Com as mãos na estatueta
Diz um boato californiano que, lá pelo fim dos anos 1920, Margaret Herrick, então secretária-executiva da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ao deparar-se com a estatueta que representava – e representa até hoje- a premiação da instituição que trabalhava, teria ficado surpresa com a semelhança com seu tio Oscar. Outra versão do mexerico diz que a alcunha foi dada pela atriz Bette Davis, ao ver o primeiro marido, Harmon Oscar Nelson, refletido no boneco banhado a ouro. Talvez nunca cheguemos à versão oficial sobre como o troféu veio a se chamar Oscar, mas é fato que o careca mais famoso do mundo representa a premiação mais conhecida e glamourosa do cinema e, novamente, as apostas em vencedores do título estão na mesa.
Se depender dos palpites, o favorito à principal premiação é Argo, de Ben Affleck, suspense dramático que reconta uma operação de resgate a seis americanos, nos bastidores da crise do Irã. Ele conseguiu fazer uma representação política e cultural dos anos 1970/1980 e deste momento incrível da história americana que se manteve em sigilo até hoje. E todos os atores pareceram se envolver bem na trama. Ficaram completamente imersos nos personagens, assim como eu quando assisti ao filme. Sem piscar, opina a mestre em comunicação e diretora de audiovisual Lilian Werneck.
Um dos fortes indicadores da vitória de Argo é a aclamação do longa em importantes festivais. Além de já ter ganho os principais prêmios americanos (dos sindicatos e da crítica), o filme é milimetricamente pensado para agradar a Academia. Do roteiro à direção, tudo em ‘Argo’ procura se adequar ao chamado ‘cinema clássico’, muito popular entre público e crítica norte-americanos e, claro, entre os responsáveis pela premiação, opina Dimas Tadeu, mestre em comunicação pela UFJF e crítico de cinema dos sites Pipoca Moderna e Papo de Cinema.
Muito questionada na mídia, a não indicação de Ben Affleck como melhor diretor pela Academia divide opiniões quanto à sua influência na escolha de Argo pelos acadêmicos. A simples não indicação para melhor diretor, num contexto em que o próprio sindicato da categoria o reconhece como o melhor do ano, por exemplo, faz com que o filme receba ainda mais atenção de todos os votantes. Não acredito que a lógica da ‘compensação’ funcione muito para outras categorias, especialmente considerando que os votantes são diferentes e, geralmente, especialistas. Mas no caso de melhor filme, isso só aumenta o favoritismo de ‘Argo’, pondera Dimas.
Por outro lado, não ter Affleck entre os indicados pela direção também pode abrir espaço para que outro longa leve a estatueta como melhor filme. Pela lógica, ‘Argo’ é o favorito absoluto, mas se vencer, fará história. Desde ‘Conduzindo Miss Daisy’ (1989), um filme não vence a categoria principal sem que seu diretor também concorra ao prêmio, observa o jornalista e cinéfilo Luiz Otávio Vieira.
Para ele, caso o favorito seja derrotado, será difícil prever quem levará o Oscar, embora a cotação de Lincoln esteja alta entre os apostadores. O filme corrobora todos os valores morais – além de estéticos, éticos, políticos e econômicos – da conservadora indústria americana, justifica o cineasta e curador da Mostra do Filme Livre, Marcelo Ikeda. ‘Lincoln’ é autoindulgente e verborrágico demais para o gosto dos acadêmicos, e ‘O Lado Bom da Vida’ se sustenta unicamente em sua pesada campanha de marketing, opina Luiz Otávio.
‘Indomável sonhadora’ vem sendo apontado como um possível azarão, mas acredito que as chances do filme levar o prêmio são pequenas, acrescenta o cineasta juiz-forano Tomyo Costa.
Queridinho do público ao abordar as dores do envelhecimento de forma franca e doce, Amor(França/Alemanha/Áustria) deve passar batido na categoria, mas não voltará para casa de mãos vazias. O fato de ter sido indicado para melhor filme e melhor filme estrangeiro já deixa no ar que eles levam a segunda estatueta. Fora isso, não acredito que haverá grandes surpresas. Já era esperado que ‘As aventuras de Pi’ e ‘Os miseráveis’ fossem indicados, por serem super produções, e ‘O lado bom da vida’ é uma grata surpresa por se tratar de uma ‘comédia’ – que tem um fundo bastante dramático -, mas não acho que eles estejam, de fato, no páreo, conclui o ator juiz-forano Breno Motta, que integrou o elenco do programa Amor e sexo, da Globo.
