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‘Mártir’ de sua história


Por BRUNO CALIXTO

04/11/2011 às 08h00

Muitas são as ideias para se fazer um filme. No caso da jornalista Daniela Broitman, contar a história do músico Marcelo Yuka e sua luta para voltar a caminhar foi mais forte que homenagear o homem, artista e ativista. Ele estava nos EUA buscando um tratamento. Eu queria retratar este processo, dispara Daniela, diretora do documentário Marcelo Yuka no caminho das setas, vencedor do prêmio de melhor montagem no Festival do Rio (para Jordana Berg). Nunca espero premiação, faço cinema pensando no que acredito, comenta a diretora, sobre os oito meses em que ficou enfurnada numa ilha de edição no Rio, decupando cerca de 120 horas de gravação e mais 20 de arquivo. As imagens vêm, segundo ela, sendo reunidas desde 2004.

Assim como foi difícil para Yuka se deixar retratar, foi difícil não enveredar pelo caminho da vitimização e transformação em mártir pela mídia. Tampouco deve ter sido fácil se ver na tela. Não quero me transformar em um grande comercial de Coca-Cola, disse o músico, após a exibição do filme na Mostra de São Paulo há uma semana.

Daniela Broitman afirma que a importância desse trabalho está no fato de seu roteiro tratar ainda de temas universais, como violência, células-tronco e desigualdade social. Não pretendi me limitar à questão da violência, mas reverter a temática, como Yuka fez em sua vida. O filme começa com a violência, mas termina com a paz, acrescenta Daniela, informando sobre sua relação com o músico. Já éramos amigos, mas, obviamente, nos conhecemos melhor ao longo das horas e horas juntos, principalmente por escolher um trabalho feito a partir de afinidades ideológicas. Na época em que comecei a desenhar o projeto, em 2006, fazia documentários sobre líderes comunitários e a participação deles em fórum mundial, pois sempre estive envolvida com as questões das favelas cariocas. Como a obra de Marcelo.

Iniciado com recursos próprios da diretora, Marcelo Yuka no caminho das setas proporcionou à Daniela, em 2007, conquistar a bolsa John Simon Guggenheim Memorial Foundation, com a qual pode aprofundar a pesquisa de imagens e temas abordados no filme. No final de 2010, o projeto foi um dos vencedores do Programa cultural Petrobras e, em seguida, um dos quatro longas-metragens selecionados no edital da Filme Rio – Rio Film Commission.

Mas acho que a troca com Jordana (Berg) foi um alicerce para o sucesso do filme, nós duas somos muito críticas e questionadoras. Essa foi a primeira vez em que trabalhamos juntas, e eu a escolhi sem fazer ideia do que aconteceria, ressalta Daniela, adiantando que um próximo trabalho sobre o assunto pode vir à tona. Tenho um corte no filme, um debate sobre desarmamento, que me deixou chateada por ter ficado de fora. Penso em ter uma cópia com esta sequência, mais dedicada a ONGs e entidades do terceiro setor.