Reflexões sobre Proust e Juiz de Fora dos anos 40


Por Marisa Loures

30/09/2012 às 07h00

Na terça-feira, 19h45, Rachel Jardim aguarda a hora do jantar, quando o telefone toca. "Eu agradeço a paciência de me ouvir, sou uma velhinha de 86 anos, tenho muita preguiça de falar, mas adorei conversar com você", disse a escritora, em entrevista à Tribuna, evidenciando a delicadeza, tantas vezes revelada em suas memórias. "À medida que vou ficando mais velha, o sentimento de compaixão com o mundo e com as pessoas vai ficando cada vez maior e, de uma certa maneira, intoleráveis. Eu procuro escrever com uma transparência, uma simplicidade sofisticada, que nem sempre todo mundo entende."

Na última sexta, a autora de "Os anos 40 – a ficção e o real de uma época" retornou, ao lado de Lúcia Bettencourt, a sua cidade natal, para fazer o lançamento de "Erratas pensantes" – obra publicada pelo selo Mamm e que é resultado das palestras "Erratas pensantes – os eus sucessivos em Machado e Proust" e "Eu é um outro: versões ou erratas", proferidas pelas escritoras, no Museu de Arte Murilo Mendes, em outubro de 2010. "Tanto Machado quanto Proust têm um sentimento trágico da vida acompanhado de um senso de humor. Eles não perdem essa coisa de rir deles mesmos e do mundo", reflete Rachel.

No mesmo dia, a juiz-forana fez o relançamento de "Num reino à beira do rio" – livro que teve sua primeira edição esgotada e que conta com estudo crítico de Alexei Bueno e apresentação do pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves. "Fonte inesperada de descobertas e ilações de expertos, ‘Num reino à beira do rio’ redunda em matéria de alumbramento e sonho, e o caderno-diário de Maria Luiza se transfigura em essencial fonte de reminiscências", escreve Pinho Neves na publicação. Na ocasião, a escritora fez a doação oficial do álbum de poesias da mãe, Maria Luiza, ao Mamm. O manuscrito, que contém 37 poemas copiados por Murilo Mendes de outros 27 autores, serviram de base para a criação de "Num reino à beira do rio."

Tribuna – Numa entrevista que concedeu em 2006, a senhora comentou que é pouco indulgente consigo mesma e com os outros e que alguns de seus textos são cruéis, sendo até considerados por Caio Fernando Abreu como contos de horror. De que maneira as memórias de sua cidade natal influenciaram esta dureza em suas obras?

Rachel Jardim – A minha cidade natal não influenciou em nada nessa dureza. Essa crueldade é uma espécie de senso de humor negro que tenho em relação a certas coisas. Foi uma brincadeira do Caio Fernando Abreu comigo, porque os meus contos foram considerados muito amenos, frágeis, e eu procuro dar uma transparência ao meu estilo, que, muitas vezes, é confundido com bobagem, com falta de consistência. Então, ele disse o contrário, que eram contos até cruéis, porque pegavam o lado cruel da natureza humana, que tem um lado mal, sem dúvida alguma.

– A senhora ainda consegue enxergar hoje a Juiz de Fora de "Os anos 40", sua primeira publicação?

– Na minha alma. Eu acho que a memória é o legado mais importante que o homem recebeu. É ela que nos une com a eternidade. Quando eu ando em Juiz de Fora hoje em dia, aqueles anos 40 voltam dentro de mim, e eu vejo a cidade com estes olhos ainda. Se bem que não existe quase nada mais dela dessa época, a não ser o Parque Halfeld, a Fábrica Mascarenhas e outros pontos. Mas as memórias são tão vivas que estes lugares estão lá o tempo todo presentes. Portanto, essa Juiz de Fora nunca morreu dentro de mim.

– Certa vez a senhora comentou que "Num reino à beira do rio" é, talvez, o seu livro mais curioso e o mais maduro e comovente, podendo ser um dos melhores. Pode-se dizer que estas qualidades influenciaram a sua reedição?

– Eu acredito que sim, mas o assunto é muito interessante porque tem a ver com a figura marcante do Murilo Mendes, que escreveu poemas para minha mãe, aos 18 anos. É uma seleção de textos que ele mesmo fez. Este tipo de poesia mostra uma cidade neste tempo, nesta época, o tipo de escolhas que o poeta fez e o convívio com a minha mãe. O livro rememora todo este período, é marcante para Juiz de Fora. Não sei se é o meu melhor livro, mas é o melhor no meu coração.

