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Entrelinhas de Tiradentes


Por JÚLIA PESSÔA

07/08/2013 às 07h00

Com seus ares típicos de cidade histórica mineira, com as tradicionais igrejas barrocas e ruas de pedra, a charmosa Tiradentes é sempre um destino para onde se quer voltar. Conhecendo os pontos turísticos mais famosos – como a Matriz de Santo Antônio e o Chafariz de São José – ou apenas contemplando a paisagem histórica ao degustar boa comida e bebida no Largo das Forras, onde tudo acontece, a impressão é de que há sempre algo a mais a se fazer, estando na primeira ou na enésima visita.

Um dos programas que atesta isso é o roteiro "Becos e bosques", da agência Viva Minas, que encanta turistas calouros e veteranos. Fazendo um caminho alternativo pelo centro de Tiradentes, utilizando becos e bosques, como o nome sugere, o passeio revela diversas curiosidades históricas que mesmo o viajante mais aplicado pode não saber. "A cidade é toda interligada por becos, porque os escravos eram proibidos de circular pelas ruas por onde passavam os homens ‘de bem’, os brancos", explica o guia Fabrício Rodrigues, um dos sócios da Viva Mais.

Durante o trajeto, as relações históricas entre os pontos turísticos fica mais evidente. O que une os bosques próximos à região central, o Largo das Forras e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário? "O ouro em Tiradentes não precisava ser escavado, ele era retirado com facilidade nos barrancos destes bosques. Muitas vezes, os escravos escondiam pepitas nos cabelos ou nos animais para comprar sua alforria no local onde hoje é o Largo das Forras ou para construir suas igrejas. Por isso, o único homem branco com acesso a elas era o padre, para que o roubo não fosse descoberto", conta Fabrício.

Desconhecido até pelos visitantes mais assíduos de Tiradentes, o Bosque da Mãe D’água possui uma nascente homônima que abastece o Chafariz de São José por meio de um antigo aqueduto de pedra. Vale provar da água cristalina direto da fonte e contemplar um trecho remanescente de Mata Atlântica sob os pés da Serra de São José, visual ideal para os admiradores da natureza em um passeio que não requer esforço físico. Em um dos pontos finais do trajeto, o Alto São Francisco, também pouco vendido como atração da cidade, tem-se uma visão panorâmica privilegiada de Tiradentes, local ideal para fotografias.

 

Passeio de dar água na boca

O roteiro "Becos e bosques" é encerrado com a visita ao Doce de Leite do Bolota, uma doceria artesanal instalada nos fundos da casa onde o cozinheiro começou o negócio, hoje tocado por sua mulher e filhas. Diabético e aficionado por doces, Bolota inventou, em 1976, uma receita que leva apenas 200g de açúcar para 15 litros de leite, resultando em um sabor que se assemelha ao doce de leite feito com leite condensado, mas com muito mais consistência e leveza. "Nós ajudamos, mas o ponto certo do cozimento quem dá é só a mamãe", contam as irmãs Karine e Tânia Oliveira. Dona Célia, a mãe, também dá o ponto da geleia de pimenta e variados doces de frutas, hoje entregues para o Brasil inteiro.

Como o passeio turístico dura cerca de duas horas e sai diariamente às 9h, 11h e 14h, a boa pedida para depois é um almoço (ainda que tardio) ou happy hour. Na primeira opção, o Restaurante Padre Toledo é ideal para quem procura tradição mineira, refletida não apenas na gastronomia, mas no ambiente com belos móveis de madeira. A cachaça da casa, "Padre Toledo", vai bem com o famoso filé à parmegiana, ainda mais se acompanhada das boas histórias do garçom Pelé, há 43 anos no restaurante.

Ainda na trilha das mineirices, a Estalagem do Sabor, estrelada pelo Guia Quatro Rodas há anos consecutivos (2013 inclusive), tem como carro-chefe os tradicionais mexidões, com destaque para o "Mané sem jaleco", que leva arroz, feijão, couve, bacon, ovos, cebola, lombo levemente defumado e banana-maçã.

Festival de gastronomia

Já para o happy hour, o Templário, bem no burburinho do Largo das Forras, é tiro certo. Com música ao vivo de qualidade, transitando sempre entre a MPB, o samba e algumas pegadas jazzísticas, o bar e restaurante possui variada carta de vinhos e cervejas especiais. A cozinha oferece desde petiscos tradicionais a pratos requintados, como o "Magret à brasileira", pato defumado ao molho de laranja com purê de cheiro-verde e aspargos frescos salteados em azeite marinado, aposta da casa para o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes, realizado entre 23 de agosto e 1º de setembro. O evento, que já recebeu mais de 600 chefs do mundo inteiro desde 1998, reunirá 14 nesta edição, sendo nove brasileiros e cinco internacionais. A programação completa pode ser conferida no site.