2013 às 07h00

Se fosse poeta, certamente escreveria. Se fosse pintor, lançaria tons fortes em uma tela. Marcelo Braga é bailarino, decidiu dançar. Dançar para compartilhar com o público um drama pessoal com o qual conviveu nos últimos anos – e ainda convive. Em O homem vermelho, espetáculo apresentado hoje, no Pró-Música, Braga se despe de vaidades e explora as histórias que um corpo carrega e suas infinitas possibilidades de comunicação. A montagem, que teve sua estreia há exato um ano, rendeu ao artista temporada de sucesso de público e crítica, sendo indicado pelo jornal O Globo como um dos dez melhores espetáculos de dança de 2012 e vencedor do Prêmio Klauss Vianna, também no último ano.

Conversar com o bailarino é como reencontrar um amigo. Não há receio de falar da dor, da pele avermelhada, dos medos. Natural de Guarani, radicado hoje no Rio de Janeiro, Braga foi diagnosticado com um raro câncer de pele há quatro anos. A imobilidade é algo muito triste para um dançarino, constata. Quando você passa por um processo doloroso, geralmente se resguarda, suas vaidades ficam fragilizadas, e você se fecha. Fiz o oposto. A partir do momento em que sobrevivi a essa doença invisível, decidi me abrir e dividir essa história com a plateia.

Retornar a Juiz de Fora, onde morou por anos e descobriu seu amor pela dança, é especial. A mãe, a família, as antigas alunas e colegas de trabalho assistirão à performance pela primeira vez. Para o reencontro, Braga pensava querer um corpo mais definido e explosivo, unhas e cabelos mais viçosos. Enganou-se. Não me interessa mais o corpo eficiente, interessa o corpo vivido, com suas marcas, fragilidades e potências.

Nos últimos anos, Marcelo Braga apenas observou o mundo. A casa, os corredores e as salas de tratamento viraram cenário de reflexões. Após o exílio pessoal, o percurso narrativo de sua criação foi tomando forma. Quando entrei novamente em uma sala de aula, vi que meu corpo era cheio das memórias do bailarino que eu era. Mas eu não me movia mais como antes. Precisava entender como meu corpo, agora aos 52 anos, poderia estar em cena, atravessado pela debilidade, mas também por sua capacidade de recuperação, conta. Como viu que seria difícil começar pelos movimentos, optou pela palavra. Escreveu um texto, de uma só vez.

Pequenos movimentos foram impregnando, aos poucos, a fala. Ao longo dos sete meses de trabalho, o corpo foi se refazendo, retomando algumas potências. Foi como se jogasse uma pedrinha na água, que acabou reverberando. Palavra que se transforma em imagem, música, dança, uma complementando a outra, como em um jogo da memória. De forma orgânica, as facetas se reconhecem, e, quando vi, o trabalho estava ali. A montagem conta com a colaboração dramatúrgica da atriz Simone Spoladore, o olhar sensível em imagens do cineasta Walter Carvalho, trilha sonora do músico Domenico Lancellotti e assistência de direção da bailarina Laura Samy.

Reconhecer-se no outro

Embora tenha 43 anos de carreira como intérprete, tendo atuado com destaque durante 22 anos nas coreografias de João Saldanha, Braga se vê surpreso com a imediata aceitação de seu primeiro trabalho autoral. Feliz, mas bastante surpreso. Nunca achei que tinha assunto para um trabalho meu. Um amigo me disse uma coisa muito real. Todo mundo só quer apreciar um corpo saudável. A partir do momento em que me exponho, trabalho com uma matéria-prima difícil, que é a dor, ainda que o faça com delicadeza, avalia.

Um dos grandes medos de Braga foi superado pela recepção positiva de sua criação. A peça transpõe para a plateia a intensidade da dor da reclusão, mas sem cair na armadilha da vitimização, com otimismo e até bom humor. Tinha medo de cair nesse estereótipo do corpo doente. Revisitando as lembranças, sobretudo da infância, o bailarino criou jogos, estratégias para que o tempo passasse durante as longas horas de tratamento. Encontrei momentos muito bons, que fazem com que todo mundo se reconheça nesse jogo. A cumplicidade chega a tal ponto que às vezes não sei quando estou falando de mim ou do outro. Ao conversar com pessoas da audiência ao final das apresentações, o dançarino vê tais medos se dissiparem. Eles se emocionam, me abraçam, mas dizem ‘eu não tenho pena de você’, o que me deixa realmente feliz.

Para Braga, é imprescindível se reconhecer no outro. Quero que estejamos no mesmo lugar. O bailarino não é um deus. Ele e a plateia têm o mesmo grau de importância. No início da performance, as luzes ficam baixas, numa penumbra proposital para que o artista possa olhar nos olhos dos espectadores. Muito além do que é feio ou bonito, a arte tem que abrir portas para fazer pensar.

Em um mundo de pretos e brancos, não é fácil ser vermelho, brinca. O ‘homem vermelho’ sou eu, e isso não é uma licença poética. A vermelhidão típica da doença é algo com que Braga se viu obrigado a conviver. As pessoas podem ser muito cruéis, ao te apontar. Em um país tropical, eu poderia muito bem estar só muito bronzeado, brinca. Esse homem vermelho está escrito na minha pele, não é fictício, e não tenho o mínimo problema com relação a isso, compartilha.

Ciente das incertezas quanto à cura da doença, o bailarino optou por ter qualidade de vida. Passei anos sendo um ‘rato de laboratório’. Os médicos, em sua vaidade de não admitir que não sabem o que fazer, acabam falando muito pouco a você. Decidi ficar só com a alopatia, me sinto melhor agora. Um dia estou muito bem, no outro, nem tanto. Nada que o impeça de projetar novos trabalhos, como o Palco giratório, que levará o espetáculo a 40 cidades do país, e a homenagem ao centenário do balé A sagração da primavera, de Igor Stravinsky, ambos projetos do Sesc. O personagem Romeu, da célebre obra de Shakespeare, também servirá de inspiração ao novo espetáculo assinado por Braga, previsto para estrear em setembro de 2014. É uma figura muito emblemática na minha vida, a partir da qual revisito muitas questões, como relações profissionais, atritos familiares, sexualidade.

Fiz trabalhos alimentados por ensaios diários. Sempre foi assim. Mas para esse trabalho senti dificuldade em me apoiar na lapidação pela repetição. Estar sozinho no palco demonstrou ser, dessa vez, algo oportuno. Por ser um solo, tenho a liberdade de estar mais intenso, mais lento, experimentar novos lugares e ter sempre esse frescor de ineditismo. Uma performance nunca é igual a outra. Meu corpo é mutável. Se hoje estou assim, é assim que eu vou dançar. Percebi que faz parte do assunto que venho trabalhando, diz. Concordar com uma jornalista em uma entrevista para um jornal de São Paulo foi fundamental para compreender tais limitações. Sim, não se ensaia a vida.

O HOMEM VERMELHO

Domingo, às 20h

Teatro Pró-Música

(Av. Rio Branco 2.329)

3217-9177 / 3216-4787