– A senhora comentou também que tem preguiça de escrever, que prefere a leitura, e que não precisa escrever mais. "Num reino à beira do rio" é a volta de Rachel Jardim às publicações?

– Tenho uma certa preguiça de escrever mesmo. Eu prefiro muito mais ler a escrever, aliás, muitos escritores preferem ler a escrever. Até o Rubem Fonseca sempre diz isso. Escrever dá muito trabalho, é muito chato, às vezes. Mas, nunca parei de lidar com a literatura. Neste tempo todo, sempre fiz artigos para várias revistas, para a Academia de Letras do Rio e de Minas, dou cursos o tempo todo sobre Proust, sobre literatura e agora vou ministrar um sobre Thomaz Mann.

– A senhora tem projetos de lançar mais algum livro?

– Eu não sei. Várias editoras me pedem para republicar textos meus, mas eu ainda não pensei, estou muito cansada de escrever. Eu acho que não vou fazer mais nada novo.

– De que maneira Proust a influencia em seus escritos?

– O tempo está sempre presente nos dois escritores. Em Proust ainda mais que em Machado, e isso fica muito claro no romance "Em busca do tempo perdido". Machado é uma pessoa que percebe o correr do tempo e a modificação dos seres humanos, as transformações dos eus. Os personagens vão mudando em função de acontecimentos, mas não em função deles próprios. Desde menina, a noção do tempo passando e da morte era muito viva em mim. Então, quando comecei a ler Proust, que explora este assunto às últimas consequências, eu me influenciei muito por ele. Claro que meu estilo é muito diferente. Eu faço frases curtas como Machado, e ele tem frases imensas. O meu estilo é muito "inconvencional".

– Gostaria que a senhora avaliasse as produções atuais.

– Tenho lido muito pouco a literatura contemporânea, porque não tenho afinidade com ela, não gosto dela. Ela aborda coisas que não me interessam muito. Eu sou uma pessoa que pensa muito, que passa a vida refletindo, e a literatura atual parece com autoajuda. É um tipo de produção que eu acho muito engraçada, no pior sentido da palavra, porque são textos que não me dizem muita coisa. O último escritor que leio com paixão é Thomaz Mann. Também gosto muito do Cornélio Pena, que é brasileiro, além de Guimarães Rosa e Machado. Vou até Virginia Woof e Katherine Mansfield, representantes da literatura inglesa dessa época.

– Como se dá a televisão neste contexto?

Acho que a literatura atual reflete a televisão, os programas da Globo, e as pessoas, de um modo geral, falam o tempo todo só bobagens. Se a televisão tem um lado muito bom, pois penetra em assuntos que não teríamos acesso, por outro lado, ela põe as coisas muito achatadas. Acho um desastre as entrevistas de escritores na TV. Só perguntam bobagens para eles. A televisão deu uma simplificação à literatura que foi muito ruim para ela. Atualmente, de interessante neste veículo, só telejornais. Eu assisto aos programas bons, que me colocam a par do que está acontecendo no mundo inteiro.

– Como a senhora avalia a internet no que diz respeito à disseminação da leitura?

– Eu acho que as pessoas têm muito acesso a informações que antes não tinham. É uma questão de progresso, temos que dar valor, sem dúvida. Mas, eu sou uma pessoa obcecada por leitura e prefiro pegar um livro a ler na internet. Claro que é porque eu tenho 86 anos, e estou muito longe dessa realidade. Agora, as redes sociais têm muita bobagem. Estes blogs, que eu ouço falar, são lugares onde todo mundo quer falar sobre si mesmo, se autopromover e fazer autolouvações com reflexões muito primárias e infantis. São conceitos aparentemente literários, inteligentes, mas que, na verdade, são ruins. É o individualismo delirante.

– Seria um espaço de popularização dos livros?

– Acredito que pode ser bom, desde que as coisas melhorem, e que o critério de avaliação vá se aperfeiçoando com o tempo. Por enquanto, tem muita coisa ruim publicada. Mas é sempre assim, com o passar dos anos a tendência é melhorar.