A falta que Dnar faz
Pureza, gentileza, compromisso. São esses os adjetivos mais recorrentes utilizados para se resgatar a figura de Dnar Rocha. Cinco anos depois da morte do pintor, completados na próxima quinta, a memória do artista permanece como símbolo de talento, sensibilidade e um envolvimento com a arte cada vez mais raro, que exige entrega e recusa modismos. A Tribuna ouviu amigos do pintor e críticos de arte para entender a lacuna deixada por Dnar no cenário juiz-forano.
Viúva de Dnar Rocha, Aída Célia de Andrade, planeja para 2012 uma exposição comemorativa aos 80 anos de nascimento de Dnar. Segundo ela, a ideia é reunir telas que pertencem a colecionadores de Juiz de Fora, a começar por seu acervo, com mais de 40 obras. "Os quadros dele continuam a ser vendidos muito rapidamente. O interesse ainda é muito forte."
Espalhadas pelas paredes de seu apartamento, as telas do marido dialogam com as memórias da relação amorosa do casal. Entre paisagens e naturezas-mortas, Aída destaca uma tela com versos na grafia de Dnar. O poema foi uma surpresa para a esposa, dentre as muitas gentilezas que costumavam trocar habitualmente. Inicialmente escrito com carvão em uma tela branca, o presente passou anos na parede, até que a esposa pediu para que as palavras fossem cobertas com tinta para evitar o risco de desaparecer. O artista não só reforçou as letras em preto como cobriu o restante do quadro com cores.
Aída elogia duas iniciativas que ajudaram a perpetuar o legado do artista após sua morte: o livro "Dnar, o silêncio das imagens", organizado por José Alberto Pinho Neves, e o documentário "Dnar Rocha – Pelos caminhos da arte", de Éveli Xavier. Segundo a viúva do pintor, apesar de não ter chegado a ver esses projetos concluídos, Dnar tomou conhecimento de ambos, o que resultou em grande satisfação. "Ele estava muito feliz. A Éveli chegou a passar uma prévia do documentário para o Dnar, e constantemente ele era chamado pela universidade para acompanhar a produção do livro", relata a esposa do artista.
O pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, ressalta que "Dnar, o silêncio das imagens" tenta destacar o compromisso ético do pintor com sua arte. "Ele fez parte de um tipo de artista que é responsável por aquilo que está produzindo. A arte, para ele, não era uma aventura", comenta. Pinho Neves situa Dnar entre outros remanescentes da Sociedade de Artes Antônio Parreiras, como Nívea Bracher. Essa geração delimitou seu espaço geográfico, pintando os morros que circundam a cidade e elevando o termo "provinciano" a um status positivo.
"Tirando os meus irmãos, entre todos os artistas da Antônio Parreiras, Dnar foi meu melhor amigo. Era com quem eu mais me identificava, não só em relação à pintura, mas como ser humano", declara o artista plástico Carlos Bracher, que estabeleceu uma relação de profunda amizade com Dnar. "Era um artista extremamente sensível e intuitivo. Isso é a base de tudo", avalia.
Eliardo França endossa as palavras de Bracher ao destacar a pureza que caracterizava as obras de Dnar. Segundo o artista plástico, tal característica era decorrente da personalidade do pintor, conhecido por sua gentileza e humildade. "Dnar era um homem bom, e sua arte refletia isso", sintetiza.
Nascido em Tabuleiro, em julho de 1932, Dnar Rocha exerceu diferentes ofícios antes de se tornar pintor profissional. Começou a exercitar seu talento ainda nesses tempos, fazendo retratos e desenhos da paisagem rural. O conhecimento técnico veio com o ingresso na Sociedade Antônio Parreiras, na década de 1950, onde conviveu com os Bracher, Renato Stehling, Roberto Gil, Heitor Alencar, Sílvio Aragão, Ruy Merheb e Wandyr Ramos.
Sua obra, a partir desse aprendizado, adquiriu personalidade bem definida, que pode ser identificada pelas pinceladas vigorosas e pela utilização particular das cores. "O Dnar resolveu muito bem essa segunda fase. A trilha dele tem a ver com a do Stehling. Eram dois ramos muito pessoais, mas identificados entre si. Passou por um alumbramento rural, expressionista e "fauve" ao mesmo tempo", avalia Carlos Bracher.
Diretora do documentário "Dnar Rocha – Pelos caminhos da arte", Éveli Xavier teve a oportunidade de conviver com o artista em seus últimos meses de vida. "A força que a vocação artística exercia sobre aquele homem era algo que impressionava toda a equipe, uma espécie de marca registrada que alcançava sua obra", comenta a diretora. A cineasta destaca a simplicidade do artista, que se revelou diante das lentes não só com palavras, mas também através do olhar. "O convívio com Dnar fez diferença na vida de nós todos."









