Ouça agora

Antítese do silêncio ensurdecedor


Por BRUNO CALIXTO*

12/08/2011 às 07h00

Sem rótulos. Nem roqueiro, nem pop, nem tribalista. Arnaldo Antunes também é iê-iê-iê, pelo menos enquanto durar a onda gerada pelo hibridismo sonoro proposto por ele, em que elementos da música internacional e da MPB se fundem de forma natural. O resultado é o CD/DVD "Ao vivo lá em casa", projeto lançado no final de 2010 e que chega, amanhã, ao Cultural Bar.

Gravado na residência do artista em comemoração aos seus 50 anos, o álbum é baseado no "Iê-iê-iê", disco de 2009 em que Arnaldo Antunes propõe um ritmo dançante – gênero consagrado pela Jovem Guarda -, com músicas que caíram no gosto do público. "O show tem como base canções como ‘Invejoso’, ‘Envelhecer’, ‘Meu coração’ e ‘Sua menina’, mas haverá outras coisas antigas, como "Pra aquietar", ‘Vou festejar’, ‘Americana’ e ‘Consumado’", adianta.

Versátil, Arnaldo é um poeta que flertou desde início da carreira com a poesia concreta dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, trabalhou com o experimentalismo do artista plástico José Roberto Aguilar e, durante muitos anos, fez parte dos Titãs, um grupo com claras influências do punk rock. Mas por que um compositor maduro gravaria um disco todo em homenagem à Jovem Guarda? "Não tem muita separação entre as coisas, está tudo misturado. Trabalhei com música popular no começo da minha carreira, e, no início, era Titãs do Iê-Iê, pois achávamos que eram dois ‘iês’. Agora, o momento é de releitura da releitura", diz. "Meus discos sempre foram muito variados, e desta vez venho com um rock mais melódico, um misto de gênero focado na ideia de revitalizar um gênero parado no tempo. Esse rock meio esquecido, sem continuidade ou evolução como samba, por exemplo, fez parte do início do rock e esteve em minha formação. Desde criança, ouvia Erasmo e Roberto."

O show, já apresentado em outras cidades, chega a Juiz de Fora depois de uma viagem do cantor à África, onde teve encontro com músicos de Mali. No palco, Arnaldo terá a companhia de banda formada por Edgard Scandurra e Chico Salem (guitarras), Betão Aguiar (baixo), Curumim (bateria) e Marcelo Jeneci (teclados).

Tudo em casa

Foi num clima de informalidade e celebração que Arnaldo Antunes solidificou o sonho de gravar "Ao vivo lá em casa", dirigido por Andrucha Waddington. "Tive essa ideia quando, há oito anos, mudei para a casa onde moro atualmente (em São Paulo). Vi que o terraço daria um palco perfeito", ele lembra. Cercado de familiares e amigos, como Erasmo Carlos e Fernando Catatau, o compositor aproveitou o entardecer para embalar seu lar com uma roda de samba dos Demônios da Garoa, que abriram a gravação e seguiram até o final da noite.

Previsto para outubro próximo, um CD de inéditas traz Arnaldo e Edgard Scandurra em parceria com o africano Toumani Diabaté. "Utilizamos instrumentos africanos como kora, balafon e soku", relata o cantor, detalhando sua última ida ao continente africano. "O disco terá uma sonoridade única, afinal, será resultado de uma mistura", completa o músico, sobre a ideia produzida por Gustavo Lenza e registrada em vídeo por Dora Jobim, que, de acordo com ele, deve lançar um documentário sobre as gravações.

Assim como tantos outros encontros de Arnaldo, esta trinca não é novidade. Toumani Diabaté se juntou aos brasileiros durante o festival Black2Black no Rio em 2010, ano em que Arnaldo Antunes comemorou meio século de vida, 30 de carreira e muitos ainda por vir. Ainda mais diante de tantos abraços coletivos que, junto às palmas finais, transformam a palavra cantada de Arnaldo em antítese do silêncio mais ensurdecedor.

ARNALDO ANTUNES

Amanhã, às 23h

Cultural Bar (Av. Deusdedit Salgado 3.955)

Abertura e fechamento com Eminência Parda

*Colaborou Eduardo Vanini

 

Show de Jorge Mautner


Aos 70, em ótima forma