Outras categorias
Com a ausência de Affleck entre os premiáveis, a escolha do melhor diretor é a categoria mais nebulosa de 2013, mas o veterano Steven Spielberg larga na frente com Lincoln. No longa, ele difere bastante de seu estilo mais comum, sendo elegante, comedido e enchendo o filme com nuances bastante sutis. Ang Lee, no entanto, também merece muito este prêmio. Seu estilo casa-se perfeitamente com a trama de ‘As aventuras de Pi’ e, mesmo com um universo de efeitos especiais, Lee não perde as rédeas da história, nem sua simplicidade, avalia o crítico Dimas Tadeu. Além de Spielberg e Lee, estão na disputa Michael Haneke (Amor), Benh Zeitlin (Indomável sonhadora) e David O. Russell (O lado bom da vida).
Como melhor ator, todas as fichas estão em Daniel Day-Lewis, que interpretou o personagem-título de Lincoln. Ele concorre com Denzel Washington (Voo), Bradley Cooper (O lado bom da vida), Joaquin Phoenix (O mestre) e Hugh Jackman (Os miseráveis), possível azarão da noite, apesar das chances remotas. Daniel Day-Lewis tem um grande trunfo: a força de um personagem histórico, como foi o caso de Meryl Streep, no ano passado, com sua interpretação de Margareth Thatcher, indica Tomyo Costa.
No entanto, tanto Spielberg quanto seu protagonista podem sair de mãos abanando por já terem recebido o Oscar, tendo, cada um, duas estátuas no currículo. Há uma ‘lógica’ particular da Academia de que aqueles que foram premiados recentemente não merecem reconhecimento consecutivo. Um absurdo que fere a assertiva de que o melhor deveria sempre vencer, lamenta Luiz Otávio.
No hall de melhor atriz, há um consenso de que quem sai vitoriosa é a nova namoradinha da América, Jennifer Lawrence, por sua atuação em O lado bom da vida, embora haja uma torcida igualmente consensual pela protagonista de Amor, Emanuelle Rivas, que mostra na telona o cotidiano de uma vítima de derrame. Embora Lawrence seja uma atriz excepcional, a garota não consegue ofuscar a brilhante atuação de Rivas. Mais do que representar de forma esmagadora e precisa uma situação que poderia ser a sua própria, a mais velha indicada ao Oscar em toda a história é também um símbolo do cinema francês e mundial. Mesmo assim, Jennifer deve levar o prêmio, destaca Dimas. Correndo por fora, ficam Naomi Watts (O impossível), Jessica Chastain (A hora mais escura) e a pequena Quvenzhané Wallis (Indomável sonhadora), de apenas 9 anos.
Para o cineasta e curador da Mostra do Filme Livre do Rio, Marcelo Ikeda, a relevância do prêmio da Academia como termômetro de qualidade da cinematografia deve ser questionada. Acredito que o Oscar está mais voltado para os valores de mercado da indústria norte-americana do que interessado em apontar novos caminhos para o cinema. É o que também defende a diretora e integrante do Grupo Luzes da Cidade, Marília Lima. A premiação é bem política e valoriza pouco os filmes que transcendem a linguagem clássica. O Festival de Cannes, por exemplo, é mais interessante por abrir espaço para os filme experimentais e autorais.
Já o ator Breno Motta defende que os holofotes sobre a estatueta dourada justificam sua importância. A premiação do Oscar é a que possui a maior visibilidade. Talvez não seja a mais relevante para o cinema, visto que Cannes, na minha opinião, é o festival de maior respaldo atualmente. Porém, como o Oscar é realizado no país que é o maior produtor de cinema do mundo, sem dúvida alguma ele ganha uma repercussão muito superior a qualquer outro prêmio.
Dimas Tadeu também argumenta neste sentido. Os vencedores do Oscar serão lembrados não apenas por cinéfilos, mas também pelas distribuidoras, que levarão os títulos a ainda mais salas em todo o mundo. E claro, pelo público, que vai querer assisti-los. Ganhar um Oscar – ou simplesmente ser indicado – significa ser visto por milhões de espectadores em todo o mundo, uma conquista importantíssima para qualquer cineasta.









